De acordo com o portal Ciberdúvidas, o provérbio popular “Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu” é enquadrado por José Alves Reis, em Provérbios e Ditos Populares (Lisboa, Litexa Editora, 1996), na categoria dos “Conselhos”, procurando alertar para as humilhações que poderão advir de solicitar favores ou trabalhar para alguém que, tendo conhecido no passado a pobreza, a dependência ou a subalternidade, ocupa hoje uma posição de segurança e superioridade social.Tendo por base este provérbio, a reflexão que vos trago surge de algumas entrevistas que vou vendo na televisão em que alguém com origens muito humildes as propala ao exagero, tendo-se conhecimento generalizado de que essa faceta do passado ficou mesmo lá atrás. O facto de se nascer num ambiente familiar de parcos recursos não faz de nós bonzinhos e tendenciosamente humanos, bem pelo contrário. Há quase uma espécie de leitura tácita de que “se eu penei para aqui chegar, tu também vais penar”. A este propósito e exemplificando, quando olho para trás e recordo algumas verdadeiras humilhações de alunos em sala de aula e já na faculdade, concluo que o problema não estava no estudante, mas em qualquer frustração antiga do adulto mais velho na sala, transformada em pedagogia agressiva e validada pela autoridade.Existe, aliás, uma romantização da pobreza passada, como se ter vindo “de baixo” atribuísse automaticamente um certificado ético de superioridade humana e santidade. A dificuldade económica tanto pode formar pessoas extraordinárias, como pode fabricar indivíduos ressentidos, obcecados pela necessidade de provar constantemente que venceram na vida e que, por isso mesmo, adquiriram uma espécie de legitimidade moral para olhar os outros de cima para baixo. Há quem nunca saia verdadeiramente do lugar onde se passam dificuldades, apenas trocam de ângulo, alimentando a necessidade permanente de mostrar ao mundo que agora pode escolher o vinho da carta sem olhar aos preços.
Nunca sirvas a quem serviu…
A dificuldade económica tanto pode formar pessoas extraordinárias, como pode fabricar indivíduos ressentidos, obcecados pela necessidade de provar constantemente que venceram na vida.















