Terapia celular aprovada no Japão foi primeira a ter sinal verde para uso; inovações ainda precisam ter resultado mais robusto O Parkinson é uma doença neurológica que afeta os movimentos da pessoa. Pixabay — Foto: Pixabay RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 25/05/2026 - 20:20 Japão aprova tratamento inovador com células-tronco para Parkinson Um tratamento inovador para Parkinson, baseado em células-tronco reprogramadas, foi aprovado no Japão, marcando a primeira permissão condicional para uma terapia celular contra a doença. Testado em sete pacientes, o método visa substituir neurônios dopaminérgicos mortos, reduzindo sintomas como tremores. No entanto, são necessários mais dados para confirmar sua eficácia e segurança a longo prazo. Paralelamente, a BlueRock Therapeutics avança com pesquisa semelhante, enquanto no Brasil um estudo com o anticorpo monoclonal prasinezumabe busca frear a progressão da doença. Esses esforços representam avanços significativos na luta contra o Parkinson. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Estima-se que mais de 10 milhões de pessoas tenham o diagnóstico de Parkinson no mundo. Para elas, a ciência avançou a ponto de oferecer de opções farmacológicas e cirurgicas que são capazes de impactar nos sintomas deflagrados pela doença. Ou seja, dores, dificuldades de locomoção, tremores, entre outros efeitos que, progressivamente, acompanham o paciente. Uma inovação que parte de células-tronco reprogramadas aprovada neste ano no Japão, porém, pode significar um passo da ciência em direção à maior lacuna na lida com a doença: tentar barrar a progressão (até aqui) inevitável desse disturbio neurológico. Testado em sete pacientes até agora e aprovado condicionalmente nos próximos sete anos, o tratamento tenta aplacar o impacto da morte de neurônios dopaminérgicos que estão no centro do mecanismo do problema de saúde. Embora os resultados tenham sido inicialmente positivos, (os pesquisadores indicaram que tremores, por exemplo, reduziram) ainda é preciso avançar mais para saber se, de fato, o novo procedimento tem resultado sustentado e reduz a velocidade, ou dá um "stop", no desenvolvimento da doença. A aprovação, apesar de condicional, marca a primeira vez em que ocorre um sinal verde do tipo para uma terapia celular, mirando o Parkinson. A indicação aprovada pelo Japão mira nos pacientes com casos resistentes, que não apresentam boa evolução com os medicamentos disponíveis até aqui. — Os pacientes tiveram uma melhora, mas (os pesquisadores) ainda vão melhorar a técnica. Eles vão continuar acompanhando os pacientes, reportar os dados ao governo e seguir observando a segurança. Esse tratamento é um passo importante porque deu certo. Uma tentativa anterior, no Canadá, as células se reproduziram demais — diz Rubens Cury, médico neurologista do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. — Não é a primeira vez que se tenta células-tronco para Parkinson, mas é a primeira vez que deu certo. Outra pesquisa que avança para aplacar os efeitos do Parkinson é desenvolvida pela biotecnologia BlueRock, adquirida pela Bayer em 2019. A empresa também desenvolve um tratamento com células-tronco adaptadas em laboratório para se tornarem neurônios capazes de produzir dopamina, um mecanismo que — esperam os desenvolvedores— seja capaz de mudar o curso da doença. Ao chegarem ao cérebro, vale dizer, essas células-tronco já são "praticamente" transformadas em neurônios, não estão mais se replicando. Nesse momento, o estudo clínico está na fase 3 de desenvolvimento — tradicionalmente o último antes de se realizar um pedido às agências reguladoras. Essa etapa, contudo, está bem no começo e deve ainda levar alguns anos para que os achados científicos dessa pesquisa, que deve recrutar cerca de 100 voluntários nessa última fase, sejam conhecidos e divulgados. — Vamos acompanhar os pacientes por cerca de cinco anos após a cirurgia, cada um deles — afirmou ao GLOBO Gabriel Belfort, vice-presidente da BlueRock Therapeutics. — O que acompanhamos até agora (em fases anteriores) parece indicar um efeito duradouro ao longo de três anos. Seja em relação à segurança e tolerabilidade, seja à eficácia. Tudo sugere um bom perfil de benefício-risco por pelo menos três anos. Revoluções Um dos primeiros marcos do tratamento do Parkinson foi a aplicação da droga chamada levodopa. O medicamento passou a funcionar como um repositor de dopamina no cérebro, que seria capaz de aliviar sintomas motores da doença no organismo. — Esse medicamento (já disponível) não muda a progressão da doença, ela ameniza o sintoma. A progressão da doença continua igual. Outras drogas surgiram anos depois, mas nenhuma com a mesma efetividade — Alexandre Mac Donald Reis, neurocirurgião funcional coordenador do núcleo de neuromodulação do Hospital Moinhos de Vento, no Rio Grande do Sul. — No início dos anos 2000, foi proposta uma nova cirurgia de estimulação cerebral profunda (DBS), essa foi a segunda grande revolução terapêutica do Parkinson com impacto significativo na melhora dos sintomas. Porque depois de 5 ou 10 anos utilizando o medicamento o efeito ia se perdendo, a cirurgia veio como um novo alento para essas pessoas. Essa cirurgia permite que a programação de eletrodos ligados ao cérebro do paciente — e que emitem impulsos elétricos — seja feita remotamente e ajustada com o tempo. Portanto, é possível calibrar o efeito conforme a doença vai avançando. O funcionamento acontece em semelhança com o marca-passo cardíaco, mas usado no cérebro. A melhora é grande: após o procedimento, pacientes voltam a caminhar ou a fazer tarefas diárias de maneira independente. O procedimento já é feito no Brasil. Neste momento, além dos medicamentos, os pacientes que têm o diagnóstico de Parkinson são fortemente incentivados a fazer exercícios físicos e fisioterapia. Porque há indicativos de que manter-se ativo de maneira regular pode ajudar a mudar o curso natural da doença. — É uma coisa óbvia que por vezes não é valorizada. O que é cientificamente comprovado (que muda o curso da doença) é a fisioterapia, todos os medicamentos que temos hoje são voltados aos sintomas — afirma Alexandre. Mecanismos Há um motivo pelo qual a dopamina aparece como ponto chave nos novos tratamentos para a doença. Isso acontece porque o Parkinson é caracterizado pela redução progressiva desse neurotransmissor, responsável (entre outras coisas) por controlar movimentos fundamentais, como falar, alimentar-se, escrever, entre outros. O aparecimento da doença também está ligado ao aparecimento de problemas como ansiedade, depressão, distúrbios do sono e dores. Os tratamentos disponíveis no Brasil hoje, porém, conseguem promover um controle importante dos sintomas e, o avanço de estudos clínicos sobre o tema, abrem a possibilidade de que um tratamento que barre a progressão da doença também surja. Um ensaio clínico em especial (que não mira em terapia celular, como é o caso da inovação japonesa e da empresa de biotecnologia americana), tem um braço de desenvolvimento no Brasil e recruta voluntários brasileiros. Trata-se do prasinezumabe, um anticorpo monoclonal, produzido em laboratório, que tem como alvo uma proteína ligada ao mecanismo biológico da doença. A administração do tratamento não requer cirurgia, acontece por meio de infusão intravenosa mensal. O estudo prevê a inclusão de 900 pacientes distribuídos em 18 países participantes, entre eles o Brasil.O país conta atualmente com 8 centros de pesquisa envolvidos, com o compromisso de participação de 40 pacientes, explica Waleuska Spiess, líder de Pesquisa Clínica para Roche Farma, responsável por esse investimento. A ideia é que, se apresentar resultados positivos, essa droga consiga mudar o curso de desenvolvimento da doença. — O recrutamento acontece para pacientes que estão bem no início, para que tentemos ver se esse medicamento é capaz de mudar a patologia da doença e ela não se torne um Parkinson avançado, ou que pelo menos retarde a progressão da doença — diz Pedro Manzke, da equipe de neurologia do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília. E um dos especialistas que acompanha esse estudo clínico. — Vejo com bons olhos todos esses avanços.