Investigadores encontraram registros de geração automatizada e assinatura em lote de documentos, retirada de datas e tentativas de alterar comprovantes de transferências, 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Plano do Master era ser comprado pelo BRB — Foto: Julia Aguiar/Agência O Globo Uma investigação interna realizada no Banco Master identificou a produção “industrial” de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), procurações e termos de consentimento que, segundo a Polícia Federal (PF), teriam sido utilizados para comprovar ao Banco de Brasília (BRB) a existência de créditos atribuídos à Tirreno. Os investigadores encontraram registros de geração automatizada e assinatura em lote de documentos, retirada de datas e tentativas de alterar comprovantes de transferências, mostram os documentos. As informações constam de um relatório da PF de março deste ano que analisa uma apresentação encontrada no acervo eletrônico do Master e que se tornaram públicos. O arquivo, chamado “Investigações internas – Banco Master”, reúne registros de uma apuração sobre a atuação de funcionários da instituição entre junho e outubro de 2025. Os metadados apontaram uma ex-funcionária como possível autora do material, mas a própria PF ressalva que isso não comprova que ela tenha produzido o conteúdo. A Tirreno aparece formalmente nas operações como a empresa que teria originado créditos consignados comprados pelo Master e posteriormente cedidos ao BRB. A PF, no entanto, sustenta que a empresa era ligada à Sociedade de Crédito Direto Cartos e teria sido utilizada para atribuir uma origem formal às carteiras. O Banco Central encontrou inconsistências nos documentos desses créditos, que passaram a ser investigados quanto à existência e à regularidade de sua formalização. Segundo o relatório, o processo começava com a extração de dados de clientes do Credcesta e avançava para a produção automatizada de CCBs e outros documentos. Em uma conversa entre funcionários da área de tecnologia, a própria consistência da base usada no processo é questionada. Ao analisar uma lista, um funcionário afirma: “ta [sic] meio furado essa lista ai [sic]”. Um dos elementos usados pela PF para relacionar a produção dos documentos às operações com o BRB é uma pasta denominada “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”. Segundo os investigadores, 2,7 mil procurações estavam sendo geradas automaticamente por meio do recurso de mala direta do Microsoft Word. Na mesma estrutura apareciam arquivos de CCBs e termos de assinatura. Três dias depois de um dos registros analisados, em 23 de junho de 2025, André Seixas Maia, identificado nos registros oficiais como responsável pela Tirreno, enviou ao BRB um link com documentos referentes a 1.785 contratos. Para cada contrato havia uma CCB, uma procuração e um termo. A PF afirma que a combinação dos documentos e a proximidade das datas indicam que o material enviado ao banco público pode ter sido produzido naquele processo. “A compatibilidade entre os arquivos e datas indica que possivelmente se tratam [sic] dos mesmos arquivos”, afirma o relatório. A investigação identificou ainda outras pastas chamadas “Demanda BRB-Tirreno 119 amostras” e “Demanda BRB-Tirreno 299 amostras”. Para a PF, a existência desses diretórios indica que o mesmo procedimento pode ter sido usado em outros conjuntos de documentos encaminhados ao BRB para comprovar créditos atribuídos à Tirreno. Os documentos também eram assinados em lote. Em uma das etapas descritas na apresentação, 2,7 mil CCBs foram divididas entre quatro funcionários, com 675 documentos para cada um. Em um dos arquivos examinados, a data indicada no documento era 21 de janeiro de 2025, enquanto a assinatura eletrônica havia sido feita em 20 de junho. A PF encontrou ainda registros de retirada de datas dos termos de consentimento. O relatório afirma que o campo com data e hora da formalização foi “deliberadamente suprimido”. Ao comparar esse padrão com documentos que já haviam sido enviados ao BRB, os investigadores encontraram termos em que essa informação também não aparecia. Outra conversa analisada pela PF trata de comprovantes de transferências. Em 25 de junho, Allan Machado pede à funcionária da tesouraria Romy Klenquen que determinadas informações não apareçam nos documentos. “nao [sic] da para aparecer o evento”, escreve. Diante de uma das alternativas apresentadas por Romy, Allan responde: “porra… este aparece o numero [sic] de contrato. nao [sic] quero o numero [sic] de contrato nem o histórico”. O funcionário diz que poderia ajustar um ou outro comprovante, mas afirma ser “impossivel [sic] em 2700 comprovantes”. Allan responde: “tem q [sic] dar um jeito”. Segundo a PF, a conversa indica uma tentativa de suprimir dos comprovantes informações como evento, número do contrato e histórico. O relatório atribui a Alberto Félix de Oliveira Neto, então executivo do Master, papel de supervisão sobre parte do processo. Em 18 de junho, um funcionário pergunta se poderia enviar à Deloitte a base dos contratos das carteiras da Tirreno entre dezembro de 2024 e março de 2025 e informa que havia ocorrido um erro na base. “Lá atrás a orientação foi pra enviar e enviamos, porém deu um erro na base e vou ter que corrigir, se precisar, já retiro esses antes de eles separarem a amostragem”, diz a mensagem reproduzida pela PF. Alguns dias depois, diante de uma cobrança da auditoria, Félix orienta: “esse tem que falar que foi erro operacional na selecao [sic]”. Segundo a PF, a orientação foi seguida na resposta encaminhada à Deloitte. A apresentação interna aponta Félix como um dos supervisores da operação e afirma que ele tinha autoridade sobre as respostas dadas à auditoria externa. Em outra conversa reproduzida no documento, em um grupo do Microsoft Teams chamado “Cúpula do Almoço”, um interlocutor não identificado escreve: “a gente já cedeu 90% da carteira do consig pro brb [sic]”. Thomas Henrique Gomes responde: “pede devolução kkkkkkkkk”. Para a PF, a troca reforça que a investigação interna tratava das cessões de crédito consignado ao BRB. Em nota, o BRB frisou que “a divulgação dos autos (…) é uma oportunidade para todos conhecerem o que aconteceu com a instituição, vítima de atos criminosos, e as medidas adotadas pela nova gestão”. 13/09/2026 09:47:36