“Que sopa tem hoje?” Sempre que almoço num desses lugares sacrossantos, cada vez mais escassos, a que chamamos “tascas” de Lisboa, faço a mesma pergunta, espreitando sobre o balcão para a cozinha de onde derramam cheiros, fumo e o ruído de tachos, que se misturam com a voz estridente da pivô das notícias na televisão, que se ergue como um altar ao fundo da sala. Normalmente a resposta à pergunta é acompanhada da unha, mais ou menos pontiaguda do dedo indicador, frequentemente peludo, do empregado — que a maioria das vezes acumula a função de dono do estabelecimento familiar — enquanto abre repentinamente a ementa num gesto teatral de ilusionista, e exibe solenemente o título da sopa do dia, escrito numa caligrafia perfeita, redonda, rococó, como em tempos se exigia na breve escolaridade obrigatória, onde as curvas de letras encaracoladas eram sinal de esmero.Quando o dia corre bem, há sopa de feijão, de nabiças, de grão, de agrião. Quando o dia corre mal: canja.“Canja não é sopa”, gracejo, com a consciência prévia de que a piadola não surtirá qualquer alívio cómico no meu interlocutor, pelo contrário, anos de tentativa só me demonstram que não se brinca com a canja — estandarte glorioso da gastronomia caseira de quem com pouco faz muito, e provavelmente o último reduto para um dia na ementa em que não houve tempo para ir buscar legumes frescos ao fornecedor.O meu interlocutor desvia invariavelmente o olhar, sisudo, recusando-se a atribuir qualquer leviandade ao assunto, fecha a ementa num estrondo, ameaçando guilhotinar os meus cabelos soltos sobre os ombros, e erguendo-se qual comandante que ostenta as medalhas de guerra, encosta a ementa ao peito, hasteando-a sobre a camisa de xadrez que condiz com a tolha de mesa, esmagando os pelos do peito que espreitam do colarinho, asfixiados. “É o que há!”, responde brioso.Diante da contingência peço o prato do dia, pedido este que é recebido com o mesmo tom austero, com que provavelmente a professora apontava a imperfeição da caligrafia, e pedia para repetir a palavra cem vezes na mesma página. Canja, canja, canja…Diz-se que foi o médico Garcia de Orta que popularizou a canja, curioso com o consumo da iguaria medicinal à base de arroz e especiarias que na Índia se usava para tratar doentes: o kanji, conforme descreve na sua obra Colóquios dos Simples e Drogas da Índia. Guardo a informação como digestivo, para corroborar a minha posição sobre a canja, quando pedir o café ao meu anfitrião rezingão. Sem desistir de amaciar a rudeza: “Sabe que a canja já foi uma droga?” Sei que não terei hipótese. Os dentes são para roer bifes, e as iscas com cebolada, primeira sugestão do menu do dia. E os sorrisos anotados na contabilidade. Nenhum sorriso será desperdiçado.A ideia de ver as miudezas, as bolinhas de massa, a carne desfiada, e em casos radicais, a pata da galinha a boiar numa piscina gordurosa na tigela, não me convence. Quando vivi por uns meses em Xangai, tão deslocada das minhas ruas e hábitos — tanto quanto se deve ter sentido o médico Garcia de Orta, homem do Norte, chegando às Índias —, eu via as crianças chuparem as pernas das galinhas embaladas em sacos coloridos, da mesma maneira que aqui sorvemos pernas-de-pau, o gelado. Mas recordei-me imediatamente que a uma distância antípoda, também eu em criança, roía as patas das galinhas e pedia à minha avó que deitasse o petisco borrachoso na minha tigela da canja.Consigo lembrar-me com uma exatidão avassaladora da memória deste sabor. Sabia a casa. Sabia ao percurso da avó da capoeira à cozinha, ao cheiro a penas quentes, sangue na tábua, arroz cozido, aos Avé Maria na rádio, acompanhados pela cantilena devota da avó que não sabia ler mas guardava a Bíblia na mesa de cabeceira.A minha avó veio a aprender a caligrafia redonda, bem mais tarde, nas escolas que se faziam para velhos que em crianças não tinham tido a oportunidade de passar pela infância. Que se curvavam as costas em caracol para aprenderam a cavar, a cozinhar, a servir. O género feminino ditaria a saída precoce da escola, e portanto da infância. Enquanto roía as patas das galinhas, eu nutria-me sem saber, dessas coisas que se passavam antes de mim, gravadas nos gestos de quem não desperdiçava as mãos nas carícias, mas antes as usava para limpar e preparar as carnes moles dos animais a quem chamavam “criação”. Para fazer de um prato de água gordurosa e miudezas, aconchego e ternura. E subsistência também. Amor e subsistência nunca se dissociavam.A minha avó e o meu avô também tinham tido uma tasca, um tasco, antes de eu nascer, onde, segundo rezam as histórias familiares, não havia motorista da Rodoviária Nacional que não parasse para comer as irresistíveis petingas fritas a pingar de gordura no pão, feitas pela minha avó.Quando cheguei a Lisboa para estudar, e viver sozinha na fragilidade dos meus 17 anos, ainda em convalescença da infância, empinava sopa, e se fosse preciso, canja, em todas as tascas que as serviam. O valor curandeiro do remédio de Orta não perdera o efeito. A sopa atenuava as saudades. Sobretudo porque reconhecia que a rudeza dos anfitriões, longe de ser antipática, gozava daquele trato de um carinho assintomático de quem já tinha crescido adulto, de um amor enrijecido pelos calos. “Sai uma sopa para a menina!”, gritava o senhor da Mourisca na Graça, mal me via pôr o pé na soleira da porta. Como quem diz: “Nem precisa de pedir”. Como quem diz: “É da casa…” Sabia a casa.Quando há dias uma amiga escolheu uma tasca para desabar o luto de uma mãe que tinha finalmente sucumbido a uma longa doença, foi numa mesa com talheres baços, canja na ementa, e uns pastéis de bacalhau gloriosamente oleosos que a vi deixar-se abater. Talvez os turistas americanos que atrás de nós gozavam ruidosamente da pechincha do repasto nem tenham reparado, que numa mesa encostada aos azulejos, ela comovida, relembrava a história de uma vida feita de pouca escola, muito trabalho e costas curvadas… No entanto o senhor atrás do balcão fez questão de manter respeitosamente os olhos postos na televisão onde a pivô papagueava, enquanto se aproximou, sem fazer menção de olhar para as lágrimas abundantes que a minha amiga largava, ou de dizer uma única palavra, e gentilmente depositou um molho de guardanapos em cima da mesa. Nas tascas, a tristeza limpa-se com guardanapos de papel.A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990