Durante anos, a extrema-direita violenta foi encarada, pela sua marginalidade, como ruído de fundo. O ódio propagado por grupos neonazis surgia como provocação online, muitas vezes desculpada como “liberdade de expressão” levada ao limite. Crimes como o assassinato de Alcindo Monteiro nunca foram esquecidos, mas permaneceram na memória colectiva como episódios isolados.Hoje, o cenário é distinto. Nos últimos dois anos, grupos neonazis tornaram-se mais interventivos, com invasões a casas de imigrantes, agressões a manifestantes do 25 de Abril, ataques a voluntárias de apoio a sem-abrigo e a agressão ao actor Adérito Lopes, em frente ao Teatro A Barraca. Apesar disso, persiste a ideia de que estas organizações não constituem uma ameaça física real, como se o incitamento ao ódio permanecesse confinado ao discurso.Essa leitura falha quando os próprios grupos defendem a passagem “das palavras aos actos” e assumem realizar treino de milícia para o “combate urbano”, descrito como “guerra racial” ou “guerra civil”. No caso de organizações neonazis estruturadas, tratar o ódio como fenómeno meramente discursivo é politicamente irresponsável. Não estamos apenas perante palavras, mas perante processos de normalização da violência e preparação material para a acção.É neste contexto que deve ser lida a Operação Irmandade, lançada pela Polícia Judiciária, que trouxe alguma luz sobre o grupo 1143 enquanto organização neonazi estruturada, com hierarquias, referências internacionais e uma prática sistemática de legitimação da violência. O seu racismo e misoginia não são excessos retóricos, mas parte integrante de uma visão política orientada para a acção violenta.Entre os factos tornados públicos, destaca-se a intenção de um elemento do grupo em identificar o meu paradeiro habitual e incentivar o grupo a passar à acção, num contexto de ameaças de morte intensificadas. Foi-lhe apreendida uma arma, e o tribunal considerou persistente o risco de actividade criminosa. O dado politicamente relevante, porém, não é apenas esta intenção, mas o facto de o grupo não ter sido desmantelado. Apesar da prisão preventiva do actual líder, o 1143 mantém-se activo, reorganizando-se e formando novos quadros.A emergência destes grupos não ocorre num vazio político. Existe uma circulação de referências, repertórios e quadros entre movimentos neonazis e a extrema-direita parlamentar. Entre os detidos na operação foram identificados actuais e antigos militantes do Chega, incluindo candidatos autárquicos. O líder do 1143 incentivou também a filiação no partido, com instruções explícitas para ocultar ligações à extrema-direita violenta.Estes dados não autorizam uma sobreposição mecânica entre o Chega e o 1143, mas revelam uma mutualização de espaço político que favorece a legitimação e o crescimento de organizações neonazis. A experiência internacional mostra como partidos de extrema-direita próximos do poder criam contextos de maior tolerância e impunidade para grupos paramilitares, mesmo sem integração formal no Estado.Perante este quadro, a resposta do Estado português tem sido reactiva e insuficiente. Reconhece-se o risco, mas tolera-se a continuidade política destas organizações. A história mostra que milícias não se combatem apenas nos tribunais. Combatem-se com organização colectiva, solidariedade activa e resposta política à altura da ameaça. Perante uma extrema-direita que se organiza para a violência, a mobilização consciente e organizada é uma necessidade democrática elementar.Texto corrigido às 8h56 desta terça-feira. Adérito Lopes foi agredido em frente ao Teatro A Barraca.