Nos últimos dias ocorreram os primeiros sinais públicos de negociações diplomáticas entre os EUA e o Irã desde que o país asiático foi atacado pelos EUA e por Israel em 28 de fevereiro. A imprensa israelense publicou supostos quinze pontos de proposta feita pelos EUA no dia 24 de março, notícia sucedida por diversas especulações e também notas públicas. Tais negociações, entretanto, são reais ou mera trama para os EUA poderem ganhar tempo?Os quinze pontos publicados pela imprensa israelense teriam sido respondidos com uma contraoferta iraniana em cinco itens dias depois. Também nessa última semana, o Paquistão começou a desempenhar papel mediador. O primeiro-ministro do país falou ao telefone com o presidente iraniano, enquanto o marechal Asim Munir, atual homem-forte paquistanês, conversou com Donald Trump. Guerra no Irã teve início em 28 de fevereiro deste ano, após um ataque conjunto de Israel e EUA Foto: Vahid Salemi/APPUBLICIDADENo dia 31, foi publicada uma nota conjunta sino-paquistanesa com cinco princípios de negociação, o primeiro sinal público que confirma tais negociações. Hoje, um acordo parece a saída menos desastrosa para o conflito iniciado no dia 28 de fevereiro. O ministro de Relações Exteriores do Omã, Badr bin Hamad al-Busaidi, já afirmou publicamente que um acordo com o Irã não apenas era possível, mas caminhava bem naquela ocasião. Ele insinuou que Israel decidiu atacar o Irã, arrastando os EUA consigo, justamente para minar tais conversas. A expectativa naquele momento em Tel-Aviv e em Washington era a de realizar um ataque de decapitação, que causaria caos e fomentaria novos protestos populares, com o fim ou enfraquecimento da república islâmica. Tais expectativas infantis contrariavam as principais análises sobre um conflito, como comentamos duas semanas atrás. As mesmas análises que previam um conflito longo e custoso para a economia mundial se confirmaram. Após mais de um mês de intensa destruição, prejuízos, mortes, crimes de guerra e milhões de civis deslocados internamente no Irã, a fadiga de guerra se impõe para muitos dos atores envolvidos. Ao menos, para certos setores. Quais os desafios de um eventual acordo, então? PublicidadePrimeiro, seria necessário um acordo em que todos possam cantar de galo e clamarem vitória. O governo dos EUA se vangloriando da destruição e da morte de Ali Khamenei, o governo de Israel de que teria feito o “serviço sujo” contra uma suposta ameaça existencial à Israel, e o governo iraniano de que resistiu aos ataques e deteve Israel e EUA. Essa, na realidade, é a parte quase fácil, já que se trata de mero discurso. Veja maisTrump diz que presidente do Irã pediu cessar-fogo e impõe condição: ‘Até lá, vamos bombardear’B-52: como é o bombardeiro usado no Irã e considerado a arma mais mortal dos EUAIsrael e Irã mantêm ataques enquanto Trump prepara discurso sobre a guerraAté hoje nos EUA existem adeptos do discurso de que seu país não perdeu a guerra do Vietnã, por exemplo, já que não houve derrota militar expressiva, apesar da derrota estratégica flagrante. Difícil mesmo será conciliar outros pontos na negociação. O Irã exige reparações pela destruição, que as negociações envolvam “todos os fronts” na região e um arcabouço jurídico sobre o Estreito de Ormuz. Trump jamais vai aceitar pagar reparações. Netanyahu não quer uma posição negociada no Líbano, onde o exército israelense prepara uma ocupação duradoura ao sul do rio Litani, nas palavras do ministro da Defesa. As monarquias árabes do Golfo desconfiam de qualquer negociação sobre o estreito com o Irã neste momento. Daí chega-se ao Paquistão como intermediador. O Paquistão é aliado dos sauditas, que desejam um fim da guerra por sua própria agenda regional, e dos chineses, que também desejam um fim do conflito por seus interesses econômicos e enxergam uma oportunidade de negociar uma paz regional em pé de igualdade com os EUA. A intermediação paquistanesa é, na realidade, uma proposta chinesa endossada pelos sauditas. A questão é que, enquanto supostamente negocia, os EUA estão enviando cada vez mais tropas para a região, incluindo um novo porta-aviões. Trump disse que “teremos que nos impor a eles, o que temos o direito de fazer”, indicando uma possível ação contra as ilhas do Golfo, como sinalizado em nossa coluna de duas semanas atrás e com profundas implicações em ano eleitoral nos EUA. PublicidadeTambém já é possível especular que os Emirados Árabes Unidos podem se juntar à uma ação militar no Golfo contra o Irã, tanto em represália pelas ações iranianas mas também por suas relações com Israel e por seus interesses, inclusive territoriais, como na ilha de Abu Musa. O cenário atual remete ao pré-guerra, em que negociações eram realizadas de má-fé em meio ao acúmulo de meios militares pelos EUA na região. Espera-se que isso mude e encerrem essa guerra de escolha, que beneficiou alguns poucos e prejudica bilhões pelo mundo, inclusive o leitor.
Opinião | Negociações reais ou trama para ganhar tempo no Oriente Médio?
Após mais de um mês de intensa destruição, mortes, crimes de guerra e milhões de civis deslocados no Irã, a fadiga de guerra se impõe para muitos dos atores envolvidos











