Contexto cubano difere das crises norte-americanas com Venezuela e Irã, afirma Guga Chacra em newsletter especial Homem exibe quadro com as imagens de Raúl e Fidel Castro em Havana — Foto: Yamil Lage/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/05/2026 - 05:11 EUA e Cuba: Crise Aquece com Ameaça de Sanções e Bloqueio Os EUA intensificaram a crise com Cuba, evocando tensões da Guerra Fria. Marco Rubio ameaça com sanções além do embargo histórico e bloqueio de petróleo. Raúl Castro, de 94 anos, é acusado nos EUA por um incidente de 30 anos atrás, lembrando estratégias usadas contra a Venezuela. Rússia e China condenam a escalada. Apesar das diferenças contextuais, incertezas pairam sobre possíveis ações americanas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Desde a eclosão da guerra no Irã, Guga Chacra escreve newsletter diária com informações e análises exclusivas. Clique aqui para se inscrever. Os Estados Unidos escalaram a crise com Cuba de uma forma não vista desde os tempos da Guerra Fria. O secretário de Estado, Marco Rubio, ameaça o regime cubano com punições além do embargo de mais de seis décadas e o bloqueio à entrada de petróleo imposto semanas atrás. Raúl Castro, ex-líder do país e irmão de Fidel, foi acusado na Justiça norte-americana por envolvimento na morte de pilotos cubano-americanos em episódio ocorrido há exatos 30 anos. As ações do governo de Donald Trump lembram as medidas tomadas contra a Venezuela antes da captura de Nicolás Maduro. Similaridades e diferenças – Absolutamente ninguém sabe quais podem ser os próximos passos dos EUA. Mas parece claro que alguma ação será tomada diante das similaridades com as crises na Venezuela, antes da captura de Maduro, e no Irã, antes do ataque que provocou a atual guerra. Ao mesmo tempo, o contexto cubano é diferente tanto do venezuelano quanto do iraniano. Ações aplicadas em Caracas e Teerã não poderiam ser adotadas da mesma forma em Havana. Idoso de 94 anos – Comecemos por Raúl Castro. Os EUA iriam capturar um idoso de 94 anos que sequer oficialmente comanda o regime? Como esta ação seria vista no resto do mundo e mesmo dentro dos EUA? Maduro tem 63 anos, é alto e forte. Estava no poder. Provocava os EUA. Não que isso justifique a sua captura pelas leis internacionais. Não justifica. Mas, certamente, uma captura nos mesmos moldes de Raúl Castro, pequeno e idoso, poderia ser vista como uma crueldade, além de basicamente ineficaz. Traição em Caracas – O regime cubano é mais coeso e mais ideológico do que o venezuelano. Suas Forças Armadas são mais bem treinadas. Claro que não o suficiente para enfrentar os EUA. Não são como o Irã, que foi capaz de resistir aos bombardeios norte-americanos e israelenses. Mas podem impor alguma forma de resistência no caso de uma tentativa de captura de Raúl Castro nos moldes da realizada na Venezuela. Além disso, Maduro claramente foi traído por membros de seu regime, incluindo Delcy Rodríguez, que imediatamente assumiu o poder e se tornou aliada de Trump. Simbolismo – Rússia e China também se manifestaram contra a escalada norte-americana. Embora com uma importância econômica muito menor do que a da Venezuela e a do Irã, simbolicamente o peso dos cubanos para chineses e russos é enorme. São ligações que duram décadas, desde os anos 1960. Raúl Castro também carrega um sobrenome sinônimo de resistência aos EUA. Acusação – Tampouco sabemos se os EUA pretendem mesmo capturar Raúl Castro. Mas a acusação formal pela morte dos cubano-americanos nos anos 1990 se assemelha à acusação de que Maduro seria líder de um cartel de drogas meses antes da ação para capturá-lo em Caracas. Por este motivo, muitos arriscam que Raúl Castro poderia ter o mesmo destino. Escalada – Rubio tem elevado as ameaças contra Cuba. Uma cubana residente nos EUA teve seu green card retirado e foi presa por ter ligações com o conglomerado econômico controlado pelo regime cubano. O governo Trump também deve permitir que empresas e pessoas que tiveram seus bens confiscados na Revolução Cubana possam processar o regime nos EUA. Terror – Cuba também foi acusada de apoiar o terrorismo. Neste caso, é uma acusação difícil de ser sustentada. Afinal, não dá para citar um cubano ou um ataque terrorista associado ao regime ao longo do século 21. Como comparação, 15 dos 19 terroristas do 11 de Setembro eram da Arábia Saudita, principal aliado dos EUA no mundo árabe. Trump recebeu na Casa Branca Ahmad al-Shara, ditador da Síria e que comandou por anos o braço sírio da rede terrorista al-Qaeda. Ditadura – O fato de ser uma ditadura tampouco seria motivo para os EUA atacarem Cuba. Afinal, Washington possui excelentes relações com uma série de ditaduras e dá bilhões de dólares para os regimes do Egito e da Jordânia. Tampouco ser comunista seria motivo de ataque militar. Trump acabou de ir à China, uma nação que, embora capitalista, segue governada pelo Partido Comunista. No passado, reuniu-se com Kim Jong-un, ditador da comunista Coreia do Norte. Qual acordo? – Segundo Rubio, se Cuba não aceitar fazer um acordo, os EUA devem agir. Não ficou claro qual seria o acordo. Não há disputas entre Washington e Havana. No caso do Irã, de fato há a questão nuclear, os mísseis balísticos, o Estreito de Ormuz e o apoio ao Hezbollah. Mas qual concessão os EUA gostariam que o regime cubano fizesse? Não há nenhuma demanda. Incerteza – Como escreveu Brian Winter, editor do “Americas Quartely”, em post no Twitter, nenhum analista previu a ação para a captura de Maduro e muito menos que Trump decidiria apoiar Delcy Rodríguez, número dois do regime, em vez da líder opositora María Corina Machado. Portanto, não temos ideia do que pode ocorrer em Havana.