A evolução dos 27 pacientes com linfoma e leucemia que testam a eficácia de um tratamento inovador com células CAR-T é “impressionante”, segundo Rodrigo Tocantins Calado de Saloma Rodrigues, diretor do Hemocentro de Ribeirão Preto, um dos idealizadores do estudo. A expectativa é que, até o fim de 2026, 81 pessoas portadoras de um desses tumores que não tenham respondido aos tratamentos convencionais terão células de defesa de seu sistema imune geneticamente reprogramadas para combater o câncer. “Não podemos fazer análises em tempo real. Mas, até agora, não registramos nenhum evento significativo e os resultados são promissores”, diz Calado. Iniciado em 2024, esse ensaio clínico fase 2 conta com US$ 100 milhões do Ministério da Saúde (MS). Quando concluído, os resultados serão submetidos à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e, posteriormente, à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) no Sistema Único de Saúde (SUS). A intenção é disponibilizar o tratamento para o SUS. A maioria das terapias com CAR-T disponíveis no Brasil tem custo elevado. Imunoterapias como a CAR-T abriram novas perspectivas para o tratamento de tumores. “O câncer não será mais a principal causa da morte das crianças que estão nascendo hoje quando elas estiverem velhas”, prevê Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan, instituição parceira do Hemocentro de Ribeirão Preto em duas fábricas de células CAR-T. “Estamos empurrando a medicina para outra fronteira, a das doenças degenerativas impostas pelo envelhecimento.” Essa nova fronteira inclui medicamentos biológicos como o soro antiapílico, desenvolvido no Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu. Em fase 3 de estudos clínicos, o soro — que atua sobre os efeitos tóxicos das picadas de abelhas — chegará ao mercado em dois ou três anos, com um aporte de R$ 20 milhões do MS, diz Rui Seabra Ferreira Júnior, diretor do Cevap. Soro antiapílico desenvolvido pela Unesp em Botucatu (SP) chegará ao mercado em dois ou três anos — Foto: Foto: Divulgação Os novos tratamentos, alavancados pela ciência e tecnologia, também promoveram avanços no diagnóstico de doenças e mobilizam startups biotecnológicas. Utilizando biologia molecular e inteligência artificial (IA), a Onkos, de Ribeirão Preto, desenvolveu um teste para diferenciar nódulos malignos e benignos na tireoide. “Realizamos mais de nove mil testes, o que contribuiu para evitar seis mil cirurgias, uma economia estimada de R$ 10 milhões a R$ 11 milhões ao sistema de saúde”, diz Marcos Santos, fundador e CEO da Onkos. O teste não é regulado pela Anvisa por se tratar de serviço laboratorial, mas o plano é de submetê-lo à Conitec para incorporá-lo ao SUS. Ainda na área de diagnóstico, outros estudos estão em curso. Pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, desenvolveram o protótipo de um biossensor que identifica na saliva do paciente a existência de metástase do câncer de boca. Além de recursos humanos qualificados, o desenvolvimento desses novos tratamentos e diagnósticos exige tecnologia de ponta. O biossensor do CNPEM, por exemplo, envolveu o uso de proteômica e dissecção a laser para analisar tecido tumoral, espectrometria de massa para selecionar as proteínas associadas ao câncer e IA para medir a eficiência da classificação. Com recursos do MS, em 2018 teve início a implementação do biossensor. Mas ainda há um longo caminho a percorrer até que seja validado pela Anvisa e chegue ao consultório de médicos e dentistas. O Nível de Prontidão Tecnológica Atual (TRL, na sigla em inglês) do biossensor está entre 4 e 5. O estágio final, de operação, é o TRL 9. Esse percurso será feito com o apoio do Programa Nacional de Inovação Radical em Saúde, lançado no dia 18 de maio com anúncio de R$ 600 milhões para acelerar o desenvolvimento de tecnologias disruptivas para o SUS. O CNPEM será o primeiro polo do programa. “Temos planos de entregar o biossensor ao SUS em 2029”, conta Adriana Paes Leme, do Núcleo Avançado em Tecnologias para a Saúde do Laboratório Nacional de Biociências. Da pesquisa básica até o paciente, por seu custo e risco, o desenvolvimento de tecnologias para a saúde demanda apoio governamental. Todos os exemplos citados contaram com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), na fase de realização da pesquisa, e/ou dos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Saúde, nas fases de desenvolvimento e produção. No CNPEM os recursos do Programa de Inovação Radical também financiarão a construção de um laboratório de prospecção e pesquisa de princípios ativos, incluindo os da biodiversidade, para o desenvolvimento de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs). O CNPEM já conta com um banco de moléculas com dez mil amostras de cerca de mil das 40 mil espécies de plantas brasileiras. E dispõe de tecnologias de fronteira — metabolômicas, cristalografia no Sirus, ensaios biológicos e funcionais, high-throughput screening (HTS), além de IA — para identificar moléculas promissoras para alvos determinados. “Fazemos em poucas semanas o que antes demoraria anos”, diz Daniela Trivella, da Divisão de Descoberta de Fármacos do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio). Um dos projetos em curso é do portfólio da Nintx, startup com foco em doenças multifatoriais, incluindo doenças inflamatórias, cardiovasculares, neurodegenerativas e câncer. “Além da prospecção, a Nintx utiliza inteligência artificial para minerar plantas e moléculas com potencial terapêutico e criou um laboratório de microbiota intestinal para avaliar diferentes terapias”, conta Gabriel Perez, diretor do fundo Pitanga Redux, que já aportou US$ 5 milhões na empresa. A Nintx captou outros US$ 5 milhões com investidores como MOV Investimentos e Ecoa Capital, obteve apoio e subvenção da Fapesp e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e matchfunding da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) para seus projetos em colaboração com o CNPEM e com outras instituições. Três desses projetos da Nintx em parceria com o CNPEM já estão em estágio pré-clínico. No intervalo entre os estágios pré-clínicos e clínicos, a pesquisa demanda plantas farmaquímicas ou biotecnológicas para a produção de lotes em escalas-piloto — maior que o laboratorial e menor que a industrial. Está em fase de implantação uma fábrica multipropósito de biofármacos para pesquisa clínica que vai operar no modelo CDMO (Contract Development and Manufacturing Organization) para a produção de lotes-pilotos de biofármacos. A iniciativa é da Unesp, os recursos são do MS e o início da operação está previsto para 2027, segundo Ferreira Júnior, do Cevap. Os riscos e altos investimentos associados às etapas clínicas avançadas fazem com que a maioria das instituições de pesquisa e empresas nacionais levem seu produto até a fase pré-clínica e depois licenciem para uma farmacêutica internacional. “São empresas com muitos projetos em andamento e maior capacidade de investimento. Pagam pelas licenças de forma parcelada conforme o avanço da pesquisa e depois royalties sobre as vendas dos medicamentos para o mercado”, diz Perez, do Pitanga Redux. Em 2022, a ReceptaBio transferiu para a norte-americana Agenus os direitos de comercialização, produção e desenvolvimento clínico dos anticorpos imunoterápicos Balsilimabe (aPD-1) e Zalifrelimabe (aCTLA-4). Como parte do acordo, a ReceptaBio terá direito ao recebimento de receitas associadas a metas, royalties e outros pagamentos relativos a esses produtos. “A imunoterapia não funciona em tumores em que não há presença do sistema imunológico, como o câncer colorretal. A Agenus descobriu um anticorpo que faz o sistema imunológico aparecer no ambiente do tumor que passa a responder à imunoterapia. E está desenvolvendo um tratamento em associação com o Basitlimabe. Já foi feito estudo clínico em fase 2 e a fase 3 está em andamento, com previsão de solicitação de aprovação acelerada junto ao Food and Drug Administration (FDA) até o fim do ano. Há uma grande expectativa da parte deles e da nossa. Quem investe no desenvolvimento são eles. Em caso de sucesso, teremos direitos econômicos sobre o aPD-1”, diz José Fernando Perez, diretor-presidente da ReceptaBio.
Instituições brasileiras avançam no desenvolvimento de tratamentos e diagnósticos com ajuda da biotecnologia
Novos tratamentos, alavancados pela ciência e a tecnologia, promovem avanços no diagnóstico de doenças e mobilizam startups biotecnológicas







