Medidas podem abastecer inquérito sob relatoria do ministro André Mendonça que mira em Flávio Bolsonaro e apura os supostos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jair Bolsonaro é interpretado por Jim Caviezel em 'Dark Horse' — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil — Reprodução Com pouco avanço desde a abertura do inquérito, em julho, a investigação que mira em suspeitas envolvendo a participação do senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, no financiamento do filme "Dark Horse" deve ganhar um novo fôlego a partir da delação do operador do mercado financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, o "Mineiro". Uma das medidas que a Polícia Federal pretende adotar, por exemplo, é um pedido de cooperação internacional aos Estados Unidos para mapear o fluxo de dinheiro envolvendo o fundo Havengate e a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Como mostrou o GLOBO, o inquérito sob relatoria do ministro André Mendonça que mira em Flávio apura os supostos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Ao pedir a abertura da investigação, a corporação afirmou que o senador não foi um mero "terceiro", mas um "intelocutor direto" de Vorcaro na negociação sobre o financiamento do filme Dark Horse. Entre os pontos que a investigação visa esclarecer está justamente a "função desempenhada" pelo fundo Havengate no financiamento do filme, assim como "os beneficiários finais dos valores remetidos ao exterior". É nesse contexto que o pedido de cooperação é discutido. A possibilidade foi aventada desde o pedido de abertura da investigação, já que não há como a PF acessar os dados do fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos. Interlocutores dizem que não é possível, por exemplo, que Mendonça emita uma ordem direta para a quebra de sigilo do fundo porque ele não está sob jurisdição brasileira. Assim, para que a PF possa obter as informações, precisa encaminhar um pedido que deve passar pelo gabinete do ministro do STF e pelo Ministério da Justiça antes de ser remetido aos EUA. Os investigadores avaliam, contudo, que para formalizar um pedido às autoridades americanas é preciso levantar mais indícios sobre a prática de crime nos repasses da Havengate. Isso porque uma medida de quebra de sigilo bancário deve ser aprovada por um juiz federal dos Estados Unidos. É aí que a delação de Mineiro pode ajudar. Uma solicitação formal de cooperação costuma ser feita pelo Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), órgão vinculado ao Ministério da Justiça responsável por operacionalizar pedidos dessa natureza. O DRCI, então, faria a tramitação junto ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ), com base no tratado de assistência jurídica mútua em matéria penal firmado entre os dois países. A cooperação entre Brasil e Estados Unidos costuma ser fluída, sobretudo em investigações envolvendo o crime organizado e lavagem de dinheiro. Como a apuração envolve a atuação do clã Bolsonaro em território dos EUA, ainda é uma incógnita saber se as autoridades americanas irão cooperar. As discussões iniciais sobre um eventual pedido de cooperação no caso Dark Horse giravam em torno das dificuldades de construção da solicitação. Os investigadores destacavam que, para montar um pedido robusto a ser encaminhado aos EUA, é necessário coletar um conjunto mais amplo de indícios de crimes para que só então se possa tentar convencer as autoridades dos EUA a fornecerem o detalhamento dos repasses. Nesse sentido, esses interlocutores destacavam que esse compartilhamento depende do entendimento e de parâmetros dos representantes do país norte-americano, que podem ser diferentes daqueles traçados pelos brasileiros. Em ocasiões recentes, investigadores enfrentaram dificuldades em tentativas de cooperação internacional, como na tentativa de intimação do blogueiro Paulo Figueiredo, aliado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, em caso em que ele é acusado de coação em processo. Desde julho, os investigadores começaram a fazer diligências no inquérito, requisitando informações das empresas envolvidas na montagem do filme para tentar mapear o caminho do dinheiro usado para custear o longa. Ao defender a abertura de inquérito sobre os repasses de Vorcaro ao filme Dark Horse, a Procuradoria-Geral da República apontou, por exemplo, que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro "orientou" a gestão recursos do longa nos Estados Unidos. O órgão ainda chamou de "aporte ilícito" o dinheiro enviado por Vorcaro ao projeto audiovisual. Segundo a PGR, Eduardo coordenou a administração do dinheiro nos Estados Unidos, país onde ele mora desde março de 2025. Desde então, ele vem fazendo uma campanha junto à Casa Branca para articular ações que possam pressionar o Supremo a tirar o ex-presidente Jair Bolsonaro da prisão domiciliar. Assim, investigadores querem verificar, por exemplo, se os recursos financiaram o acesso do clã Bolsonaro junto a integrantes do governo do presidente americano Donald Trump por meio de escritórios de advocacia e lobistas, que atuam em Washington. Até agora, aliados de Flávio Bolsonaro tem sustentado que não há ilegalidades nos repasses, sob o argumento de que trata-se de dinheiro privado. Também alegam que, ainda que se identifique repasses ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, eles estariam relacionados a pagamentos pelo trabalho na produção do filme. É nesse cenário que a delação de "Mineiro" pode ajudar os investigadores a elaborarem o pedido de cooperação internacional. Dono da Entre Investimentos e Participações, o empresário apontou o caminho de repasses feitos ao fundo sediado no Texas. Ele confirmou à PGR ter realizado ao longo do ano passado sete transferências bancárias para o fundo Havengate que totalizam US$ 12,3 milhões (cerca de R$ 69 milhões no câmbio da época) a pedido de Vorcaro. Na delação, Mineiro diz como recebeu mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro do fim de 2024 ao início de 2025 para fazer os pagamentos ao fundo americano. Aos procuradores, ele disse que não sabia que o montante seria usado na produção do longa. O empresário também disse ter sido contatado por Paulo Calixto, que é responsável pelo fundo e atuou como advogado de Eduardo Bolsonaro. Pedido de compartilhamento pendente Interlocutores ressaltam que a investigação sobre o caso Dark Horse que tramita sob relatoria de Mendonça está em fase inicial. Até agora, a Polícia Federal não apresentou nenhum pedido de diligência a ser deferido pelo ministro do STF. Isso não significa, necessariamente, que o inquérito está parado, uma vez que a PF pode fazer uma série de diligências por conta própria. De outro lado, as mais robustas dependem de um aval da Justiça. Um pedido que está pendente de apreciação pelo gabinete, por exemplo, é de compartilhamento de informações da investigação da Polícia Civil de São Paulo. Este pedido, feito pela Polícia Federal, está com a Procuradoria-Geral da República para emissão de parecer. Em decisão nesta quinta-feira, o ministro Flávio Dino, do STF, determinou que o material produzido pela Polícia Civil seja remetido a seu gabinete. A avaliação entre investigadores é que será preciso entender para onde será enviado e, eventualmente, o compartilhamento das informações entre gabinetes. Recentemente, Mendonça compartilhou mensagens do senador Weverton Rocha, apreendidas durante a investigação sobre o Banco Master, com o inquérito sobre suposta obstrução à investigação de um assassinato ocorrido em 2022 no Maranhão. Já a outra frente de apuração sobre o caso Dark Horse, que está sob relatoria de Dino, teve desdobramentos nesta quinta-feira, com a abertura de uma operação que cumpriu 49 mandados de busca e apreensão. A investigação apura o suposto desvio de emendas parlamentares para a produtora do filme. O deputado federal Mario Frias (PL-SP) e a empresária Karina Gama foram alvo das diligências. Frias destinou R$ 2 milhões em emendas em 2024 ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina. Os valores foram pagos em fevereiro e outubro de 2025.