Tecnologia, por si só, não é sinônimo de progresso. Progresso verdadeiro exige direção moral, compromisso público e inclusão social Rio das Pedras: sem saneamento, esgoto cai diretamente no canal — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 21/05/2026 - 18:19 Tecnologia Não Basta: Progresso Verdadeiro Exige Inclusão e Justiça O artigo discute que a tecnologia, por si só, não é sinônimo de progresso verdadeiro, que exige inclusão social, direção moral e compromisso público. Destaca que, apesar das inovações, desigualdades persistem, transformando a tecnologia em privilégio e ampliando injustiças. Defende que a tecnologia deve ser meio para distribuir dignidade e que o progresso genuíno ocorre quando ninguém é deixado para trás. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A humanidade aprendeu a fazer máquinas pensarem, satélites enxergarem a Terra em tempo real, algoritmos preverem comportamentos e robôs realizarem procedimentos antes inimagináveis. Vivemos cercados por promessas de inteligência artificial, medicina de precisão, biotecnologia, cidades inteligentes e revoluções digitais. Quando se fala de inovações tecnológicas, há hoje um debate interessantíssimo sobre as fronteiras entre essas inovações e a condição humana. No entanto, diante de tanta sofisticação, permanece uma pergunta incômoda: que civilização é essa que consegue levar uma sonda ao espaço, mas ainda não consegue garantir saneamento, alimento, educação, moradia digna e acesso à saúde para todos? A questão central é, assim, como utilizar as novas tecnologias em benefício da dignidade humana e do desenvolvimento social. A evolução tecnológica é uma das maiores conquistas humanas. Seria ingênuo, e até injusto, negar seus benefícios. A ciência aumentou a expectativa de vida, reduziu mortes evitáveis, ampliou a capacidade de diagnóstico, conectou pessoas e acelerou a produção de conhecimento. Na medicina, na educação, na Justiça e na gestão pública, a tecnologia pode ser uma ferramenta extraordinária de emancipação. Mas tecnologia, por si só, não é sinônimo de progresso. Progresso verdadeiro exige direção moral, compromisso público e inclusão social. O século XXI talvez seja lembrado como o tempo em que fomos capazes de produzir respostas sofisticadas para problemas complexos, mas continuamos falhando nos fundamentos. Ainda há crianças que aprendem com fome. Famílias que vivem sem água tratada. Pacientes que morrem esperando atendimento. Jovens que abandonam a escola não por falta de talento, mas por ausência de oportunidade. Mulheres que seguem expostas à violência. Populações inteiras invisibilizadas por sua origem, cor, território ou renda. Nenhum avanço tecnológico compensa a permanência dessas fraturas. A desigualdade é, hoje, o grande teste ético da modernidade. Ela transforma inovação em privilégio, conhecimento em barreira e desenvolvimento em promessa seletiva. Quando uma nova tecnologia chega apenas a quem já tem acesso, ela não corrige a injustiça: pode ampliá-la. Quando a inteligência artificial melhora serviços para poucos, enquanto milhões seguem sem direitos básicos, ela revela menos o futuro e mais a nossa incapacidade de enfrentar o presente. E, em um circulo vicioso, quanto mais disfuncional é uma sociedade na proteção dos direitos das pessoas, maior a probabilidade de que as tecnologias sejam desenvolvidas ou expressem resultados compatíveis com a discriminação praticada na realidade, aumentando a desigualdade, o preconceito e a vulnerabilidade das pessoas. O risco não é a tecnologia avançar demais; é a sociedade avançar de menos. Esse debate não pertence apenas aos laboratórios, às universidades, aos tribunais ou aos governos. Ele pertence à própria ideia de democracia. Uma sociedade democrática não se mede apenas pela velocidade com que inova, mas pela capacidade de distribuir dignidade. O direito, nesse sentido, não pode ser espectador do desenvolvimento tecnológico. Precisa ser guardião de seus limites, de sua finalidade e de sua função social. A ciência deve perguntar o que é possível fazer. O direito e a ética precisam perguntar para quem, com quais consequências e a serviço de que projeto de país. No Brasil, essa reflexão é ainda mais urgente. Somos um país de contrastes brutais: produzimos pesquisa de excelência, formamos profissionais brilhantes, temos universidades públicas que estão entre as maiores conquistas nacionais e um Sistema Único de Saúde que representa uma das experiências mais generosas de cidadania do mundo. Ao mesmo tempo, convivemos com desigualdades profundas no acesso à educação, à saúde, à Justiça, à segurança alimentar e à infraestrutura básica. O futuro não será construído apenas com cabos, chips, plataformas e dados. Ele dependerá da nossa capacidade de fazer com que esses instrumentos cheguem às pessoas que mais precisam. A tecnologia deve ser tratada como meio, não como um vazio no meio do progresso. Um prontuário eletrônico só é revolucionário se melhorar o cuidado do paciente. A inteligência artificial só é civilizatória se reduzir desigualdades, acelerar diagnósticos, qualificar decisões e ampliar acesso. A inovação jurídica só faz sentido se aproximar a Justiça do cidadão. A educação digital só será transformadora se incluir quem historicamente ficou fora da escola, da universidade e das oportunidades. Fora disso, o que chamamos de futuro pode ser apenas uma versão mais sofisticada das velhas exclusões. Também é preciso reconhecer que inclusão social não é favor, caridade ou agenda lateral. É infraestrutura de desenvolvimento. Países que negligenciam infância, educação, saúde pública, ciência e direitos fundamentais comprometem sua própria capacidade de inovar. Não há economia forte sobre uma sociedade doente. Não há democracia sólida sobre uma desigualdade crescente que vulnerabiliza grande parte da população. Não há soberania tecnológica sem soberania educacional, sanitária e científica. A verdadeira modernização começa quando o Estado, a universidade, o setor produtivo e a sociedade assumem que dignidade humana é o primeiro indicador de progresso. Essa é a essência inegociável de um Estado Democrático de Direito. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “até onde a tecnologia pode nos levar?”, mas “quem estamos deixando para trás enquanto avançamos?”. Essa pergunta deve orientar políticas públicas, decisões judiciais, investimentos privados, projetos acadêmicos e escolhas coletivas. Não basta sermos uma sociedade conectada. Precisamos ser uma sociedade mais justa e menos desigual. Não basta produzir inovação. É preciso produzir pertencimento. Para isso é necessário resistir à armadilha de delegar o raciocínio e a reflexão crítica às ferramentas tecnológicas em nome de alta performance e conforto. Os rumos das novas tecnologias devem seguir sendo conformados pela condição humana. Chega-se ai a um dos grandes dilemas éticos da sociedade tecnológica atual: tecnologias com capacidade de definir como vemos o mundo e até mesmo quem somos não podem ser considerada neutras ou amorais. A civilização não se define apenas por suas descobertas, mas pelo uso que faz delas. O progresso que vale a pena não é aquele que impressiona pelo brilho das máquinas, mas aquele que muda a vida das pessoas. Enquanto a tecnologia avançar sem reduzir a fome, a exclusão, a ignorância, a violência e a desigualdade, estaremos diante de um paradoxo: cada vez mais capazes tecnicamente, mas ainda insuficientemente humanos. O futuro não pode ser uma ilha para poucos. Precisa ser uma ponte para muitos. E essa ponte só será construída quando ciência, direito, educação, saúde e justiça social caminharem juntos. Porque uma sociedade só progride de verdade quando ninguém precisa ficar para trás para que outros possam chegar mais rápido. * Com Ana Elisa Bechara e Marisa Monte
Tecnologia sem inclusão não é progresso
Tecnologia, por si só, não é sinônimo de progresso. Progresso verdadeiro exige direção moral, compromisso público e inclusão social













