A recente decisão da União Europeia de endurecer as exigências relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção animal abriu nova frente de pressão regulatória sobre o agronegócio brasileiro. Embora apresentada como medida sanitária voltada ao combate da resistência antimicrobiana, a iniciativa também possui forte componente político, regulatório e comercial, especialmente no contexto do acordo Mercosul–União Europeia, em vigor provisório desde 1º de maio.Os impactos econômicos potenciais são relevantes. Estimativas preliminares apontam riscos entre US$ 1,8 bilhão e US$ 2 bilhões em exportações brasileiras de carnes e produtos de origem animal para o mercado europeu, considerando dados de 2025. Mais do que números, trata-se de um indicativo claro de que o ambiente regulatório internacional se tornará cada vez mais rigoroso.O Brasil pode transformar a pressão regulatória em vetor de modernização, agregação de valor e fortalecimento de sua imagem internacional Foto: Wilton Junior/EstadãoPUBLICIDADETive a oportunidade de visitar a Irlanda em 2022 e pude perceber claramente a preocupação existente entre produtores rurais e entidades representativas locais com a possível entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia. Já naquele momento era evidente o receio de que a competitividade da agropecuária sul-americana — especialmente da carne brasileira — ampliasse a pressão econômica sobre produtores europeus.Esse aspecto demonstra que o debate sanitário e ambiental não pode ser dissociado do contexto geopolítico e econômico do comércio internacional de alimentos. Em muitos casos, exigências regulatórias acabam se sobrepondo a interesses comerciais, particularmente em setores sensíveis como a agropecuária.Naturalmente, o tema sanitário merece tratamento sério. A resistência antimicrobiana constitui preocupação global legítima e crescente, debatida há anos em fóruns científicos e organismos multilaterais. O uso inadequado de antibióticos precisa ser combatido com rigor técnico, supervisão veterinária e fortalecimento regulatório.PublicidadeAo mesmo tempo, seria ingenuidade ignorar o viés protecionista presente em parte desse debate europeu. A agropecuária brasileira alcançou elevado grau de competitividade internacional, sustentada por produtividade, ciência tropical, inovação e capacidade empresarial. O produto brasileiro chega ao mercado internacional com escala, eficiência e custos significativamente mais competitivos do que os observados em várias regiões europeias.Não por acaso, setores agropecuários europeus estiveram entre os principais opositores ao acordo Mercosul–União Europeia. A reação de entidades irlandesas após o anúncio das novas medidas reforça essa dimensão política e comercial.O Brasil, contudo, não deve interpretar o episódio apenas como disputa comercial. O desafio é mais amplo. O comércio internacional de alimentos passa por transformação estrutural, na qual rastreabilidade, biossegurança, bem-estar animal, sustentabilidade e uso racional de medicamentos veterinários se tornaram critérios centrais de acesso aos mercados mais sofisticados.A boa notícia é que o Brasil reúne condições favoráveis para responder de forma sólida e estratégica. O País possui uma das agropecuárias mais competitivas do mundo, apoiada em ciência tropical avançada, forte capacidade empresarial e instituições reconhecidas internacionalmente, como a Embrapa. Além disso, vários segmentos da pecuária nacional já avançaram significativamente na racionalização do uso de antimicrobianos.Leia tambémGeopolítica dos fertilizantes: caminhos para reduzir a vulnerabilidade do agro brasileiroUnião Europeia vai proibir a compra de carne e animais do Brasil a partir de setembroO principal desafio brasileiro talvez não seja apenas produzir adequadamente, mas comprovar adequadamente. A nova agenda internacional exige evidências robustas, rastreabilidade, transparência e capacidade de monitoramento em toda a cadeia produtiva. Isso demandará investimentos adicionais em certificação, integração de dados, fiscalização e compliance, elevando custos operacionais ao longo da cadeia.PublicidadePUBLICIDADEMas existe também uma oportunidade estratégica relevante. O Brasil pode transformar essa pressão regulatória em vetor de modernização, agregação de valor e fortalecimento de sua imagem internacional. Poucos países possuem condições de liderar uma pecuária tropical sustentável em larga escala.A resposta brasileira deve combinar diplomacia técnica, inteligência regulatória, credibilidade sanitária e inovação. O debate europeu sobre antimicrobianos não será episódico. Ele antecipa uma tendência global de ampliação das exigências sanitárias e ambientais no comércio de alimentos. Países capazes de se adaptar rapidamente conquistarão vantagens competitivas crescentes — e o Brasil reúne condições concretas para estar entre eles.
Opinião | Carne brasileira, Europa e antimicrobianos: entre a regulação sanitária e o protecionismo comercial
A resposta brasileira deve combinar diplomacia técnica, inteligência regulatória, credibilidade sanitária e inovação; países capazes de se adaptar rapidamente conquistarão vantagens competitivas














