Seu emprego vai existir daqui a cinco anos? Pesquisadora responde‘O impacto da IA não é demissão, mas o desaparecimento dos cargos de entrada’, afirma pesquisadora.Gerando resumoNa última segunda-feira, 15, Vanessa Passos, de 42 anos, pediu demissão de um emprego com carteira assinada, onde trabalhou por nove meses como recepcionista bilíngue.PUBLICIDADEEla decidiu sair porque foi aprovada para uma vaga, também de atendimento ao público, mas que oferece condições melhores de trabalho e perspectivas de crescimento profissional em relação ao último empregador. No novo emprego, o salário será 10% maior, haverá aumento significativo nos benefícios, como o valor do vale-alimentação. Além disso, o local de trabalho fica mais perto da sua casa – ela mora na zona Leste da capital paulista e vai trabalhar na unidade do Sesc Belém, na região. O convênio de saúde oferecido pelo novo empregador também é melhor e a empresa tem plano de carreira.Fluente em inglês por ter morado nos Estados Unidos, Vanessa é formada em gestão de RH (Recursos Humanos) e tem pós-graduação em psicologia organizacional. Vai começar em uma vaga de nível médio, mas vê possibilidade de evoluir. Em um ano, ela pretende tentar alguma vaga interna que possa ganhar mais. “Minha amiga fez igual e hoje recebe o dobro do que eu vou começar a ganhar agora.”Publicidade Vanessa Passos, recepcionista bilíngue, pediu demissão e vai começar em outro emprego que oferece condições melhores Foto: Bruno RampazzoVanessa faz parte de um grupo de milhões de empregados com carteira assinada que decidiram pedir demissão em busca de uma oportunidade melhor de ocupação num momento em que o mercado está superaquecido e favorável aos trabalhadores.O aquecimento aparece não apenas na taxa de desemprego que ficou em 5,8% no trimestre encerrado em abril, o menor índice para o período desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatítica (IBGE). Mas também nos níveis recordes de rotatividade da mão de obra e do número de brasileiros que decidiram pedir demissão.Leia tambémSetor de petróleo vive boom com salários de até R$ 40 mil, mas tem onda de golpes de falso empregoRelator da 6x1 faz aceno a mães com filhos com deficiência e inclui cálculo para proteger salárioEm 12 meses até abril deste ano, 9,1 milhões de trabalhadores se desligaram do emprego formal a pedido. É a maior marca da série iniciada em dezembro de 2004, aponta um estudo da consultoria 4intelligence, elaborado a partir de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego.“Um pouco mais da metade dos trabalhadores formais trocaram de emprego em 12 meses”, observa Bruno Imaizumi, economista responsável pelo estudo. Ele se refere à taxa de rotatividade, que atingiu 52,6% em abril deste ano. É um resultado recorde da série que começou no final de 1995. PublicidadeO economista observa que a rotatividade elevada reflete o aquecimento do mercado de trabalho (a rotatividade pode ocorrer por aquecimento do mercado, salário baixo, qualidade do emprego e informalidade). Isto é, os trabalhadores estão encontrando novas oportunidades e trocando de emprego.Como o mercado de trabalho brasileiro é formado por uma grande massa de pessoas com qualificação média e baixa, as vagas geradas não exigem grandes requisitos. “É uma questão estrutural”, diz Imaizumi. E, em momentos de aquecimento do mercado como o atual, a rotatividade cresce ainda mais.Hélio Zylberstajn, professor sênior da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), coordenador do Salariômetro e especialista em relações de trabalho também observa que existe uma parcela estrutural e outra conjuntural que explicam a elevada taxa de longo prazo de rotatividade da mão de obra na economia brasileira.Ninguém veste a camisa de ninguémCONTiNUA APÓS PUBLICIDADESegundo ele, o nível de comprometimento entre a empresa e o trabalhador no País é muito baixo. “Não existe muito compromisso, não existe muita ética no mercado de trabalho. As empresas não investem nos trabalhadores, porque elas imaginam que eles não vão ficar muito tempo. E os trabalhadores não investem nas empresas pela mesma razão”, afirma Zylberstajn.O resultado dessa falta de interação é uma alta taxa de rotatividade da mão de obra, estruturalmente elevada, e que ganha fôlego em momentos de aquecimento da atividade. “Em outros países, os contratos de trabalho são mais duradouros, porque existem regras que restringem essa mobilidade”, explica o professor. Imaizumi destaca que a maioria das empresas não oferece planos de carreira, estruturas salariais decentes. “Então, qualquer ganho a mais que um trabalhador enxerga em outra oportunidade, ele tende a migrar, seja em termos de benefícios, seja em qualidade de vida ou seja mesmo em questões de remuneração.”Perfil do trabalhador que pede demissãoEm termos absolutos, o maior número de pedidos de demissão nos últimos 12 meses está concentrado entre brasileiros com nível de ensino médio e idade em torno de 40 anos, que é a grande parte da população ativa.No entanto, se forem considerados os desligamentos a pedido por grupos em relação ao total de desligados – que pediram a conta ou foram demitidos –, a participação dos mais jovens e mais escolarizados se destaca e supera a média.Em abril, a taxa média acumulada em 12 meses do total de desligamentos voluntários em relação ao total foi de 36,7%. Nesse período, o maior índice de participação foi registrado no grupo dos trabalhadores com ensino superior incompleto, que foi de 43% e superou a média de 36,7% de todos que pediram demissão voluntariamente.Na mesma base de comparação, quando os pedidos de demissão são avaliados por idade, a maior fatia em 12 meses até abril ficou com os trabalhadores de até 17 anos de idade, que foi 44%, revela o estudo. Rotatividade ganha força no setor de serviçosRespondendo por 57% dos empregos formais do País e por 70% do Produto Interno Bruto (PIB), o setor de serviços, onde a recepcionista bilíngue Vanessa Passos atua, é um dos que mais sentiram o aumento da rotatividade dos trabalhadores por conta do aquecimento da economia.Em 2021, a rotatividade dos trabalhadores do setor era de 42% e, neste ano, subiu para 50%, segundo estudo realizado pela Fecomercio- SP a partir de dados nacionais do Caged.PublicidadeO estudo revela o avanço da rotatividade dos trabalhadores do setor de serviços por outra métrica: o tempo médio de permanência no trabalho. Em fevereiro de 2021, por exemplo, o brasileiro permanecia no emprego no setor de serviços, em média, por 25 meses, um pouco mais de dois anos. Em fevereiro deste ano, essa média tinha recuado para 18 meses, ou seja, um ano e meio.Nesse período, o volume de admissões cresceu cerca de 80%, indicando um mercado de trabalho aquecido, porém mais instável.“Para a empresa e para a economia, a alta rotatividade da mão de obra é ruim, porque ela traz custos”, afirma Bruno de Souza Pinto, assessor econômico da entidade. É que, com a maior movimentação de trabalhadores, os gastos diretos com verbas rescisórias aumentam e custos indiretos também. Isto é, investimentos no treinamento do novo funcionário. “Isso leva a uma queda na produtividade, o que acaba sendo um fator negativo para a economia”, diz o economista da Fecomercio-SP. No entanto, pelo lado trabalhador, ele pondera que pode haver um ganho, pois o mercado aquecido abre novas possibilidades de emprego com ganhos salariais.PublicidadeJá para Zylberstajn, da FEA/USP, todos — empresa, trabalhador e economia — perdem com o aumento da rotatividade dos empregados. Isso porque, quando o trabalhador não fica por muito tempo na empresa, ele não aprende a executar direito a função, argumenta.A empresa, por sua vez, diz ele, não investe no trabalhador e a produtividade não cresce. “A produtividade não crescendo, a empresa perde e o trabalhador perde, porque ele poderia ganhar mais se fosse mais produtivo.”
Brasileiros estão trocando de emprego como nunca; entenda os motivos desse movimento
9,1 milhões pediram a conta nos últimos 12 meses até abril e 52,6% trocaram de emprego, aponta estudo









