O mercado de trabalho brasileiro está passando por uma transformação silenciosa, mas de impacto direto nas estratégias de atração de talentos. Dados inéditos do Infojobs, plataforma de recrutamento da Redarbor Brasil, revelam que as vagas com salário divulgado receberam 29% mais candidaturas do que aquelas com remuneração confidencial no primeiro trimestre de 2026. O levantamento acende um alerta para empresas que ainda resistem à transparência como ferramenta competitiva. A análise, que cruzou o volume de candidaturas com as características das ofertas publicadas na plataforma, também identificou uma mudança nas prioridades dos profissionais brasileiros: benefícios e modelos de trabalho flexíveis passaram a disputar espaço com o salário na tomada de decisão de quem busca uma nova posição. O movimento é confirmado por pesquisas recentes: levantamento da consultoria Talenses Group com 2.400 profissionais brasileiros, realizado em agosto de 2025, revelou que 67% preferiam modelos híbridos ou remotos, e 41% considerariam mudar de emprego caso sejam forçados a retornar ao escritório cinco dias por semana. "Quando uma empresa opta por não divulgar o salário, ela perde candidatos ainda na primeira etapa, antes mesmo de haver qualquer contato. O profissional muitas vezes, segue em frente para a próxima oferta, com isso, a empresa perde atratividade para talentos aderentes ao perfil. Quanto mais informações, mais transparência no processo, gerando vantagem competitiva", afirma Patrícia Suzuki, Diretora de RH da Redarbor Brasil, detentora do Infojobs. A disparidade de 29% nas candidaturas não é apenas um número: ela representa uma janela de oportunidade para organizações que desejam ampliar o funil de seleção sem aumentar o investimento. Ao informar a faixa salarial, a empresa não só atrai mais candidatos, como atrai candidatos mais alinhados às suas condições, o que reduz o tempo e o custo do processo seletivo. O dado reforça ainda um segundo fenômeno identificado pelo Infojobs: o papel crescente dos benefícios e da flexibilidade na escolha profissional. Vagas que descrevem com clareza pacotes como plano de saúde, auxílios, bônus e modelos híbridos ou remotos apresentaram maior engajamento em comparação com ofertas de perfil tradicional que silenciam sobre essas condições. A tendência encontra respaldo em pesquisa da Serasa Experian realizada em dezembro de 2025 com 3.828 brasileiros: o equilíbrio entre vida pessoal e profissional foi apontado como principal critério de escolha de uma vaga por 47,4% dos entrevistados, à frente de crescimento de carreira, estabilidade e remuneração. "O candidato pesquisa, compara e decide com base em informações. Salário ainda importa, e muito. Mas o profissional também quer saber como vai trabalhar, com que frequência precisa ir ao escritório e quais benefícios fazem parte do pacote. A vaga que não responde a essas perguntas perde para a que responde, mesmo que a remuneração seja semelhante", explica Patrícia Suzuki. O movimento reflete uma mudança de comportamento que se intensificou nos últimos anos, impulsionada pela digitalização dos processos seletivos e pela maior oferta de vagas em modelos flexíveis. Pesquisa intitulada "Work: In Progress", divulgada durante o Google Cloud Summit Brasil 2025, revelou que 93% dos entrevistados afirmaram sentir-se mais satisfeitos com o modelo híbrido e com a possibilidade de dias flexíveis, e 56% disseram que mudariam de emprego caso a empresa oferecesse condições mais adequadas ao modelo remoto ou híbrido. O dado indica que a flexibilidade deixou de ser benefício acessório para se tornar critério eliminatório na decisão de aceitar ou rejeitar uma oferta. Para as empresas, o recado é claro: a omissão de informações estratégicas nas vagas não protege a negociação, ela reduz o alcance do processo seletivo. Quando questionados sobre benefícios inegociáveis, a flexibilidade no modelo de trabalho híbrido ou remoto foi destacada pela maioria dos entrevistados (46%), superando plano de saúde (24%) e vale-alimentação ou refeição (19%), segundo pesquisa da WeWork em parceria com Page Outsourcing, realizada com mais de 10 mil profissionais na América Latina. A transparência, nesse contexto, cria um ambiente de maior confiança desde o primeiro contato entre candidato e organização. "A empresa que disponibiliza as informações desde o início do processo, chega à entrevista com um candidato que já sabe o que esperar. Isso poupa tempo dos dois lados e aumenta as chances de uma contratação bem-sucedida. Transparência gera alinhamento, e alinhamento gera retenção", reforça Patrícia Suzuki. O levantamento do Infojobs também indica que vagas com descrições mais completas, incluindo detalhes sobre cultura organizacional, rotina de trabalho e critérios de elegibilidade, tendem a apresentar taxas de desistência menores ao longo do processo. A coerência entre o que é prometido na vaga e o que o candidato encontra nas etapas seguintes é apontada como um dos principais fatores de satisfação entre os profissionais que concluíram processos seletivos pela plataforma.