Num país com mais de 110 mil caçadores licenciados, segundo dados do próprio ICNF, o Ministro da Agricultura e Mar acha importante vir lamentar que existam “caçadores a menos”. Foi a isto que chegámos em 2026. Com tudo o que a ciência evoluiu, com tudo o que se sabe sobre a senciência dos animais, sobre os seus papéis no planeta, não só como indivíduos, mas também como membros de uma determinada espécie.Portanto, para o Sr. Ministro e seus aliados da caça, o problema não é a destruição de habitats que tantas vezes leva a problemas de controlo populacional, não é a perda brutal de biodiversidade, nem a pressão humana constante sobre os ecossistemas. Não lhes ocorre que o correcto, o eticamente decente, seria pegar na incapacidade crónica do país para investir seriamente em coexistência e em soluções não-letais e transformá-la em algo verdadeiramente útil e positivo. O problema, aparentemente, é haver poucas pessoas armadas a perseguir e matar animais.Nada disto surge isolado, como bem sabemos. Surge depois de semanas e semanas de ataques à conservação da natureza, de pressão sobre organismos com provas mais do que dadas do seu bom trabalho (falo da “telenovela” das mudanças no Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico), de hostilidade contra a protecção de espécies selvagens (e não só) e de um discurso político cada vez mais alinhado com interesses cinegéticos e outros que continuam a olhar para os animais como alvos, incómodos ou meros recursos.A conversa é sempre a mesma; se há lobos, são para matar. Se há javalis, são para matar. Se há animais que afectam culturas agrícolas, são para matar. A única solução possível para esta gente é a violência, a destruição e a morte.