Dezessete dos 20 municípios mais violentos com mais de 100 mil habitantes estão no Nordeste Pichação alusiva ao Comando Vermelho (CV) em Boa Vista, capital de Roraima: facção do Rio está presente na região, assim como o grupo paulista PCC e o bando venezuelano Tren de Aragua — Foto: Patrik Camporez RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 25/05/2026 - 21:15 Redução de Homicídios no Brasil em 2024: Desafios Persistem nas Regiões Norte e Nordeste O Brasil registrou uma queda de 7,4% nos homicídios em 2024, totalizando 42.590 casos, segundo o Atlas da Violência do Ipea e FBSP. Contudo, a subnotificação e o aumento das mortes no Norte e Nordeste, onde estão 17 dos 20 municípios mais violentos, são desafios. A violência afeta principalmente jovens, mulheres, negros e a população LGBTQ+. Homicídios ocultos aumentaram 88,6%, destacando falhas na identificação das causas de morte. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Dados oficiais da área da saúde mostram que o Brasil viu o número de homicídios registrados em 2024 reduzir 7,4% em relação ao ano anterior, segundo o Atlas da Violência, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) nesta terça-feira. Em 2024, foram contabilizados oficialmente 42.590 homicídios em todo o país, representando uma taxa de 20,1 casos por 100 mil habitantes. Trata-se do menor patamar desde 2014. Apesar da queda, que segue uma tendência já vista nos últimos anos, o Atlas da Violência elenca a subnotificação e o elevado número de mortes em municípios de Norte e Nordeste como desafios. As maiores taxas de homicídio concentram-se no Amapá, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Ceará. Dezessete dos 20 municípios mais violentos com mais de 100 mil habitantes estão no Nordeste, enquanto as 20 cidades menos violentas encontram-se exclusivamente no Sul e Sudeste. Veja aqui as taxas de homicídios por 100 mil habitantes por estado — Foto: Reprodução Um dos fatores que contribui para a disparidade é demográfico. As regiões mais violentas são as que mantém uma proporção maior de jovens, recorte da população que tende a estar mais envolvido, seja como vítima ou perpetrador, nos homicídios. Esse, no entanto, não é o único fator, com as movimentações recentes do crime organizado, cada vez mais presente no interior do país, tendo peso relevante. — O que explica isso é o processo de interiorização das facções, com o surgimento de grupos locais que não tem uma organização como a do Primeiro Comando da Capital (PCC), que não olham o lucro, mas o controle do território — explica Daniel Cerqueira, um dos coordenadores do levantamento — São jovens que querem se firmar e se firmam pela violência. O pesquisador atribui a queda no número total de homicídios a uma série de fatores, como o aprimoramento das iniciativas de segurança pública, além do envelhecimento da população. Ele também destaca o arrefecimento do confronto entre PCC e Comando Vermelho (CV) pelo controle de rotas de tráfico, que atingiu o auge entre 2016 e 2017. Segundo Cerqueira, a sensação de insegurança da população, por outro lado, aumenta. Esse desencontro seria explicado pelo destaque dado à pauta da criminalidade no debate público, o que se soma à mudanças na dinâmica criminal. — Antes as pessoas tinham medo de serem roubadas. Hoje, seguem com esse medo, mas também passaram a temer sofrer uma fraude — diz Cerqueira, citando o aumento de estelionatos virtuais identificado em outros estudos, como as edições mais recentes do Anuário da Segurança Pública, feito pelo FBSP — Outro aspecto é a transformação da governança criminal, com grupos fazendo controle territorial. É algo que acontece há muito tempo no Rio, mas está se espalhando pelo Brasil. Outro fator que é fonte de preocupação são os chamados homicídios ocultos. Tratam-se das ocorrências fatais que o Estado não consegue identificar se foram causadas por um acidente, suicídio ou homicídio. Essas mortes são classificadas como Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCIs). Uma metodologia desenvolvida pelos pesquisadores do Ipea permite calcular quais delas devem ser os assassinatos. Os dados indicam que entre 2023 e 2024 os homicídios ocultos aumentaram 88,6%, indo de 3.755 para 7.083. A taxa, por sua vez, subiu de 1,8 para 3,3 a cada 100 mil habitantes. Entre 2014 e 2014 foram 55.212 homicídios ocultos. Na avaliação do Atlas, a piora na qualidade da informação pode estar criando um "ponto cego estatístico". — O modelo estatístico de aprendizado de máquina calcula a probabildade de ser homicídio ou não a partir das características da pessoa e das circunstancias— explica Cerqueira, que acrescenta — Por que existe as MVCIs? A primeira razão tem relação com a falta de compartilhamento de informação entre a polícia e o sistema de Saúde. Em geral, por um problema de gestão ou normativo que cria dificuldades. Outra possível explicação é que a polícia não consegue identificar a causa da morte. Abaixo, pesquise a sua cidade e veja os dados de homicídio registrados nela em 2024. Violência alta contra mulheres, negros e população LGBT+ O Atlas da Violência aponta ainda para uma redução geral nos homicídios contra mulheres ao longo da última década, com uma queda de 27,7% entre 2014 e 2024. Apesar disso, o Ipea e o FBSP destacam que a redução é puxada pela morte de mulheres fora do ambiente doméstico. Quando os pesquisadores analisaram as mortes ocorridas dentro da casa, encontraram um cenário de estabilidade. No mesmo intervalo de dez anos, a taxa de homicídios ocorridos nessas circunstâncias mudou pouco, variando de 1,25 para 1,18. — É uma estabilidade inaceitável. O grande problema é que a raiz dessas violências é cultural. É a cultura do patriarcado, que coloca a mulher como inferior e pertencente ao marido. Isso não muda de uma hora para a outra — diz Cerqueira. A violência contra pessoas negras também mantém-se em um patamar elevado. Em 2024, 32.820 mil foram vítimas de homicídios. É o equivalente a uma média de 89,9% assassinatos por dia. A taxa de homicídios entre negros é 170,3% superior à de não negros. A disparidade também se manifesta ao se analisar a violência letal contra mulheres negras, que apresenta uma taxa 66,7% superior à das mulheres não negras. Os autores do levantamento apontam que o estado brasileiro falha ao registrar de forma sistemática os casos de violência contra a população LGBTQ+, o que gera uma "invisibilidade institucional". Segundo os dados do Atlas, as notificações de violência contra homossexuais e bissexuais aumentaram 5,5%, chegando a 10.250 registros. Já nas notificações de violência contra pessoas transexuais e travestis cresceu 2,5%, com 5.575 ocorrências contabilizadas. Entre outros números destacados pelo Atlas está a taxa registrada de homicídios entre indígenas, que é 22% superio à taxa nacional, atingindo a marca de 24,6 por 100 mil habitantes. No estado do Amazonas, a morte de indígenas dobrou em apenas um ano. O Ipea e o FBSP destacaram também as ocorrências de violência contra a população idosa, que cresceneram 226,3% entre 2014 e 2024, com 30.097 casos anuais.