Há uma mudança repentina acontecendo nas universidades, e quase ninguém está falando dela com a honestidade necessária. Como professor universitário, posso afirmar com tranquilidade que o pior trabalho que recebo hoje é exatamente aquele que, em 2022, eu teria considerado excelente.PUBLICIDADEIsso parece absurdo, mas é a descrição literal do que está acontecendo. O aluno que copia a pergunta do exercício, cola no ChatGPT e me entrega a primeira resposta que aparece está produzindo um texto tecnicamente correto, razoavelmente bem escrito e com uma estrutura argumentativa decente.Quatro anos atrás, esse mesmo texto seria nota máxima na maioria dos cursos do país. Hoje, é o piso da turma, o trabalho que denuncia o esforço mínimo, o equivalente acadêmico de mandar um texto cheio de erros de português há quatro anos.A mesma dinâmica está se instalando no mercado de trabalho com uma velocidade que ainda não foi totalmente absorvida pelos gestores. Aquilo que antes demandava um analista júnior trabalhando dois dias agora pode sair com qualidade semelhante em três minutos a partir de um prompt razoável.Alunos recorrem cada vez mais ao ChatGPT para fazer trabalhos nas universidades Foto: Adria Vidal/Adobe StockO valor agregado por esse profissional, do ponto de vista econômico, agora está próximo de zero, porque qualquer pessoa com acesso à internet poderia ter produzido o mesmo.PublicidadeUm trabalho decente agora significa interagir com o modelo, brigar com ele, pedir para refazer, contestar afirmações que parecem genéricas demais, alimentar com dados específicos do contexto que ele não tem como saber. Um economista experiente percebe imediatamente quando o modelo está produzindo análise macroeconômica de manual em vez de pensar sobre o caso concreto. Um professor de medicina identifica quando a recomendação clínica ignora as particularidades do paciente. Um advogado vê quando a fundamentação jurisprudencial é superficial.Hoje, decorar é completamente inútil porque o modelo decora por você. Mas saber a fundo sobre o assunto, a ponto de reconhecer quando o modelo está incorreto ou simplista demais, virou a habilidade mais valiosa que existe. É um nível de domínio que só se constrói lendo livros inteiros, fazendo exercícios à mão, errando em problemas difíceis e aprendendo com a correção.Leia outras colunas de Alexandre ChiavegattoLição de mestre: a técnica que permite à inteligência artificial ensinar sua próxima versãoRichard Dawkins, o ateu mais famoso do mundo, acha que a inteligência artificial tem almaExiste uma ironia importante aqui: para usar bem algoritmos de linguagem, você precisa estudar como se eles não existissem.Os melhores alunos hoje usam IA o tempo todo, mas usam de um jeito que multiplica o esforço deles em vez de substituí-lo. Comparam respostas de modelos diferentes para detectar inconsistências. E tratam os LLMs como um colega inteligente, mas distraído, que precisa ser supervisionado e corrigido.PublicidadeQuem entrega a primeira resposta do modelo está entregando o trabalho de qualquer um, e qualquer um vale cada vez menos.
Opinião | ChatGPT é o mínimo: as novas expectativas do mercado de trabalho na era da IA
O que era excelente em 2022 virou o piso de qualidade em 2026












