Este ano, o tema definido pela Convenção sobre a Diversidade Biológica para o Dia Internacional da Biodiversidade, celebrado a 22 de maio, é “agir localmente para um impacto global”. No contexto empresarial, esta ideia é particularmente relevante: muitos dos impactos globais sobre a natureza dependem de decisões estratégicas tomadas localmente, nos territórios e cadeias de valor das empresas.A repetição destes lemas simples faz com que rapidamente se tornem lugares-comuns. Nos últimos anos, tenho dado por mim a repetir, em diferentes fóruns, as mesmas mensagens sobre a importância da natureza nas estratégias empresariais. Já deve haver quem esteja cansado de ouvir referências à dependência da economia global do capital natural, ao declínio de populações monitorizadas de espécies selvagens, ou ao potencial das soluções baseadas na natureza.Frequentemente, preciso de navegar um equilíbrio delicado entre a necessidade de explicar que falar de natureza não significa apenas proteger espécies emblemáticas, mas também discutir recursos críticos para setores estratégicos da economia. Ao mesmo tempo, é importante evitar que o tema seja tratado exclusivamente através de uma lógica mercantilista. A natureza tem valor para além da sua utilidade económica, ainda que seja desafiante traduzi-lo em métricas ou linguagem financeira.Existe um termo, “plant awareness disparity”, que descreve a tendência para se ignorar e subestimar as plantas, especialmente quando comparadas com animais. No tecido empresarial, parece existir uma dificuldade semelhante em reconhecer o capital natural como um tema estratégico e relevante para equipas de risco ou financeiras.Mas mesmo quando esse reconhecimento existe, há um obstáculo mais fundo. Em termos gerais, um dos maiores entraves à execução de práticas que potenciem o capital natural e os seus benefícios é o curto-prazismo. A pressão de ciclos financeiros e políticos impede muitas vezes que as empresas definam e executem planos de ação de forma estruturada e com objetivos de curto, médio e longo prazo. Isto traduz-se em investimentos adiados ou dificuldades em integrar riscos relacionados com a natureza nos processos de decisão. Até porque o longo prazo para uma empresa pode corresponder a um curto período de tempo, na perspetiva da natureza.Esta lógica de antecipação é particularmente evidente quando pensamos na gestão do território. Basta olhar, por exemplo, para o impacto recorrente dos incêndios em Portugal e para as suas consequências sociais, económicas e ambientais. O fogo é um elemento fulcral dos ecossistemas mediterrânicos, pelo que talvez seja tempo de deixar de lado esta “nature awareness disparity” e começar a trabalhar com a dinâmica natural destes sistemas. Em vez de tratar os custos associados a fenómenos extremos como inevitabilidades, importa investir na antecipação, através de planeamento territorial, gestão da paisagem e reforço da resiliência.A integração da natureza nas decisões empresariais não depende apenas de ambição ou compromisso. Depende da capacidade de agir cedo, de forma estruturada e com visão de longo prazo. Assim, para terminar, sugiro um tema transversal, igualmente simples, não apenas para este Dia Internacional da Biodiversidade, mas também para todos que trabalham com natureza: “agir hoje para um impacto duradouro”.O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
Agir hoje para um impacto duradouro
Mesmo quando existe reconhecimento da importância do capital natural e os seus benefícios, há um obstáculo mais fundo à execução de práticas que os potenciem: o curto-prazismo.











