A análise regional revela concentração das maiores taxas de homicídios de pessoas negras nas regiões Norte e Nordeste, enquanto estados do Sul e Sudeste apresentam índices menores. Em 2024, São Paulo registrou taxa de 8 homicídios por 100 mil habitantes negros, e Santa Catarina, 10,3. Com os maiores índices aparecem Amapá (56,8), Alagoas (48,9), Pernambuco (47,6) e Bahia (47,1). Em termos de risco relativo, ou seja, a razão entre a taxa de mortalidade violenta entre negros e brancos, uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser assassinada. Essa é a realidade em todas as unidades da Federação, com exceção de Roraima, onde o risco relativo foi de 0,5. Alagoas é o estado em que os negros sofrem mais risco de serem assassinados - 23,3 vezes mais chances em comparação com os brancos. Em seguida aparecem Amapá, com risco 16,7 vezes maior, e Sergipe, com 6,8 vezes mais chance de homicídio. O levantamento mostra ainda que, ao longo da série histórica de onze anos, entre 2014 e 2024, 435.551 pessoas negras foram assassinadas no Brasil. Entre pessoas não negras, o total de mortos foi de 132.156. Taxa de homicídios de pessoas negras e não-negras entre 2014 e 2024 — Foto: Alberto Correa - Arte/g1 Apesar da redução dos homicídios nos dois grupos, o ritmo da queda foi desigual. Entre pessoas não negras, os homicídios caíram 38,9% no período. Entre negros, a redução foi de 21,7%. "Isso nos leva à conclusão de que ser negro no Brasil, hoje, representa maior risco de ter a vida interrompida por um homicídio”, disse Juliana Brandão, coordenadora temática do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O Atlas também destaca que a violência letal persiste de forma mais intensa entre mulheres e idosos negros. No caso delas, a taxa de homicídio é 66,7% superior à das mulheres não negras. Entre mulheres idosas negras, a razão é de 1,3 vez. Já homens negros apresentam taxa de vitimização letal 1,7 vez maior que homens não negros da mesma faixa etária. Marcha da Consciência Negra na avenida Paulista — Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil Mais de 15.800 pessoas LGBTI+ foram vítimas de violência O Atlas da Violência 2026 também aponta crescimento das notificações de violência contra a população LGBTI+ e alerta para falhas do estado brasileiro em registrar a motivação desses crimes, o que dificulta a formulação de políticas públicas eficazes. Em 2024, as notificações de violência contra homossexuais e bissexuais cresceram 5,5%, chegando a 10.250 registros. Nos últimos onze anos, o aumento chegou a 212,7%. Já as notificações de violência contra pessoas trans e travestis aumentaram 2,5% em relação ao ano anterior e chegaram a 5.575 registros. Ao longo dos últimos dez anos, foram registrados ao menos 35.779 casos de violência contra pessoas trans e travestis no sistema de saúde. Os casos envolvendo homossexuais passaram de 7.043 para 7.378 entre 2023 e 2024, aumento de 4,8%. Os registros envolvendo pessoas bissexuais subiram de 2.675 para 2.872 no período, alta de 7,4%. Apenas entre pessoas bissexuais, o aumento foi de 781%, enquanto entre homossexuais alcançou 149,9%. Ao todo, foram registrados 59.790 casos de violência contra homossexuais e bissexuais na última década. Segundo Juliana Brandão, o maior aumento dos registros de violência contra pessoas bissexuais pode ter diversas explicações. "Mesmo que a violência cotidiana contra esse grupo sempre tenha existido, o sistema de notificação passou a registrar muito mais, o que pode estar refletindo tanto a atribuição e denúncia quanto um aumento real da violência”, afirma a especialista. O mesmo vale para o aumento das notificações em todos os grupos que compõem a sigla LGBTI+. Segundo o estudo, a magnitude do crescimento sugere indícios de intensificação da violência, especialmente contra pessoas homossexuais e bissexuais. Entre homens trans, houve leve redução de 0,6%, passando de 1.307 casos em 2023 para 1.299 em 2024. Já entre mulheres trans, o crescimento foi de 3,6%, alcançando 3.594 registros, mais do que o dobro do observado entre homens trans. Entre travestis, os casos cresceram 4,1%, chegando a 682 notificações. A pesquisa mostra ainda que a violência se concentra entre os mais jovens. Para homossexuais, o pico de vitimização ocorre entre 25 e 29 anos. Entre pessoas bissexuais, a concentração é ainda mais precoce, entre 15 e 24 anos. Entre homens trans, a incidência é mais concentrada entre 15 e 24 anos. Entre mulheres trans e travestis, a distribuição é mais dispersa ao longo da juventude. O Atlas também destaca o recorte racial da violência. Entre travestis, pessoas negras representam 67% das vítimas. Entre mulheres trans, negros correspondem a 61% dos registros, contra 34% de pessoas brancas. Entre homens trans, pessoas negras somam 55% das vítimas, enquanto brancos representam 42%. Idosos morrem mais por queda do que por homicídio O Atlas aponta ainda crescimento expressivo da violência contra idosos, mas alerta para o avanço das mortes por queda no país. Os registros no sistema de saúde de violência contra idosos cresceram 226,3%, atingindo 30.097 casos anuais em 2024 — taxa equivalente a 88,4 notificações por 100 mil habitantes. No mesmo ano, a taxa de homicídios entre idosos foi de 5,9 por 100 mil habitantes, o que correspondeu à morte de 2.007 pessoas com mais de 60 anos. No entanto, os óbitos por causas externas de pessoas com mais de 60 anos foram causados mais por queda do que por assassinatos. O Atlas mostra que, desde 2000, enquanto os homicídios de homens diminuíram 6,6%, as mortes por queda aumentaram 345%. Entre mulheres, os homicídios caíram 2,8%, mas os óbitos por queda cresceram 630%. Segundo Daniel Cerqueira, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e coordenador do Atlas da Violência, os dados mostram que o Brasil não está preparado para o envelhecimento da população. "Precisamos pensar com urgência em políticas sérias e intersetoriais. A solução não é apenas ter mais hospitais. É preciso investir em qualidade de vida, prática de exercícios físicos, mobiliário urbano adequado, adaptação das casas e uma série de outras medidas que envolvem políticas urbanas, esporte, educação e diferentes áreas”, diz o especialista. De acordo com o Atlas, a expectativa é que, nos próximos 15 anos, o número de quedas no Brasil seja maior do que o número de homicídios, considerando a população, não apenas idosos. "Claro que quem mais morre por queda é idoso, porque a gente sabe que quem cai mais são os idosos. É um dado muito impactante”, afirma Cerqueira. 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