O descolamento entre as bolsas de Nova York e a do Brasil atingiu um ponto nevrálgico nesta terça (26) que traz uma questão à mesa dos operadores do mercado financeiro: os ativos americanos ainda podem ser considerados um termômetro do apetite por risco no mundo? A distorção não está aqui, mas lá fora. A sessão brasileira refletiu exatamente o sentimento do mercado: carteiras de ações mais leves, juros mais altos. Investidores abandonaram, mais uma vez, as esperanças na proximidade de um acordo entre Estados Unidos e Irã para o Estreito de Ormuz. O Ibovespa cedeu 0,7%, a 176.589 pontos no fechamento. Com o desempenho de hoje, o índice reduziu os ganhos nesta semana a 0,22% e, no mês está com perdas de 5,73%. No acumulado do ano até aqui, a alta da carteira é de 9,6%. O acirramento das tensões entre EUA e Irã após os ataques americanos contra navios iranianos na noite de ontem, que prega petróleo caro por mais tempo, ressoou nos ativos locais. A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,01% para 14,06% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 13,80% para 13,91% ao ano.Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 13,89% para 13,97% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo. Donald Trump até tenta convencer o mercado financeiro de que a ofensiva americana foi legítima e não ameaça as negociações, mas fato é que o tom das autoridades iranianas mudou, o que sugere que as tratativas podem estar sobre um novo impasse. Sem garantias e diante do crescente descrédito do presidente americano, não há razão para acreditar que os índices acionários em Nova York subiram porque por lá as palavras do republicano reverberaram de outra forma. Apesar das eventuais correções nos ativos na retomada do pregão nos EUA após um feriado, o contínuo estrangulamento do fluxo no Estreito de Ormuz e do choque da oferta de energia no mundo ainda são questões centrais e concretas - para os investidores e para governos do Oriente ao Ocidente. O dólar à vista avançou quase 0,2% nesta sessão, a R$ 5,03. Na semana, o movimento é lateral, mas, no mês, ainda está com alta de 1,5% sobre o real. No ano até aqui, cedeu 8,4% no mercado de câmbio local. Olhadas sob essa perspectiva, as próprias bolsas americanas refletem a realidade global. O Dow Jones, um índice mais ligado a setores tradicionais, como a indústria de base e os bancos, recuou. Já o Nasdaq e o S&P 500 se descorrelacionaram do pessimismo na economia real - a ponto de alcançarem máximas históricas hoje -, mas por um único motivo: o rali de tecnologia. As teses de Inteligência Artificial (IA) e suas adjacentes se tornaram uma espécie de blindagem do mau humor para esses ativos de risco. Existem hoje, portanto, dois mundos no maior mercado de investimentos do mundo. Um concreto, ligado à economia real, intrinsecamente e diretamente relacionado ao humor de economistas, às perspectivas para o petróleo, para os juros e para a inflação no mundo todo. O segundo mundo nas bolsas americanas é o das projeções. O segundo cenário foi o que garantiu os recordes ao Nasdaq e ao S&P nesta sessão. Com a arrancada de 19% das ações da Micron sob o argumento do UBS de que o mercado está subdimensionando o setor de chips de memória na era da IA, todo o setor subiu. O banco mais que triplicou seu preço-alvo para a ação, num raro movimento agressivo para um tubarão do mercado financeiro que moveu as peças do tabuleiro hoje Basicamente, a narrativa em torno das teses de tecnologia - cujas ações estão concentradas nas bolsas americanas - são as ofertas incontornáveis para gestores de fundos de ações. Investir em IA sob as promessas de um mercado que começa a germinar agora é imperativo e sua evolução, defendem os analistas, será independente da economia real. É uma idiossincrasia, com teses que serão testadas no tempo e baseadas em promessas e estimativas, mas que trazem convicção suficiente para puxar os índices Nasdaq e S&P para um campo não concreto. Num futuro alheio ao geopolítico de hoje, as ações de empresas de IA se tornaram uma espécie de dragas da liquidez global. O giro financeiro do Ibovespa ficou em R$ 16,5 bilhões hoje, abaixo da média dos últimos 12 meses, de R$ 18,2 bilhões. O capital global que meses atrás parecia hesitar entre mercados emergentes e o setor de tecnologia americano fez sua escolha novamente: foi para a tecnologia. O trade de IA, parcialmente responsável por sugar R$ 13 bilhões do mercado acionário do Brasil em maio, recebeu hoje um novo argumento para se sustentar. Para o UBS, o argumento central não é cíclico, mas estrutural. A tese é que a IA remodelou permanentemente os fundamentos do mercado. Hoje, tornando os lucros da Micron mais duráveis e justificando múltiplos mais altos do que os históricos dos ciclos de memória. Amanhã, novas teses podem nascer (ou só crescer) na carona da plantada pelo banco suíço. Para o Ibovespa, tudo isso importa por um motivo simples: quando Wall Street sobe por razões que o Brasil não compartilha - empresas de semicondutores, demanda por IA, mudança de patamar dos múltiplos de empresas de tecnologia -, o fluxo externo que alimentou o rali brasileiro não volta automaticamente. A recuperação da bolsa local ganhou assim mais um obstáculo. Não apenas a restauração da oferta de energia não será automática após o prometido cessar-fogo entre EUA e Irã, como o capital de risco pode ter voltado a seguir o farol da tecnologia. E, nessa seara, a bolsa do Brasil tem muito pouco (ou quase nada) a oferecer. Das 79 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 58 desvalorizaram hoje. Comportamento das ações do Ibovespa em 26/5/2026 Código Nome Abertura Mínima Média Máxima Fechamento Var. % BEEF3 MINERVA ON 3,83 3,78 3,85 3,98 3,93 2,61 HAPV3 HAPVIDA ON 12,40 12,03 12,33 12,60 12,60 1,61 RDOR3 REDE D OR ON 34,43 33,89 34,66 35,06 35,00 1,42 ABEV3 AMBEV S/A ON 16,90 16,39 16,56 16,92 16,59 1,16 VIVT3 TELEF BRASIL ON 33,35 33,26 33,66 33,91 33,85 0,92 FLRY3 FLEURY ON 15,92 15,67 15,90 16,12 16,05 0,82 MBRF3 MARFRIG ON 16,22 15,87 16,13 16,44 16,36 0,74 BRAV3 BRAVA ON 20,40 19,49 19,89 20,40 20,07 0,70 PRIO3 PETRORIO ON 64,89 64,20 64,85 65,70 64,75 0,68 CPFE3 CPFL ENERGIA ON 43,38 42,55 43,23 43,59 43,59 0,67 SUZB3 SUZANO S.A. ON 41,45 40,97 41,51 41,93 41,68 0,65 CURY3 CURY S/A ON 31,54 31,30 31,95 32,23 32,08 0,63 CSMG3 COPASA ON 53,35 52,80 53,18 53,71 53,26 0,49 CMIN3 CSN MINERACAO ON 4,49 4,48 4,52 4,58 4,51 0,45 PETR3 PETROBRAS ON 48,72 48,52 48,97 49,38 48,89 0,41 KLBN11 KLABIN S/A UNT 16,57 16,43 16,59 16,69 16,61 0,36 WEGE3 WEG ON 43,00 42,66 43,06 43,44 43,44 0,30 BBSE3 BB SEGURIDADE ON 34,68 34,42 34,61 34,77 34,72 0,29 EQTL3 EQUATORIAL ON 38,35 37,93 38,41 38,68 38,60 0,26 PETR4 PETROBRAS PN 43,36 43,16 43,46 43,80 43,44 0,09 CXSE3 CAIXA SEGURI ON 17,62 17,48 17,59 17,69 17,62 0,00 ASAI3 ASSAI ON 9,04 8,88 9,11 9,25 9,11 -0,11 ALOS3 ALLOS ON 28,62 28,23 28,56 28,74 28,68 -0,38 BBDC3 BRADESCO ON 15,55 15,40 15,52 15,64 15,58 -0,38 AURE3 AUREN ON 12,52 12,38 12,52 12,66 12,50 -0,40 CSNA3 SID NACIONAL ON 6,64 6,61 6,70 6,82 6,69 -0,45 BRAP4 BRADESPAR PN 23,20 22,94 23,08 23,38 23,08 -0,47 SLCE3 SLC AGRICOLA ON 16,21 16,05 16,15 16,25 16,13 -0,55 CPLE3 COPEL ON 14,81 14,54 14,66 14,83 14,78 -0,61 CMIG4 CEMIG PN 11,27 11,15 11,19 11,28 11,20 -0,62 TIMS3 TIM ON 22,60 22,41 22,53 22,74 22,55 -0,62 VALE3 VALE ON 83,23 82,30 82,93 84,12 83,07 -0,62 ENEV3 ENEVA ON 25,21 24,83 25,00 25,22 25,06 -0,63 ITUB4 ITAU UNIBANCO PN 40,22 39,65 39,93 40,36 40,06 -0,64 PSSA3 PORTO SEGURO ON 49,19 48,51 48,76 49,20 48,89 -0,71 BPAC11 BTGP BANCO UNT 55,59 54,40 55,22 55,68 55,50 -0,72 RAIL3 RUMO S.A. ON 14,21 13,95 14,16 14,26 14,25 -0,77 COGN3 COGNA ON 2,51 2,49 2,52 2,55 2,54 -0,78 ITSA4 ITAUSA PN 13,10 12,83 12,92 13,10 12,99 -0,92 POMO4 MARCOPOLO PN 6,21 6,12 6,17 6,22 6,16 -0,96 ENGI11 ENERGISA UNT 48,96 48,01 48,47 48,96 48,47 -0,98 EGIE3 ENGIE BRASIL ON 32,57 32,17 32,28 32,65 32,25 -1,01 YDUQ3 YDUQS PART ON 9,65 9,48 9,57 9,73 9,60 -1,03 SBSP3 SABESP ON 29,00 28,44 28,74 29,06 28,77 -1,13 ISAE4 ISA ENERGIA PN 28,08 27,52 27,74 28,09 27,78 -1,14 SANB11 SANTANDER BR UNIT 27,56 27,09 27,47 27,57 27,32 -1,16 DIRR3 DIRECIONAL ON 13,51 13,28 13,41 13,58 13,40 -1,18 EMBJ3 EMBRAER ON 73,01 71,77 72,40 73,50 72,38 -1,23 NATU3 NATURA ON 10,60 10,12 10,30 10,60 10,40 -1,23 BBDC4 BRADESCO PN 17,88 17,69 17,80 18,03 17,84 -1,27 VBBR3 VIBRA ON 32,27 31,38 31,72 32,27 31,87 -1,27 MULT3 MULTIPLAN ON 30,39 29,76 30,00 30,47 30,00 -1,28 TAEE11 TAESA UNIT 39,75 38,78 39,03 39,75 39,00 -1,29 TOTS3 TOTVS ON 31,23 30,92 31,45 31,76 31,48 -1,32 MOTV3 MOTIVA SA ON NM 14,62 14,42 14,51 14,69 14,51 -1,36 IGTI11 IGUATEMI S.A UNT 26,68 26,12 26,30 26,68 26,31 -1,39 AXIA3 AXIA ENERGIA ON 53,89 52,81 53,34 54,19 53,51 -1,64 CYRE3 CYRELA REALT ON 22,49 22,13 22,34 22,70 22,28 -1,72 GOAU4 GERDAU MET PN 10,35 10,11 10,25 10,46 10,20 -1,73 MGLU3 MAGAZINE LUIZA ON 6,77 6,55 6,64 6,78 6,65 -1,77 AXIA6 AXIA ENERGIA PNB 59,89 58,09 58,66 59,89 58,81 -1,80 B3SA3 B3 ON 17,26 16,79 16,97 17,26 16,94 -1,85 SMFT3 SMART FIT ON 19,23 18,89 19,07 19,43 19,06 -1,85 AZZA3 AZZAS 2154 ON 20,79 20,10 20,39 20,88 20,50 -1,87 MRVE3 MRV ON 6,14 6,07 6,16 6,24 6,15 -1,91 HYPE3 HYPERA ON 22,98 22,25 22,43 23,01 22,53 -1,92 UGPA3 ULTRAPAR ON 28,44 27,67 28,09 28,44 27,87 -2,00 VIVA3 VIVARA ON 22,73 21,95 22,26 22,84 22,27 -2,02 GGBR4 GERDAU PN 24,04 23,39 23,62 24,18 23,61 -2,36 LREN3 LOJAS RENNER ON 15,18 14,90 15,04 15,25 15,04 -2,40 BBAS3 BRASIL ON 21,59 21,10 21,36 21,64 21,11 -2,49 CSAN3 COSAN ON 4,33 4,08 4,20 4,33 4,28 -2,51 RADL3 RAIA DROGASIL ON 18,51 17,82 17,97 18,54 18,01 -2,54 RENT3 LOCALIZA ON 44,55 43,35 43,75 44,59 43,70 -2,67 USIM5 USIMINAS PNA 10,00 9,59 9,78 10,10 9,66 -3,59 RECV3 PETRORECSA ON 12,31 11,72 11,90 12,41 11,90 -3,64 VAMO3 VAMOS ON 3,33 3,22 3,25 3,33 3,24 -3,86 CEAB3 CEA MODAS ON 11,80 11,27 11,51 11,85 11,37 -4,77 BRKM5 BRASKEM PNA 12,30 11,33 11,79 12,35 11,68 -5,81
Ressaca em Ormuz afoga as bolsas, mas índices de NY escapam; entenda
Saldo do Dia: O acirramento das tensões entre EUA e Irã reverberou por aqui conforme o manual, mas não lá fora. E o fortalecimento das teses de tecnologia - a despeito do pessimismo nos mercados - passa a ser uma ameaça à recuperação do Ibovespa














