Ex-banqueiro disse à PF que a prática é 'mais do que normal'; para investigadores atuação foge ao padrão 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, afirmou, em depoimento à Polícia Federal (PF) realizado em 28 de agosto, que servidores do Banco Central revisavam minutas de operações da instituição financeira. À PF, o empresário afirmou que esse tipo de relação — adotada com Paulo Sérgio Neves e Belline Santana, ambos chefes do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) do BC — era “extremamente natural”. Segundo Vorcaro, “todos os negócios” feitos pelo Master foram compartilhados antes com o Banco Central, inclusive a operação com o Banco de Brasília (BRB), para evitar eventual “puxão de orelha”. “Eu mandava antes as minutas que a gente iria mandar para ver se havia algum ponto que o Banco Central entendia que não fosse pertinente”, disse o ex-banqueiro à PF, reforçando que ser “uma prática mais do que normal”. “Eu fiz isso com todas as áreas do Banco Central, de um modo ativo e zeloso para que eu fizesse as coisas da melhor maneira possível”, acrescentou Vorcaro ao delegado. Os vídeos foram disponibilizados com a quebra de sigilo dos processos após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) neste fim de semana. Segundo o investigador, as mensagens de Vorcaro com Neves e Belline indicam uma atuação dos servidores “muito mais de um gerente, de um CEO do banco, do que propriamente de um fiscal”. As conversas, de novembro de 2024, mostram que Paulo Sérgio sugere alterações em um documento enviado por Vorcaro. O banqueiro envia uma nova versão e pergunta se “está ok”. O diretor da Desup responde: “Está ótimo. Vamos em frente!”. Pelo vídeo divulgado, não é possível saber o teor. Na audiência, o delegado também questiona uma mensagem que Vorcaro recebeu de Belline naquele mesmo mês, na qual ele afirma que precisa falar sobre a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Vorcaro diz que existia uma “interação da CVM com o Banco Central para compartilhamento de informações” e que “o Banco Central sempre teve e quis ter conhecimento amplo e holístico de tudo o que estava acontecendo”. Outras mensagens também indicam orientação de Neves a Vorcaro na operação com o Voiter e o Let’s Bank e o que banqueiro deveria ressaltar na reunião com o presidente do BC. O banqueiro negou que essa consultoria teria ajudado a postergar a liquidação do Banco Master, mas que “tentava, perante todo o Banco Central, construir caminhos que evitassem que a situação se deteriorasse”. E que havia uma “atuação institucional” dos servidores do órgão para “encontrar a solução de menor custo” a fim de que não se “criasse um prejuízo no mercado”. Serviços de concierge na Disney Vorcaro ainda confirmou que ofereceu serviços de concierge para Neves quando este viajou com sua família à Disney, nos Estados Unidos, e quando Belline foi para a Europa com familiares. Belline, no entanto, segundo o banqueiro, não teria utilizado os serviços, que já estavam dentro da estrutura de marketing do Master, que chegou a ter orçamento de R$ 500 milhões em um ano. “Foi um agrado dentro de uma estrutura que eu já possuía ali para dezenas de pessoas”, disse. A defesa de Belline afirmou, em nota à imprensa, que o servidor não aceitou qualquer viagem ou serviços de concierge oferecidos por Vorcaro e que as conversas de WhatApp atribuídas ao seu cliente são uma “interpretação acusatória”, pois “é obrigação legal e regulatória discutir com as instituições financeiras supervisionadas as questões relacionadas ao seu modelo de negócio”. Por isso, as conversas “inserem-se no regular exercício de sua atividade funcional e não podem ser interpretadas, isoladamente ou a partir de trechos selecionados, como indicativas de favorecimento ou de qualquer atuação irregular”. Reag Durante o depoimento, Vorcaro também foi questionado sobre a atuação de Neves e Santana nas fiscalizações envolvendo as carteiras da Cartos e da Tirrena e os fundos ligados à Reag. O ex-banqueiro afirmou que os dois servidores, assim como outros técnicos do BC, também ajudaram a tirar dúvidas dessas operações, indicando pontos que precisavam ser modificados, interação que ele entende como “natural” do trabalho de fiscalização. De acordo com ele, a atuação do BC no Master era “quase que diária” e se intensificou no período final de funcionamento do banco. Perguntado se reconhecia que as carteiras da Cartos e da Tirrena haviam sido fraudadas, Vorcaro disse que o tema era “complexo”. Ele admitiu, porém, que foram encontrados ativos com problemas ao longo das operações do Master, mas que a situação foi “100% solucionada” durante o processo de tentativa de fusão entre Master e BRB. Nesse contexto, Vorcaro afirma que, à medida que o Master solucionava os pontos levantados pelo BC para a aprovação da operação com o BRB, a liquidação do banco não era encarada como possibilidade e sim a última alternativa. O ex-banqueiro disse que a operação era “extremamente viável” no início de 2025, tanto pelas sinalizações dos diretores do BC como pelas notas técnicas da autoridade monetária, que apontavam os benefícios da operação para o mercado. Liquidação do Master Ao ser questionado se Neves, do BC, indicava que a solução para o Master seria a liquidação, Vorcaro afirma que não sabia qual era a avaliação individual do técnico, mas que a posição da diretoria, incluindo Gabriel Galípolo, presidente da instituição, e Ailton de Aquino, responsável pela área de fiscalização, era de que a operação seria aprovada. “Todas as reuniões que participamos eram no sentido de solucionar pontos do pleito para que [a fusão] fosse aprovada. Até o final acreditamos que seria”, disse. Ainda de acordo com o ex-banqueiro, as tratativas sobre a operação entre Master e BRB passaram a ocorrer diretamente com a diretoria do BC. Além de Galípolo e Ailton, Vorcaro cita Renato Gomes, que estava à frente da Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução e a quem classificou como “uma peça fundamental e chave para o processo do BRB”. Após a negativa da operação, em 3 de setembro de 2025, Vorcaro afirma ter viajado três ou quatro vezes aos Emirados Árabes em busca de uma solução com investidores privados, para evitar “toda a tensão midiática que gerou o tema do BRB”. Vorcaro diz que só percebeu que o Master seria liquidado quando foi preso, em 17 de novembro do ano passado. Na manhã daquele dia, segundo ele, havia avisado ao Banco Central que conseguira uma solução para o Master e que já estava protocolando o primeiro contrato. Também disse ter informado à autoridade monetária que viajaria naquela noite e que apresentaria, nos dois dias seguintes, outros dois contratos para concluir a venda do Master. “O problema que foi gerado foi em função do ataque midiático, então eu tratei de maneira sigilosa”, afirma. Na sequência, Vorcaro diz ter “passado por um terror, por algo desumano”, mas que ainda tem “a esperança e a confiança que a verdade um dia vai aparecer”. As defesas de Daniel Vorcaro e Paulo Sérgio Neves foram procuradas, mas ainda não se manifestaram. Sede do Banco Central (BC) em Brasília — Foto: Ton Molina/Bloomberg