Indicador reflete o baixo entusiasmo dos brasileiros com a queda do número de desocupados, que se deve principalmente à geração de vagas de baixos salários e mascara uma distribuição desigual da alta da renda Movimento no Polo Saara, no Centro do Rio: salários não acompanharam recuperação da economia como um todo — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/05/2026 - 19:19 Desemprego em queda, mas renda e poder de compra seguem baixos no Brasil Apesar da queda histórica no desemprego, a renda do trabalho no Brasil ainda não alcançou níveis pré-pandemia, impactando o poder de compra dos trabalhadores. A criação de empregos se concentra em vagas de baixos salários, enquanto o crescimento de rendimentos se deve mais à mudança no perfil dos trabalhadores do que a aumentos salariais significativos. Transferências governamentais aumentaram, mas a desigualdade e o endividamento persistem. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O mercado de trabalho brasileiro está no seu melhor momento, com a taxa de desemprego nas mínimas históricas, mas a renda do trabalhador, por mais que tenha subido após a pandemia, ainda não retomou o patamar anterior à Covid-19, quando se compara a participação dos salários no Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, na economia. É mais um indicador que reflete o baixo entusiasmo dos brasileiros com a queda do número de desocupados, que se deve principalmente à geração de vagas de baixos salários e mascara uma distribuição desigual da alta da renda, que nem sempre representa aumento de poder de compra para algumas faixas de trabalhadores. Segundo cálculos do economista-chefe da corretora Tullett Prebon Brasil, Fernando Montero, a massa de renda do trabalho representava 34,75% do PIB em dezembro de 2019 e, mesmo com todo o crescimento dos salários desde então, ainda estava em 34,48% em março deste ano, dado mais recente, tomando por base a soma dos ganhos dos trabalhadores captados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE. Já a renda total das famílias, que engloba salários, aposentadorias e benefícios, superou o patamar pré-Covid, chegando a 55,84% frente a 53,74% em 2019. — Os rendimentos do trabalho quase voltaram ao que eram antes da pandemia em relação ao PIB. É uma volta expressiva, tinham caído muito, mas as ocupações são de baixa remuneração — diz Montero. O pesquisador do FGV Ibre, Fernando de Holanda Barbosa Filho, em estudo recente, mostrou que a alta de 8,6% no rendimento médio do trabalhador desde 2019, atingindo nível recorde, está mais relacionada à composição do mercado de profissionais, hoje mais escolarizado e mais velho, do que a uma melhoria disseminada entre todos os trabalhadores. Ou seja, para parte da população, não houve aumento do poder de compra. Em alguns casos, houve até queda. — Na hora em que se compara o mesmo tipo de pessoa, em 2019 e hoje, o salário ainda não recuperou o nível anterior. A pessoa vai no supermercado e compra menos hoje do que comprava em 2019. Ou precisa gastar mais. Não importa que a taxa de desemprego seja a menor da história se meu padrão de vida não está melhorando — diz Barbosa. Vagas de até 1,5 salário Na conta do pesquisador, que fez o estudo juntamente com Janaína Feijó e Paulo Peruchetti, ao isolar esses efeitos da mudança estrutural do mercado de trabalho, o rendimento do trabalhador caiu 0,4% frente a 2019. Depoimento: ‘Dinheiro não é suficiente para cobrir tudo', diz Helder Luiz, eletricitário "Eu consegui alugar um carro e comecei a rodar no Uber em 2021, com o objetivo de complementar a minha renda familiar. Antes da pandemia, eu trabalhava apenas como CLT e não fazia nenhum trabalho extra. Hoje, mudei de empresa, mas continuo trabalhando de carteira assinada. Sou assistente técnico de uma distribuidora de energia e faço renda extra dirigindo no aplicativo, porque só o salário fixo não é suficiente para arcar com todos os custos da minha casa. Sou casado, tenho quatro filhos, moro de aluguel, e as despesas são muitas. Helder Luiz, eletricitário, complementa renda formal com corridas por aplicativo — Foto: Arquivo pessoal Minha renda era mais estável antes da pandemia, mas eu não ganhava mais do que ganho hoje. Mesmo trabalhando muito, o dinheiro não é suficiente para cobrir tudo. Depois que comecei a rodar no Uber mais tarde da noite, minha renda aumentou, mas ainda assim não é o bastante para viver com tranquilidade. Os meus maiores gastos são a prestação do carro, essencial para eu conseguir trabalhar no Uber, e o cartão de crédito. Infelizmente, já precisei pegar empréstimos várias vezes para conseguir pagar as dívidas mensais e colocar as contas em dia. Mesmo trabalhando em duas ocupações, ainda é difícil manter o equilíbrio financeiro e dar conta de todas as despesas da família.” Subutilização agrava mal-estar João Saboia, professor emérito do Instituto de Economia da UFRJ e especialista em mercado de trabalho, lembra que, apesar do baixo desemprego, há um contingente de ocupados subutilizados, que trabalham menos horas do que gostariam e até desistiram de procurar uma vaga, saindo da força de trabalho. Ao se somarem aos 6,6 milhões de desempregados, há 16,3 milhões nessa condição desfavorável. — Há uma parcela no mercado que está mal, ganhando pouco, no desespero, o que fez o endividamento explodir. A melhora nos últimos anos é impressionante, mas não dá conta. E quem está entrando é com salário baixo — diz Saboia. Ele observa que o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, que acompanha os registros de criação de postos com carteira assinada, mostrou que, em março, mais de 90% das mais de 200 mil vagas geradas foram de até 1,5 salário mínimo, cerca de R$ 2,4 mil. Para Saboia, isso explica em parte os problemas de avaliação do governo Lula, apesar do desemprego baixo: — Não é suficiente para garantir bem-estar. Ninguém vive de taxa de desemprego. Depoimento: ‘Estou tentando me organizar para quitar as dívidas’, diz Patrícia Silveira, vendedora ‘"Antes da Covid-19, eu tinha um trabalho fixo e conseguia arcar com todas as despesas da casa e do meu filho, hoje com 13 anos, mas fiquei desempregada na pandemia e voltei para o mercado de trabalho só em janeiro de 2025. Comecei a receber o Bolsa Família, no valor de R$ 450 mensais, logo após a pandemia. O benefício era essencial porque, naquele momento, era minha única fonte de renda. Hoje, ainda recebo o benefício, mas trabalho vendendo planos de TV e celular de uma operadora nas ruas. Tenho um salário fixo, mas dependo das comissões quando consigo bater metas. Patrícia Silveira, vendedora, tenta se organizar para quitar as dívidas — Foto: Arquivo pessoal Se for comparar com o que eu ganhava antes da pandemia, recebo mais atualmente. Quando consigo bater uma meta, o valor final do meu salário fica um pouco maior do que era antes. Mas as coisas ficaram tão mais caras que, mesmo ganhando um pouco mais, o dinheiro não é suficiente. Minha renda é distribuída por todas as despesas de casa. Meus maiores gastos são com alimentação. Também tenho dívidas e já precisei recorrer a empréstimos e ao cartão de crédito, tanto meu quanto emprestado, para pagar contas. Estou tentando organizar minha vida financeira aos poucos para quitar as dívidas.” Aumento dos benefícios foi mais significativo Fernando Montero afirma que o aumento das transferências governamentais — como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC), aposentadorias, seguro-desemprego — fez a renda total das famílias ultrapassar o patamar anterior à pandemia frente ao PIB. Esses benefícios representam hoje 21,36%, acima dos 19% de dezembro de 2019. Ele calcula que 21,6 milhões de novas rendas foram criadas no país desde 2020, mas só 41% provenientes das novas ocupações geradas no período. Para ele, essa combinação de ocupações de baixa remuneração e benefícios que dão acesso ao crédito bancário ajuda a explicar o alto endividamento. — Chama a atenção o aumento das transferências públicas para as famílias, que vêm ganhando espaço no total da renda disponível — diz o o economista-chefe da Tullett Prebon Brasil. — Nos últimos anos, foram criadas muitas rendas baixas e modalidades de crédito para essas rendas. E os juros depois tomaram conta. Na lógica do gasto é vida, (o presidente) Lula vê o crédito e não vê a dívida. Com o crescimento do endividamento das famílias, o pagamento de débitos já consome, em média, 30% do orçamento doméstico, o maior índice das últimas décadas. E a dívida pública brasileira está em cerca de 80% do PIB. Era de 73% no início do atual mandato de Lula. Efeitos em 2027 Cecília Machado, professora da PUC e economista-chefe do Banco BoCom BBM, diz que, olhando para frente, será difícil para o governo manter a expansão das transferências, diante do aperto das contas públicas. E o mercado de trabalho deve sentir, no próximo ano ou em 2028, os efeitos da economia crescendo num ritmo mais devagar. A estimativa para este ano é de alta do PIB de 1,85% contra os 2,3% do ano passado. — Há um enorme desafio para 2027 quanto à continuidade da expansão. Espera-se, até mesmo, necessidade de algum tipo de ajuste num mercado de trabalho que responde com defasagem à desaceleração — ela diz. Outro cruzamento, desta vez feito pelo economista João Hallak, conselheiro do Corecon-RJ, que vem estudando a divisão da renda entre capital e trabalho, mostra que a parcela dos salários no PIB ainda está em 43,9%, menor que a de 2016 (44,7%). — O mercado de trabalho esteve muito aquecido até 2014, e as perdas com a recessão de 2015 começaram a bater na participação em 2016. Nos anos seguintes, até 2020, houve esfriamento do mercado de trabalho, a política de valorização do salário mínimo foi abandonada, e o PIB caiu. A pandemia foi uma pancada muito forte, com cerca de 10 milhões de empregos perdidos. A recuperação só começa em 2022. *Estagiária sob supervisão de Janaina Lage