Outubro de 2026 não é uma data no calendário: é uma encruzilhada RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/05/2026 - 19:05 Crise estrutural política no Brasil exige reformas urgentes antes de 2026 O artigo discute as patologias do sistema político brasileiro, destacando a crise estrutural que vai além de escândalos pessoais. O presidencialismo enfraquecido pelo Centrão e a representação desproporcional são questões centrais. A corrupção se torna estrutural, enquanto a impunidade mina a confiança na lei. Com a eleição de 2026 vista como crucial, o texto apela por reformas institucionais e líderes corajosos para enfrentar essas disfunções. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Duas notícias dominaram a semana: novas informações sobre as relações entre a família Bolsonaro e Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o potencial impacto dessas informações no processo eleitoral que definirá o próximo presidente. A tentação do comentário político é ficar no particular: personagem, escândalo, episódio, pesquisas eleitorais. Obviamente, todas são questões relevantes. Mas há uma consequência preocupante nesse foco no curto prazo: os grandes problemas de nossa estrutura política e de governo são omitidos, ainda que estejam na raiz de todas essas questões. O Brasil tem problemas que vão além das pessoas. Tem um sistema doente. Sistemas doentes não se curam unicamente com a troca de atores; reproduzem-se com novos rostos. A patologia de base é conhecida: o presidencialismo formal foi esvaziado pela ascensão do Centrão, que passou a co-governar sem co-responder. O resultado é um híbrido perverso: um parlamentarismo sem responsabilização, no qual nem o presidente nem o Congresso podem ser claramente cobrados. A irresponsabilidade política foi, na prática, institucionalizada. Outro grave problema, inscrito na própria Constituição, é a representação proporcional. A imposição de limites mínimos e máximos transforma esta proporcionalidade numa ficção: nos três estados mais populosos, cada deputado representa, em média, mais de 300 mil eleitores; nos três menos populosos, pouco mais de 60 mil, numa razão que pode superar cinco para um. Quando foi a última vez que esse problema entrou no debate público? Dezenas de partidos sem identidade programática nítida disputam poder sem disputar ideias, e se multiplicam porque o sistema os financia e incentiva. A principal distinção que estrutura o debate político hoje é esquerda ou direita. Mas, como mostrou recentemente a The Economist, há mais consenso do que parece: corrupção, custo de vida e reformas institucionais preocupam eleitores dos dois lados. O país pode estar dividido, mas seus eleitores têm mais em comum do que pensam, e mais do que seus candidatos admitem. As emendas parlamentares tornaram-se moeda de troca: o Executivo negocia apoio, o parlamentar barganha recursos, e o Orçamento paga a conta. O Orçamento impositivo completa o cerco: amarra o Executivo e blinda o sistema contra qualquer presidente que queira reformá-lo. Parte das agências reguladoras foi capturada pela barganha política, criando as condições para que o fiscal seja capturado pelo fiscalizado. A corrupção, em muitos casos, deixa de ser episódica e se torna estrutural, alimentada por um ambiente que oferece ganhos altos e riscos baixos. E sobre tudo isso paira uma impunidade seletiva que corrói, dia a dia, a crença de que a lei é igual para todos. São tantos os problemas que uma coluna não é suficiente para enumerar todos. Mas nenhuma dessas patologias é segredo. O que falta não é informação, é consciência de sua gravidade. O Brasil trata cada escândalo como exceção e cada crise como acidente. Enquanto o diagnóstico sistêmico não for amplamente compartilhado, qualquer reforma será cosmética. Democracias maduras também convivem com disfunções, mas criam mecanismos de autocorreção antes que elas se consolidem como norma. Parte dessa autocorreção passa por reformas adiadas há décadas. O debate sobre o sistema de governo e a correção das distorções da representação proporcional são exemplos do que uma agenda séria precisaria enfrentar. Há outras frentes. O que importa é a disposição de abri-las. É nesse ponto que 2026 se torna dramático. Pode ser mais uma eleição perdida. O país que emerge de cada oportunidade perdida é mais difícil de reformar. O que se exige do próximo presidente é credibilidade para nomear os problemas sem eufemismos e disposição real para enfrentar essas disfunções. A diferença entre o reformador e o oportunista não está no discurso, está no que cada um está disposto a enfrentar. A responsabilidade não recai apenas sobre o eleitor, que só pode escolher entre os que se apresentam. A maioria dos brasileiros já se incomoda com a polarização e a vê como fator de desgaste da democracia. O que falta é que os candidatos estejam à altura desse incômodo, e que a sociedade passe a exigir, em voz alta, reformas institucionais claras. Outubro de 2026 não é uma data no calendário: é uma encruzilhada. As patologias do sistema só começarão a ser curadas quando um presidente tiver a coragem de nomeá-las, e a determinação de enfrentá-las. Pedro Parente
As patologias do sistema
Outubro de 2026 não é uma data no calendário: é uma encruzilhada















