Primeiro prefeito muçulmano da cidade, Zohran Mamdani enfrenta críticas de conservadores e familiares de vítimas enquanto participa de homenagens 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani (ao centro), no Memorial Nacional do 11 de Setembro, no sul de Manhattan, na manhã de sexta-feira, 11 de setembro de 2026 — Foto: Hiroko Masuike / The New York Times Três dias antes do 25º aniversário do 11 de Setembro, políticos conservadores se reuniram com familiares de vítimas nos degraus da Prefeitura de Nova York para reiterar a exigência de que o prefeito Zohran Mamdani não participasse, na sexta-feira, da cerimônia oficial em memória da tragédia. Mas, na verdade, Mamdani vem marcando a data há semanas. Ele se reuniu com bombeiros em quartéis que sofreram perdas graves naquele dia, incluindo o Ladder 118, no Brooklyn, e o Engine 24 e o Ladder 5, no SoHo. Também foi ao Hospital Bellevue para conversar com sobreviventes dos ataques, familiares de vítimas e pacientes que sofrem com problemas de saúde persistentes relacionados ao episódio. Na semana passada, ele publicou decretos executivos que homenageiam formalmente as vítimas e seus familiares e dão mais poderes às agências municipais para responder a emergências repentinas. Na terça-feira, divulgou uma grande quantidade de documentos sobre a qualidade do ar nas proximidades do Marco Zero nos meses que se seguiram aos ataques. E, quando a cerimônia de homenagem começou nesta sexta-feira, Mamdani tomou seu lugar ao lado da governadora Kathy Hochul; de seu marido, William Hochul; da governadora de Nova Jersey, Mikie Sherrill; e do ex-governador de Nova York George E. Pataki, que havia pedido que o prefeito não comparecesse à cerimônia. Eles ouviram solenemente enquanto familiares liam os nomes de mais de 3 mil entes queridos que morreram nos ataques em Nova York, no Pentágono e em um campo em Shanksville, na Pensilvânia. Antes do início da cerimônia, Mamdani apertou a mão de Rudolph W. Giuliani, ex-prefeito que tem criticado Mamdani e disse que sua presença no memorial “o ofende”. Mamdani também conversou com o ex-prefeito Bill de Blasio e com Hochul. O vice-presidente americano, JD Vance, que também criticou o prefeito, estava a poucos metros de distância. Islamofobia Como primeiro prefeito muçulmano de Nova York, Mamdani foi obrigado a lidar com uma dinâmica delicada. Ele precisa falar sobre o 11 de Setembro como principal autoridade eleita da cidade, mas também como integrante de um grupo religioso que enfrenta hostilidade e desconfiança desde os ataques e que continua sendo alvo de vilificação por setores de direita do Partido Republicano. — Já se passaram 25 anos e acho que os Estados Unidos passaram a ter uma compreensão melhor dos muçulmanos. E passaram a aceitar muçulmanos ocupando posições de poder e cargos eletivos, sem vê-los como esse bicho-papão — afirma Husein Yatabarry, diretor-executivo da Muslim Community Network. — Mas há uma ansiedade da direita em trazer de volta aquele nível de islamofobia contra muçulmanos proeminentes na vida política ou até mesmo na vida cotidiana. Mamdani viveu isso na pele. Durante o Ramadã, em março, o senador Tommy Tuberville, republicano do Alabama, republicou nas redes sociais imagens lado a lado do jantar de iftar do prefeito e das Torres Gêmeas em chamas, acrescentando a legenda: “O inimigo está dentro dos portões”. Em Nova York, Bruce Blakeman, executivo do condado de Nassau e candidato republicano ao governo estadual que perdeu um sobrinho no 11 de Setembro, chamou o prefeito de “antiamericano”. — Ele compartilha a filosofia das pessoas que assassinaram meu sobrinho e todas aquelas outras pessoas — disse Blakeman em entrevista. Nas últimas semanas, familiares de pessoas que morreram nos ataques divulgaram uma petição no Change.org argumentando que a presença do prefeito desviaria a atenção do caráter solene do evento. Até agora, a petição reuniu mais de 96 mil assinaturas. Esse desconforto ficou evidente na quarta-feira no quartel de bombeiros do SoHo, onde 11 bombeiros morreram em 11 de Setembro. Craig Monahan, bombeiro aposentado de 60 anos que respondeu aos ataques no Marco Zero, não estava presente quando Mamdani fez a visita, mas disse que ele e familiares dos bombeiros mortos “não o queriam aqui”. Foco nas vítimas Mamdani, que recusou um pedido de entrevista para esta reportagem, tentou manter o foco do 25º aniversário nos sobreviventes, nos familiares das vítimas e nos profissionais de saúde que atenderam os atingidos pelos ataques. — O 25º aniversário do ataque terrorista de 11 de Setembro não é sobre políticos — ressalta Anna Bahr, porta-voz do prefeito. Os assessores de Mamdani planejaram cuidadosamente as aparições do prefeito relacionadas ao 11 de Setembro, mas afirmaram que a ideia de manter o foco longe de si mesmo partiu dele. Segundo os assessores, ele queria evitar a distração de ter de responder constantemente a críticos como Giuliani. As visitas do prefeito aos quartéis de bombeiros foram breves, durando cerca de 30 minutos. Segundo uma pessoa que acompanhou Mamdani em várias ocasiões, o prefeito normalmente não falou muito. Em vez disso, pareceu mais interessado em ouvir as experiências dos profissionais de resgate e dos sobreviventes. Em um evento na quarta-feira, no qual o prefeito se juntou a voluntários para preparar refeições como parte de um dia de serviço em homenagem ao 11 de Setembro, Mamdani chamou os ataques terroristas de dia mais sombrio da história da cidade, mas também de um dia em que “vimos milhares de nova-iorquinos nos mostrarem o que significa amar nossa cidade”. Poucas horas depois, durante a inauguração, pelo Departamento de Polícia de Nova York, de um memorial em homenagem às vítimas do 11 de Setembro, o prefeito contou a história de John William Perry, um policial que estava na sede da polícia em Lower Manhattan, dando entrada em sua aposentadoria naquele dia. Após saber dos ataques, ele pediu de volta seu distintivo e correu para o local, onde morreu enquanto tentava resgatar outras pessoas. — Cada policial presente naquele dia personificou o lema do NYPD (Departamento de Polícia de Nova York) de que o dever de proteger não é um trabalho do qual alguém simplesmente bate o ponto de saída, mas um chamado ao qual se responde até o fim — disse o prefeito durante a cerimônia. Na sexta-feira, Mamdani também participou de uma cerimônia do Corpo de Bombeiros de Nova York em que foram depositadas coroas de flores e estava programado para participar de um culto inter-religioso na Igreja Ortodoxa Grega de São Nicolau, perto do Marco Zero. Segundo seus assessores, ele pretende permanecer no memorial até que todos os nomes sejam lidos. O prefeito também divulgará um vídeo no qual afirma que o aniversário representa uma “obrigação sagrada” de homenagear aqueles que “nos foram roubados”, cuidando uns dos outros. Pressão sobre Mamdani Não é incomum que o prefeito de Nova York participe de uma série de eventos em memória do 11 de Setembro. Giuliani chegou a participar de até cinco funerais por dia no período imediatamente posterior aos ataques e fez visitas frequentes ao Marco Zero. Seu sucessor, Michael R. Bloomberg, supervisionou a reconstrução de Lower Manhattan e ajudou a desenvolver o local que se tornou o Memorial e Museu do 11 de Setembro. Em 2020, de Blasio homenageou as vítimas em meio às mortes generalizadas provocadas pela pandemia de Covid-19. Abalos dos ataques do 11 de Setembro foram sentidos em escala global: veja alguns momentos cruciais Mas, para Mamdani, as identidades de jovem prefeito e muçulmano acrescentaram uma camada de pressão e escrutínio. Ele tinha 9 anos quando os ataques ocorreram e vivia nos EUA havia dois anos, depois de se mudar com a família de Uganda. Ele já chamou a data de uma tragédia horrível para todos os americanos e de um momento em que um muçulmano como ele foi oficialmente marcado como um “outro”. Homenagens às vítimas do 11 de Setembro 1 de 18 Membros dos departamentos de polícia e de bombeiros de Nova York hasteiam uma bandeira dos EUA durante a cerimônia às vítimas dos ataques de 11 de setembro de 2001 — Foto: Olga Fedorova / POOL / AFP 2 de 18 A ex-primeira-dama Michelle Obama e o ex-presidente dos EUA Barack Obama participam da cerimônia nos 25 anos dos ataques de 11 de setembro de 2001 no Memorial Nacional do 11 de Setembro, em Nova York — Foto: ANGELA WEISS / AFP X de 18 Publicidade 18 fotos 3 de 18 Uma pessoa ergue a imagem de um ente querido perdido durante o atentado de 11 de Setembro — Foto: Spencer Platt / POOL / AFP 4 de 18 Pessoas erguem fotos de vítimas no Memorial Nacional do 11 de Setembro, em Nova York — Foto: ANGELA WEISS / AFP X de 18 Publicidade 5 de 18 Pessoas visitam memorial durante uma cerimônia em alusão ao 25º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro ao World Trade Center, no Memorial e Museu Nacionais do 11 de Setembro — Foto: SPENCER PLATT / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP 6 de 18 O presidente dos EUA, Donald Trump, e a primeira-dama Melania Trump perfilam-se para o hino nacional durante uma cerimônia em alusão ao 25º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro — Foto: Finn Gomez / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP X de 18 Publicidade 7 de 18 O CEO da associação de ex-membros do Congresso Pete Weichlein (E), Jane Harman (ex-membro, D-CA) (C) e Charlie Dent (ex-membro, R-PA) (2º à dir.) ouvem Tim Roemer (ex-membro, D-IN) falar durante um culto memorial do 11 de Setembro de ex-membros do Congresso no Capitólio, em 11 de setembro de 2026 — Foto: ROBERTO SCHMIDTGETTY/ IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP 8 de 18 Ex-membros do Congresso e outros convidados participam de um culto memorial do 11 de Setembro de ex-membros do Congresso no Capitólio, em 11 de setembro de 2026 — Foto: ROBERTO SCHMIDT / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP X de 18 Publicidade 9 de 18 Pessoas fazem um decalque em relevo no memorial durante uma cerimônia em alusão ao 25º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro ao World Trade Center, no Memorial e Museu Nacionais do 11 de Setembro, em 11 de setembro de 2026, na cidade de Nova York — Foto: SPENCER PLATT / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP 10 de 18 Pessoas ouvem o hino nacional dos EUA no Memorial Nacional do 11 de Setembro durante o 25º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 — Foto: ADAM GRAY/ POOL / AFP X de 18 Publicidade 11 de 18 Pessoas participam de uma cerimônia em alusão ao 25º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro no pátio do Pentágono, em 11 de setembro de 2026, em Arlington, Virgínia — Foto: CHIP SOMODEVILLA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP 12 de 18 A família de Terrance Andre Aiken reúne-se durante memorial ao 25º ano dos ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova York, em 11 de setembro de 2026. — Foto: Adam Gray / POOL / AFP X de 18 Publicidade 13 de 18 Uma mulher e uma criança fazem uma pausa no memorial durante uma cerimônia em alusão ao 25º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro ao World Trade Center, no Memorial e Museu Nacionais do 11 de Setembro — Foto: SPENCER PLATT / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP 14 de 18 A ex-secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, discursa durante uma cerimônia em alusão ao 25º ano dos ataques terroristas de 11 de setembro no pátio do Pentágono, em 11 de setembro de 2026, em Arlington, Virgínia. — Foto: CHIP SOMODEVILLA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP X de 18 Publicidade 15 de 18 Pessoas participam de uma cerimônia em alusão ao 25º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro no pátio do Pentágono, em 11 de setembro de 2026, em Arlington, Virgínia — Foto: CHIP SOMODEVILLA / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP 16 de 18 Coroas de flores posicionadas junto a bancos de aço inoxidável dedicados às vítimas no Memorial Nacional do 11 de Setembro do Pentágono, em Washington, D.C., — Foto: Alex WROBLEWSKI / AFP X de 18 Publicidade 17 de 18 Uma pessoa faz uma pausa no memorial antes de uma cerimônia em alusão ao 25º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro ao World Trade Center, no Memorial e Museu Nacionais do 11 de Setembro, em 11 de setembro de 2026, na cidade de Nova York — Foto: SPENCER PLATT / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP 18 de 18 A imagem do tenente-coronel Jerry D. Dickerson é exibida durante uma cerimônia em alusão ao 25º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro no pátio do Pentágono, em 11 de setembro de 2026, em Arlington, Virgínia — Foto: Finn Gomez / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP X de 18 Publicidade O reverendo Brian Jordan, que realizou cultos no Marco Zero durante meses após os ataques, afirmou: — Todos nós sofremos em 11 de Setembro — disse. — Não é algo apenas para católicos, protestantes ou judeus. Muçulmanos morreram em 11 de Setembro, e as pessoas tendem a esquecer disso. Zohran Mamdani não foi responsável por esse ataque terrível. Pesquisas recentes sugerem que os nova-iorquinos não acreditam que o prefeito estaria deslocado na cerimônia de sexta-feira. Uma pesquisa da Universidade de Suffolk, realizada em setembro, mostrou que quase 74% dos moradores de Nova York consideravam que ele deveria comparecer como representante oficial da cidade. Para os aliados do prefeito, seu histórico eleitoral é uma prova de que seu apoio supera o das forças que desejam impedi-lo de participar plenamente das homenagens. — O prefeito conseguiu um milhão de votos, a maioria de pessoas que não são muçulmanas — observa Ali Najmi, aliado de longa data de Mamdani e presidente de seu conselho consultivo jurídico. — A islamofobia não venceu em Nova York.