Colher uvas entre o pôr do sol e o nascer do sol oferece vantagens técnicas significativas para a qualidade do vinho e a sustentabilidade da vinícola 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Trabalhadores da vinícola Herdade das Servas usam lanternas de cabeça durante uma colheita noturna de uvas em Estremoz — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP Equipados com lanternas de cabeça e tesouras de poda, uma equipe de trabalhadores rurais atravessa a escuridão total durante uma colheita noturna de uvas, uma prática que os protege do calor cada vez mais sufocante do verão português. — À noite, é muito mais fresco e, com essa luz, conseguimos enxergar melhor os cachos de uva — disse Maria Jeronima Mendes, de 70 anos, em uma propriedade rural cercada por videiras exuberantes. As mudanças climáticas estão intensificando e prolongando os períodos de calor extremo e seca em toda a Europa. O monitor climático da União Europeia informou na quinta-feira que a Europa Ocidental enfrentou o verão mais quente já registrado, enquanto agosto foi o mês isolado mais quente já registrado no mundo. O calor tem obrigado os países do sul do continente, incluindo Portugal, Espanha, Itália e Grécia, a adaptar suas práticas de produção de vinho. Paisagem dos vinhedos da Herdade das Servas antes de uma colheita noturna de uvas em Estremoz — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP Na Herdade das Servas, uma propriedade de cerca de 350 hectares localizada aproximadamente 150 quilômetros a leste de Lisboa, a colheita noturna de uvas foi adotada integralmente no ano passado, após um teste bem-sucedido em 2024. No início, a mudança enfrentou a resistência dos cerca de 20 trabalhadores da propriedade, vindos de Portugal, da Romênia e do Sudeste Asiático, em um setor que já enfrenta dificuldades para contratar mão de obra. Mas os trabalhadores já se acostumaram a trabalhar à noite, em temperaturas mais amenas, o que torna o trabalho manual mais suportável. — Trabalhar à noite não é mais cansativo, é apenas uma questão de hábito — disse Maria Jeronima, que trabalha no campo desde os 12 anos e é a integrante mais velha da equipe. Colher uvas entre o pôr do sol e o nascer do sol oferece vantagens técnicas significativas para a qualidade do vinho e a sustentabilidade da vinícola — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP Sob um céu límpido, iluminado apenas pelas estrelas e pela Lua, ainda fazia 28 °C à meia-noite na propriedade, localizada na região do Alentejo, no sul de Portugal. Mas a temperatura era muito mais baixa do que o pico de 40 °C registrado durante o dia, com temperaturas tão altas que também vêm avançando para setembro, além de castigarem o país durante os meses de verão. As colheitas noturnas “se tornaram uma necessidade” para poupar os trabalhadores de “temperaturas superiores a 40 graus”, disse Renato Neves, diretor de produção da Herdade das Servas. Resposta às mudanças climáticas Assim como em outras regiões da Europa atingidas por um verão excepcionalmente quente e seco, a colheita de uvas no Alentejo começou no início de agosto — duas semanas antes do habitual. A colheita noturna é uma técnica estratégica de vinificação adotada principalmente em regiões de clima muito quente, como o Alentejo ou o Douro, onde as temperaturas diurnas de verão podem ultrapassar os 40°C — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP As novas condições de trabalho também oferecem uma vantagem para o processo de produção de vinho na propriedade, que produziu cerca de 277 mil litros de vinhos tintos, brancos e rosés em 2025. “À noite, as uvas chegam mais frescas, o que retarda o início da fermentação”, possibilitando “obter uma melhor decantação” e uma melhor “extração dos aromas”, explicou Neves. Além de adaptar o horário de trabalho, a propriedade de Neves deixou de retirar as ervas daninhas que crescem na base das videiras, numa tentativa de preservar a umidade do solo e combater as condições cada vez mais quentes e secas. Ao amanhecer, os trabalhadores deixam as videiras, e a colheita é levada para os tanques, onde as uvas são lavadas e selecionadas antes de serem esmagadas. — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP Ao amanhecer, os trabalhadores deixam as videiras, e a colheita é levada para os tanques, onde as uvas são lavadas e selecionadas antes de serem esmagadas. A colheita noturna oferece ainda outra vantagem, pois a adega funciona em plena capacidade durante o dia, quando os painéis solares da propriedade estão em seu período de maior produtividade. A disseminação da colheita noturna em vários países europeus “é uma resposta às mudanças climáticas e, nos climas mediterrâneos, acredito que essa prática veio para ficar”, afirmou o enólogo Rui Reguinga. Para fugir do calor, trabalhadores se dedicam a colheita noturna das uvas em Portugal 1 de 10 Trabalhadora da vinícola Herdade das Servas utiliza uma lanterna de cabeça durante a colheita noturna de uvas em Estremoz, — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP 2 de 10 Trabalhador com lanterna presa à cabeça recolhe as uvas durante colheita noturna em Estremoz — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 Um balde cheio de uvas recém-colhidas é visto durante a colheita noturna de uvas da vinícola Herdade das Servas em Estremoz — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP 4 de 10 Uvas são processadas na vinícola Herdade das Servas após a colheita noturna em Estremoz, Portugal — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP X de 10 Publicidade 5 de 10 Terminada a colheita noturna, as uvas são processadas — Foto: Patricia de Melo Moreita/AFP 6 de 10 Ao amanhecer, os trabalhadores deixam as videiras, e a colheita é levada para os tanques, onde as uvas são lavadas e selecionadas antes de serem esmagadas — Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP X de 10 Publicidade 7 de 10 Após a colheita noturna, os trabalhadores continuam o trabalho noite a dentro processando as uvas — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP 8 de 10 À noite, as uvas chegam mais frescas, o que retarda o início da fermentação, explica Renato Neves, diretor de produção da Herdade das Servas — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP X de 10 Publicidade 9 de 10 Ao amanhecer, os trabalhadores deixam as videiras, e a colheita é levada para os tanques, onde as uvas são lavadas e selecionadas antes de serem esmagadas — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP 10 de 10 As colheitas noturnas “se tornaram uma necessidade” para poupar os trabalhadores de temperaturas superiores a 40 graus — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP X de 10 Publicidade Colheita noturna é uma técnica estratégica de vinificação adotada principalmente em regiões de clima muito quente, como o Alentejo ou o Douro, onde as temperaturas diurnas de verão podem ultrapassar 40°C O especialista em vinhos acredita que o novo método representa “mais um passo na transição para uma viticultura mais sustentável”. Uma folha de videira é vista durante a colheita noturna de uvas da vinícola Herdade das Servas em Estremoz, Portugal — Foto: Patricia de Melo Moreira/AFP Mas o também enólogo Tiago Macena, especialista em variedades de uvas nativas de Portugal, afirmou que a adaptação tem seus limites, pois exige uma organização específica e uma mão de obra preparada para trabalhar à noite. Por enquanto, a prática está “limitada às grandes propriedades vinícolas”, características do sul do país, mas ainda não conquistou espaço entre os pequenos produtores do norte, disse ele.