Startups Solos e So+ma oferecem soluções à Heineken para a circularidade do vidroParceria entre as pequenas empresas e a cervejaria ajuda na conexão com consumidores e catadores de recicláveis na Bahia. A indústria cervejeira no Brasil explora o uso de garrafas de alumínio, impulsionada pela alta reciclagem do material. Ambev e Heineken lançaram edições limitadas para testar o mercado, destacando a sustentabilidade e inovação. A Abal vê potencial na adoção dessas embalagens, alinhadas à economia circular. O desafio é competir com o vidro, mas a infraestrutura de reciclagem favorece o crescimento do alumínio no setor, segundo Janaina Donas, presidente da Abal.E se o alumínio, já predominante na indústria cervejeira por meio das embalagens de lata, pudesse ser usado em volume para produção de garrafas de cerveja no Brasil? Segundo a Associação Brasileira de Alumínio (Abal), o mercado brasileiro atual já oferece capacidade de escala para esse movimento, ao ter infraestrutura de produção e alto índice de reciclagem já consolidados no País.PUBLICIDADEConforme dados mais recentes da entidade, referentes a 2024, o Brasil está na 9.ª posição mundial em produção de alumínio (1,1 milhão de toneladas no ano), registrando maior concentração de participação justamente em embalagens (32,5%). Em seguida, o alumínio é usado em áreas diversificadas, como construção civil (17,7%), transportes (16,3%), eletricidade (12,2%), bens de consumo (10,3%) e outros (11%).Além disso, o índice de reciclagem de latas de alumínio para bebidas foi de 97,3% em 2024, o que sugere que, se usado para envase em “alu bottle” (garrafa de alumínio, em inglês), pode ser ainda uma alternativa ao uso do vidro, material típico de garrafas de cerveja, que vem enfrentando ondas de desabastecimento no Brasil desde a pandemia, em 2020, e tem encontrado barreiras maiores para circularidade.Ambev lançou Budweiser em garrafas de alumínio em alusão à Copa do Mundo Foto: Budweiser/DivulgaçãoAlgumas iniciativas de envase de cerveja em garrafas de alumínio têm sido vistas, embora ainda em edições limitadas ou experimentais. A mais recente ocorreu no mês passado, quando a Ambev anunciou lançamentos de linhas de cerveja nesses tipos de embalagem em caráter colecionável para as marcas Budweiser e Corona. PublicidadeCom Budweiser, a companhia lançou garrafas de alumínio colecionáveis em edição especial que homenageiam sedes da Copa do Mundo de Futebol de anos anteriores, onde ocorreram fatos icônicos do torneio. No Brasil, foram disponibilizadas seis estampas diferentes das embalagens desde 13 de abril.Para o caso da Corona, a empresa trouxe de volta um lançamento feito em 2024, para ser comercializado em larga escala pela primeira vez em alusão ao festival “Todo Mundo no Rio”, ocorrido no dia 2 de maio no Rio de Janeiro (RJ). A promoção do produto destacou a capacidade da embalagem de manter a cerveja gelada por mais tempo e o fato de ela ser 100% reciclável.Garrafa de alumínio da cerveja Corona para o "Todo Mundo no Rio", em 2026 Foto: Corona/DivulgaçãoA Ambev não informou ao Estadão a quantidade de garrafas de alumínio produzidas para ambas as campanhas, nem se há intenção de que as embalagens nesse formato passem a fazer parte das linhas permanentes, mas afirmou que se tratam de “edições especiais” para “expandir ocasiões de consumo”.“A Ambev desenvolve constantemente iniciativas e projetos especiais alinhados às estratégias de suas marcas e às diferentes ocasiões de consumo. As garrafas de alumínio lançadas recentemente por marcas do portfólio, como Corona e Budweiser, foram concebidas como edições especiais, colecionáveis e para expandir as ocasiões de consumo, com foco em gerar experiências marcantes para os consumidores”, disse em nota. PublicidadeA empresa afirmou ainda que os projetos reforçam “o olhar contínuo” da companhia para evolução de embalagens e inovação no portfólio. “Atualmente, a Ambev avança continuamente em iniciativas voltadas à circularidade, ampliando o uso de embalagens retornáveis e de materiais reciclados em seu portfólio.”Contexto experimental na HeinekenNo final do ano passado, a Heineken também lançou uma edição limitada de cervejas envasadas em garrafas de alumínio. De acordo com informações da empresa ao Estadão, foram produzidas cerca de 300 mil unidades, disponibilizadas exclusivamente na cidade de São Paulo (SP), em homenagem ao Grande Prêmio de Fórmula 1 de 2025. O material utilizado foi importado da Holanda.A executiva Ligia Camargo, diretora de Sustentabilidade do Grupo Heineken, explica que o lançamento teve o objetivo de ofertar ao consumidor uma experiência diferenciada por meio de uma embalagem com potencial colecionável, mas também quis promover um ambiente de teste de diversificação de materiais, antes de um eventual aumento de volume de produção. Campanha promocional da Heineken em garrafa de alumínio para a Fórmula 1 Foto: Heineken/DivulgaçãoPUBLICIDADE“Esse tipo de iniciativa permite testar novas soluções de embalagem em contextos controlados, gerando aprendizados relevantes antes de eventuais movimentos de escala”, diz. “A garrafa lançada na Fórmula 1 também se conecta a um movimento mais amplo de diversificação de materiais no mercado de bebidas. Ao experimentar esse tipo de solução, a marca contribui para ampliar possibilidades de embalagem, ajudando a evoluir a agenda de circularidade no setor.”No momento, o grupo mantém a garrafa de alumínio em sua marca de água mineral, Mamba Water, e, conforme a executiva, está “acompanhando a evolução de soluções inovadoras em embalagens e avaliando oportunidades, considerando aspectos como viabilidade operacional e impacto ambiental”. Ligia Camargo é diretora de Sustentabilidade do Grupo Heineken Foto: Divulgação/HeinekenNo entanto, para as garrafas de cerveja, o vidro segue tendo maior peso para as marcas do Grupo Heineken. Em 2024, foram R$ 150 milhões investidos no Heineken Spin, braço de sustentabilidade da companhia, no qual um dos pilares é a reciclagem do vidro. “O alumínio apresenta números relevantes do ponto de vista de circularidade e está presente em todo o nosso portfólio. Por outro lado, o grupo entende que o vidro segue sendo um material estratégico para o setor, infinitamente reciclável e altamente versátil. Nesse sentido, a companhia acredita que os desafios relacionados à circularidade do vidro não passam necessariamente pela substituição por outros materiais, mas, sim, pela valorização do material e pelo fortalecimento da cadeia de reciclagem”, pondera Camargo.Validação do mercadoPara a presidente da Abal, Janaina Donas, o movimento de grandes cervejarias em direção às garrafas de alumínio, mesmo que via edições limitadas, é um “sinal claro” do potencial de adoção das embalagens e da percepção da indústria sobre o alinhamento delas com tendências como economia circular e inovação, que já têm sido demandados por consumidores atualmente. Isso indica que elas estão testando a “validação do mercado”.PublicidadeJanaina Donas é presidente da Associação Brasileira de Alumínio (Abal) Foto: Tiago Queiroz/Estadão“O fato de esses lançamentos ainda ocorrerem em edições limitadas reflete, sobretudo, um processo natural de validação de mercado. Nesse sentido, edições limitadas funcionam como um termômetro. Além disso, à medida que a cadeia produtiva se consolida e a demanda por parte do consumidor se torna mais previsível, é esperado que mais marcas passem a considerar a garrafa de alumínio como parte permanente de seus portfólios”, afirma. Donas avalia que, para que as garrafas de alumínio alcancem um patamar comparável ao das latas no Brasil em popularidade e adesão, será necessário ganho de escala, para redução de custo unitário, e maior competitividade frente a embalagens de vidro; aproveitamento da infraestrutura de reciclagem já existente; e construção de uma narrativa consistente junto ao consumidor, associando a garrafa de alumínio aos atributos de responsabilidade ambiental. O cenário, no País, é favorável.Leia tambémQuanto ganha um líder de ESG no mercado financeiro? Setor prioriza ‘perfil executor’ para funçãoHerbíssimo ‘limpa’ fórmulas de desodorante para crescer 30% com maior interesse por produtos ‘clean’“Há mais de 15 anos, o índice de reciclagem de latas de alumínio para bebidas no Brasil supera 96%, enquanto os outros materiais enfrentam desafios estruturais significativos em sua cadeia de coleta e reprocessamento”, diz. “(Então) as garrafas de alumínio representam, sim, uma alternativa concreta e com grande potencial de crescimento no mercado brasileiro de cervejas, especialmente quando analisadas sob a ótica da sustentabilidade e da infraestrutura de reciclagem já consolidada no País.”Publicidade