Não há um consenso histórico, mas segundo registros reunidos por historiador e folclorista a palavra não teria surgido nos botequins, mas nos bailes, como referência à última dança da noite Chope de Os Imortais — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 21/05/2026 - 23:05 Leilão de Imóveis na Pedra do Sal Enfrenta Disputas Legais e Históricas A disputa por 112 imóveis na Pedra do Sal, Rio de Janeiro, remonta a 1821, quando Dom João VI doou as terras a uma ordem religiosa. Atualmente, a Associação Lar São Francisco de Assis administra o patrimônio e enfrenta ações judiciais de ocupantes que alegam usucapião. O leilão dos imóveis, com lances até terça, pode arrecadar R$ 33 milhões, mas enfrenta desafios legais e de preservação histórica. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Trago um aviso dificílimo, mas real: a “saideira” por conta do botequim acabou. Fim. Nem nos restaurantes mais aprumados se acha. Estou falando de contas com três ou quatro dígitos. Nada de tomar dois chopinhos e querer um garotinho de cortesia. Aquele abraço final em formato de cevada se perdeu. Nos últimos dois meses, o Data Gomide, meu instituto informal de pesquisas especializado em botecos pés-sujos, conversou com 82 amigos e amigas. Classes sociais distintas. De diversos bairros e cidades fluminenses — e até com o jornalista mineiro Nenel, uma celebridade digital quando o assunto é boemia e dono de um fígado que merece sérios estudos. Alguns vão aos mesmos lugares e outros ficam pingando de casa em casa. O resultado foi que somente dois deles ainda cruzavam com a “saideira” e, mesmo assim, com ressalvas. Percebi que a vaca estava indo para o brejo há uns dois anos. Acompanhados de um casal de amigos, fomos eu e Fernanda a um famoso restaurante de Botafogo. Desses supertradicionais. A conta veio salgada, mas condizia com a qualidade e com o que pedimos. Pablinho demonstrou ter sede de um batalhão, lembro bem. Na hora da conta, lancei a clássica: “Tem a saideira, né?”. O garçom disse que o barril estava sendo trocado e que não teria. “Era mais fácil dizer que não era mais política da casa”, concluiu Juliana, esposa do Pablo. Ali acendeu a luz vermelha de que a cultura tipicamente carioca respirava por aparelhos. Nunca mais voltei. De onde vem a saideira? Não há um consenso histórico, mas segundo registros reunidos pelo historiador e folclorista Luís da Câmara Cascudo, a palavra “saideira” não teria surgido nos botequins, mas nos bailes, como referência à última dança da noite. Há ainda interpretações que associam o termo às festas tradicionais da imigração alemã no Rio Grande do Sul, onde a “saideira” marcava oficialmente o encerramento do evento. Com o tempo, o hábito migrou para os bares e passou a identificar o último copo antes da despedida. Já nos anos 1950, jornais brasileiros registravam o uso da expressão com esse significado. Um dos pais da “saideira” Nos anos 1950, um dos homens mais conhecidos do centro do Rio de Janeiro atendia pelo apelido de Zica. Manoel da Silva Abreu era dono do Bar Flórida, ponto frequentado por artistas, empresários e funcionários do edifício “A Noite”, então um dos mais movimentados da cidade, na Praça Mauá. O prédio abrigava a famosa Rádio Nacional e concentrava parte importante da vida cultural carioca. Para agradar e fidelizar os frequentadores, Zica tinha a prática de oferecer uma cortesia da casa. Na época, em copos do mesmo tamanho. Dificilmente não voltavam. Vale dizer que o bar não era a principal fonte de renda de Zica. A fortuna veio do contrabando de produtos importados, especialmente baralhos e automóveis. Segundo relatos da época, Zica mantinha informantes no porto e usava uma estratégia curiosa para driblar apreensões da Receita. Quando mercadorias eram confiscadas, ele articulava para que peças fossem retiradas antes dos leilões oficiais. Em alguns casos, desmontava carros importados, como modelos Chevrolet dos anos 1950. Antes de chegarem ao porto, retirava componentes essenciais e depois comprava os veículos como sucata ou ferro-velho por preços baixos. Bastava recolocar as peças e revendê-los por muito mais. A trajetória de Zica ainda cruza temas inesperados da história brasileira: a proibição dos cassinos no governo de Eurico Gaspar Dutra, a compra dos primeiros televisores do Brasil, além da relação com obras filantrópicas. Por falar na Região Portuária Morador das redondezas do Morro da Conceição, Seu Jóia era conhecido pelo temperamento forte e pelos hábitos incomuns. Apesar de viver em uma cidade marcada pelo samba, preferia música clássica e ópera. Aos sábados, deixava o balcão do bar, trocava a bermuda por paletó e gravata borboleta e seguia para apresentações no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde escutava compositores como Verdi. O ambiente do botequim dele, na Rua Julio Lopes de Almeida, refletia os gostos do dono: escudos do Botafogo de Futebol e Regatas espalhados pelas paredes, fotografias ousadas e música erudita tocando constantemente. Hoje, o espaço é mantido por dona Alayde, companheira de Jóia durante mais de duas décadas. A comida é um espetáculo, e a cerveja, sempre gelada. Em redutos como o Jóia, não se deve aceitar jamais a “saideira” por conta da casa. É patrimônio centenário que devemos cultivar. Fica a dica As jornalistas Cláudia Meneses e Marina Gonçalves assinam, aqui em O GLOBO, o blog “Saideira”. Fico sabendo das novidades no universo gastronômico carioca por elas.
A 'saideira' por conta da casa morreu
Não há um consenso histórico, mas segundo registros reunidos por historiador e folclorista a palavra não teria surgido nos botequins, mas nos bailes, como referência à última dança da noite










