A UE (União Europeia) anunciou um veto à importação de diversos produtos de origem animal do Brasil, incluindo carne bovina, aves, ovos, mel e produtos de aquicultura. O governo brasileiro diz ter recebido a decisão com surpresa. Mas ela não é surpresa alguma. E vamos explicar por quê.

Há muito tempo o Brasil acusa a UE de utilizar barreiras sanitárias, ambientais e regulatórias como formas de protecionismo disfarçado. A novidade não é o uso desses instrumentos. A novidade é o momento. Por que exatamente em maio de 2026? A resposta passa pelo acordo União Europeia-Mercosul.

O acordo é uma vitória dos negociadores europeus e do Mercosul. Apesar das críticas, ele representa um avanço diplomático e comercial após décadas de negociações marcadas por impasses políticos, resistência setorial e mudanças geopolíticas. Mas ele não inaugura uma era de cooperação comercial estável. Embora pareça contraintuitivo, sua entrada em vigor pode ser seguida por um aumento de medidas restritivas ao comércio no curto prazo.

Acordos comerciais produzem efeitos políticos intensos, já que alguns setores ganham muito e outros perdem muito. Isso torna o equilíbrio em torno do acordo inerentemente instável. Cientistas políticos argumentam há décadas que a abertura econômica só é politicamente viável quando acompanhada de mecanismos de compensação para grupos potencialmente prejudicados pela liberalização.