Gerando resumoDepois de semanas troca de mensagens ríspidas entre Estados Unidos e Cuba e novas ameaças feitas pelo presidente Donald Trump contra a ilha comunista, a Justiça americana acusou formalmente nesta quarta-feira, 20, o ex-ditador Raúl Castro, irmão do também ex-ditador Fidel Castro de homicídio em uma audiência em Miami, na Flórida, o Estado americano com a maior diáspora cubana no país.De acordo com a ação penal, Castro, de 94 anos, é denunciado formalmente, com outras cinco pessoas, de homicídio e conspiração para a morte de cidadãos dos EUA na derrubada de dois aviões de ajuda humanitária em 1996. Além de um processo judicial, especialistas ouvidos pelo Estadão acreditam que a ação penal neste momento também é uma forma de pressionar Cuba a uma mudança de regime e abertura ao comércio americano.A acusação foi proferida em sigilo no mês passado e se baseou em acusações anteriores, apresentadas pela primeira vez em 2003 Foto: Ismael Francisco/AP PhotoPUBLICIDADE“Ao apresentar acusações contra Raúl Castro, o que está se criando é uma base jurídica para passar das pressões diplomáticas e da pressão da mídia para a possibilidade de ações de força, como a que vimos na Venezuela em 3 de janeiro e como a que vimos no Irã”, afirmou Boris González Arenas, historiador e jornalista independente que vive em Havana, ao Estadão.Para Carlos Gustavo Poggio, do Berea College do Kentucky, uma operação para invadir Cuba aos moldes da prisão de Maduro é logisticamente possível, e que a atenção dada ao assunto internamente nos EUA pode significar que existe essa possibilidade.Publicidade“A televisão aberta parou a programação para dar à coletiva de imprensa do secretário de justiça. Tinha uma plateia grande e o anúncio foi feito na Flórida. (A acusação) abre caminho para uma operação similar a da Venezuela”, apontou Poggio.Ameaças A ameaça de possível invasão ao território cubano tem pairado constantemente nas declarações Trump neste ano. Em maio, o presidente americano disse que seu governo estava próximo de “assumir” a ilha após o fim da guerra no Irã, o que provocou uma resposta do presidente cubano afirmando que a declaração era de um “nível perigoso e sem precedentes”. Em março, as ameaças já se acumulavam e Trump falou em uma possível tomada da ilha mais de ume vez. Durante um fórum de investimentos em Miami, o republicano afirmou que “Cuba era a próxima” ao comentar sobre as ações militares na Venezuela e no Irã. Ainda em março, Trump também sugeriu mais fortemente que uma ação poderia acontecer em Cuba por meios militares. Na ocasião, o americano disse que poderia “ser ou não uma tomada de controle amigável” no país, afirmou.PublicidadePressão políticaAinda não está claro se alguma ação está planejada pelos EUA em Cuba, mas Arenas destaca que a sequência de ações americanas aponta para um uso da força em prol da agenda de mudança política de Trump. Na tarde de quarta-feira, o presidente americano disse a repórteres que não acredita que haja a necessidade de escalar a situação. “Olha só, o lugar está caindo aos pedaços, está uma bagunça”, afirmou Trump.Troca de farpasAinda na terça-feira, 19, antes da acusação de Castro, Trump voltou a falar sobre o país, afirmando que acha possível fechar um acordo com a ilha e que Cuba é uma “nação fracassada” que precisa da ajuda americana. O presidente dos EUA citou a crise energética sofrida pelos cubanos, mas não respondeu diretamente se o principal objetivo ainda era mudar o regime. No começo desta semana, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, defendeu que o país tem direito “legítimo” de responder a um possível ataque americano, caso a situação evolua para meios militares. A declaração foi feita após uma matéria do site americano Axios publicar que Cuba teria adquirido mais de 300 drones militares. O país estaria, ainda, estudando formas de usar os equipamentos em uma área próxima à base naval americana na Baía de Guantánamo, no leste da ilha.PublicidadeVeja mais Quem é Raúl Castro, ex-ditador de Cuba acusado de homicídio pelos EUATrump diz que EUA estão ‘libertando’ Cuba após indiciamento do ex-ditador Raúl CastroPresidente cubano critica indiciamento de Raul Castro pelos EUA: ‘Ridículo, sem base jurídica’CONTiNUA APÓS PUBLICIDADEA crise energética, que já afetava o país desde o ano passado, se tornou insustentável após a ação dos EUA na Venezuela que prendeu Nicolás Maduro, em janeiro deste ano. Na época, Washington afirmou que a suspensão do fornecimento de petróleo para Cuba era uma resposta à “ameaça excepcional” que o país caribenho representava. A principal demanda é que o país aceite um acordo de abertura do governo para que os EUA possam pressionar as decisões comerciais e econômicas. Mas Cuba tem resistido à ideia de uma negociação que inclua a troca do regime atual. “O regime comunista (em Cuba), ao longo de 60 anos, se distanciou e se dissociou completamente da população cubana, a ponto de hoje os interesses do castrismo serem uma coisa e os interesses da nação cubana serem outra. Isso vem acontecendo há muitos anos, mas hoje estamos em um momento de grave crise dessa dissociação. A pressão aumenta porque o castrismo não conta com nenhuma base social”, afirmou Arenas.Impacto eleitoralA ação penal contra Castro também deve ter impacto na base republicana do país, principalmente na Flórida, estado que concentra a maior comunidade cubana nos EUA. Trump tem registrado índices altos de desaprovação entre a população americana e mesmo entre os republicanos. Com eleições de meio de mandato em novembro, recuperar parte do eleitorado é essencial para a segunda metade de seu governo.Publicidade“Existe uma preocupação com o voto na Flórida, onde Trump pode ter alguma vantagem importante, os republicanos também. Isso é relativamente popular dentro da base do Partido Republicano, em especial na Flórida e entra dentro da lógica do Donald Trump de fazer ações que são populares para a base, não necessariamente populares para o país como um todo, que, em certa medida, explica os atuais números de aprovação dele”, explicou Poggio. “Se tiver sucesso na pressão que está exercendo, Trump garante não apenas os votos da Flórida. Acredito que ele terá a garantia da gratidão de vários cubanos tanto na Flórida quanto em Cuba por muitos anos”, apontou Arenas.Rubio protagonistaUm outro beneficiado com a ação penal desta quarta-feira é Marco Rubio. O Secretário de Estado é apontado como um dos possíveis candidatos republicanos para as eleições presidenciais americanas em 2028. Filho de imigrantes cubanos, Rubio costuma ser abordado em questões referentes à América Latina e estava ao lado de Trump na madrugada de 3 de janeiro deste ano acompanhando a operação na Venezuela.“O presidente Trump está propondo um novo caminho entre os EUA e uma nova Cuba”, afirmou Rubio em um breve discurso em vídeo, após a acusação de Castro.PublicidadeSegundo Poggio, a questão é de interesse pessoal para Rubio e pode ser, inclusive, o início de um material de campanha com foco em um político que “resolve” as questões latinas próximas aos EUA. Para Arenas, ainda é cedo para contar com a questão cubana como uma vantagem que pode colocar Rubio à frente de outros candidatos - como o atual vice-presidente JD Vance, por exemplo. Mas que a ação contínua do secretário pode ser benéfica a longo prazo em um dos principais eleitorados dos EUA. “O que é certo é que, se essa ação for bem-sucedida, essas pressões sobre o regime comunista, Marco Rubio terá, sem dúvida, o apoio dos cubano-americanos da Flórida”, afirmou Arenas.
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