A 28 de Fevereiro, os Estados Unidos e Israel iniciaram uma campanha militar no Irão que rapidamente se transformou num conflito regional, levando ao encerramento do estreito de Ormuz. Este bloqueio teve um forte impacto na economia mundial, já que cerca de 20% a 30% do petróleo e gás natural passam por essa via. Desde então, o debate público tem-se concentrado sobretudo nas acções dos governos iraniano, israelita e norte-americano, ignorando o papel do Governo português e tratando a crise como algo fora do nosso controlo. No entanto, a Base Aérea das Lajes, nos Açores, tem desempenhado um papel importante na campanha americano-israelita. Pela sua localização estratégica no Atlântico, funciona como ponto essencial de reabastecimento e apoio logístico para operações no Médio Oriente.Para percebermos a gravidade desta omissão, basta olhar para outros países europeus. Tanto o governo socialista de Espanha como o governo de direita em Itália deixaram claro que as suas bases militares não podem ser utilizadas para fins ofensivos sem mandato internacional ou garantias de proporcionalidade e protecção de civis. O Governo português, pelo contrário, limita-se a dizer que irá “avaliar a situação”, escondendo-se atrás de obrigações contratuais. Contudo, estes acordos foram assinados num contexto internacional diferente, baseado na previsibilidade estratégica e na racionalidade diplomática. A cooperação automática torna-se ainda mais problemática tendo em conta o envolvimento directo do governo israelita e as decisões de tribunais internacionais relativas à sua conduta.Este apoio não é apenas questionável do ponto de vista jurídico. Portugal tem sido consistentemente classificado como um dos países mais seguros do mundo, algo que usamos para atrair investimento e empresas estrangeiras. Quando o Governo tentou convencer empresas coreanas a fabricar automóveis em Portugal, um dos argumentos centrais foi precisamente a estabilidade geopolítica. Estas classificações não dependem apenas da criminalidade interna, mas também da posição militar e diplomática do país. Ser associado a operações ofensivas americano-israelitas e acusado de cumplicidade em crimes de guerra prejudica inevitavelmente a nossa imagem internacional. Não faz sentido afastarmo-nos da prudência demonstrada por outros parceiros europeus.