O Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, ou 4,9 homicídios por hora, o menor patamar em 11 anos. Os dados são do Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que analisou dados desde 2014. O número de assassinatos recuou 6,9% entre 2023 e 2024. Com isso, o país registrou uma taxa de 20,1 assassinatos por 100 mil habitantes. Em 11 anos, a taxa caiu 33,4%, enquanto o número absoluto de mortes registradas oficialmente apresentou queda de 29,6%. Segundo Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e coordenador do Atlas da Violência, o Brasil alcançou, em 2024, o menor patamar de homicídios desde 1998, tanto em números absolutos quanto na taxa por 100 mil habitantes. Ele ressalta que reduções recordes foram observadas nas últimas três edições do estudo. De acordo com Cerqueira, há uma tendência geral de redução desde 2018, com um movimento de acomodação na guerra entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), ainda que existam diversos conflitos pelo controle do varejo de drogas. Ele também destaca a transição demográfica rumo ao envelhecimento da população brasileira, uma vez que a violência letal atinge majoritariamente a população jovem. “Esse efeito demográfico é bastante potente e funciona como uma maré de redução de homicídios”, afirma Cerqueira. O pesquisador cita ainda o aprimoramento de políticas de segurança pública em alguns Estados e municípios, que fizeram com que a trajetória de redução seja mais longeva em algumas unidades da federação. Em 2024, as maiores reduções de taxas de homicídio frente a 2023 foram observadas no Amapá (-30,0%), Tocantins (-26,7%), Sergipe (-24,8%), Roraima (-22,8%) e Acre (-20,5%). Maranhão (7,6%) e Ceará (5,2%) apresentaram aumento relevante entre 2023 e 2024, enquanto São Paulo permaneceu estável. Apagão de dados Os autores ressaltam que a melhoria dos indicadores de violência letal deve ser analisada com cautela. Isso porque embora o país apresente uma tendência de redução dos homicídios, houve um ápice das mortes violentas por causa indeterminada. O termo se refere a óbitos por causas externas, nos quais o Estado não identificou se a causa foi homicídio, suicídio ou acidente. Em 2024, o Brasil atingiu o ápice de 17.207 casos de mortes violentas por causa indeterminada, o maior volume já registrado pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, desde 2014. Houve um salto de 23,8% (3.311 casos a mais) em relação a 2023. Os especialistas alertam que o avanço das mortes por causa indeterminada dificulta a identificação da dinâmica criminal e compromete o planejamento, o monitoramento e a avaliação de políticas públicas de segurança. “A piora da qualidade da informação pode estar criando um 'ponto cego' estatístico, especialmente em estados com maiores fragilidades institucionais na investigação e no preenchimento dos sistemas de mortalidade”, afirma o texto que acompanha a divulgação de resultados. A partir das mortes indeterminadas, os pesquisadores desenvolveram uma metodologia capaz de identificar quais desses óbitos têm maior probabilidade de ser um caso de homicídio e passaram a designá-los como “homicídios ocultos”. Entre 2023 e 2024, os homicídios ocultos aumentaram 88,6%, de 3.755 para 7.083. A taxa, por sua vez, passou de 1,8 para 3,3 a cada 100 mil habitantes. Com isso, os homicídios ocultos corresponderam a 14,3% dos homicídios estimados em 2024, contra 7,6% em 2023. No período entre 2014 e 2024, o país acumulou aproximadamente 55.212 homicídios ocultos, com uma média de 5.019 casos por ano.