Todos, ou quase todos, se lembram bem onde estavam e o que faziam no dia em que 19 terroristas converteram quatro aviões em armas letais e provocaram a morte de quase três mil pessoas, a maioria civis, nos Estados Unidos. O dia em que o horror e o medo tomaram conta do mundo. O dia que transformou definitivamente o mundo como conhecíamos. O dia 11 de setembro de 2001, que também mudou radicalmente minha vida. Um mês após chegar à editoria Mundo — isso mesmo, apenas um mês após aceitar trocar a área de cultura pela internacional, a convite da então editora Claudia Sarmento —, o mundo literalmente desmoronou. A partir dali, foram horas, dias, semanas, meses que pareceram séculos praticamente morando na Redação. Uma maratona que me fez perder uns quatro quilos em pouco tempo. Um período tão intenso que não me lembro direito, confesso, da convivência com minhas filhas, na época com 12 e 10 anos. A Redação do GLOBO no início dos anos 2000 e Mànya Millen na mesma época, quando era editora assistente de Mundo e participou da cobertura do 11 de Setembro — Foto: Agência O Globo Até aquele dia, eu sequer lembrava de ligar o celular Me lembro perfeitamente, porém, da manhã luminosa daquela terça-feira que, como outras manhãs, eu desfrutava na tranquilidade doméstica. Eram tempos em que a internet estava longe de ser o que é hoje, as redes sociais ainda estavam longe de roubar cotidianamente nosso precioso tempo vago, e os celulares, ah, os celulares... estavam beeeem longe de ser uma extensão natural das nossas mãos. Não costumava ligá-lo imediatamente ao acordar, às vezes sequer lembrava da sua existência. Até o 11 de Setembro. Pessoas fogem pelas ruas de Nova York durante colapso das torres do World Trade Center — Foto: Doug Kanter/AFP “Você tá vendo isso?” , “Já viu o que tá acontecendo?” , “Liga a TV agora”, “É muito grave”, acho que foram as frases que ouvi da Claudia assim que me toquei que o telefone estava tocando, e provavelmente não pela primeira vez. Ao ligar a TV, entendi o caos que se instalaria a partir dali no cotidiano de quem trabalha com notícia, e principalmente de quem trabalha com notícias sobre o mundo. O meu novo cotidiano. Capa da edição extra do GLOBO em 11 de setembro de 2001 — Foto: Reprodução Força-tarefa e edição extra Meio estupefata, vi na tela da TV a informação de que o segundo avião acabara de bater na Torre Sul do World Trade Center, um dos cartões-postais de Nova York, e o primeiro se chocara com a Torre Norte 17 minutos antes, às 8h46. Quando aconteceu o colapso de ambas, em torno das 10h, eu já estava na Redação, acompanhando a cena assustadora ao lado dos companheiros não só de Mundo, como de todas as outras editorias que se juntaram a nós numa grande força-tarefa que se manteria durante meses. Naquele dia 11, depois de muito tempo, O GLOBO voltou a publicar uma edição extra, que foi mandada para as bancas no início da noite. Me lembro da correria e do imenso esforço coletivo para levar ao leitor o máximo de informações que tínhamos em mãos naquele momento, poucas horas após os atentados — além das Torres Gêmeas em Nova York, um terceiro avião atingiu o Pentágono, e um quarto caiu na Pensilvânia depois que passageiros lutaram com os terroristas a bordo, evitando a colisã com outro alvo. 'O dia da infâmia' A edição extra, de 12 páginas, que se esgotou em pouco tempo, já trazia o perfil do saudita Osama Bin Laden, principal suspeito dos EUA pelos atentados. No dia seguinte, um caderno especial de 24 páginas, sob a manchete “O dia da infâmia”, detalhava mais os ataques, o pânico e o caos em solo americano; estampava infográficos e as fotos tristemente impressionantes das torres em chamas e depois em queda, das pessoas cobertas pela espessa poeira branca, andando desorientadas pelas ruas de Nova York; ampliava a repercussão dos atentados no exterior e no Brasil; apontava os impactos na economia global; mostrava as buscas por sobreviventes, as falhas de segurança, e os próximos passos dos EUA do presidente George W. Bush. O efeito dominó no mundo todo. No aeroporto Santos Dumont, pessoas leem a edição extra do GLOBO sobre os atentados nos EUA — Foto: Alaor Filho Homem diante dos escombros das Torres Gêmeas, em Nova York — Foto: DOUG KANTER/AFP Falso alarme sobre Bin Laden Poucos dias depois dos atentados, lembro que um boato sobre a captura de Bin Laden me fez voltar à Redação de madrugada. Eu chegara havia pouco tempo em casa, e assim que apaguei a luz para dormir tocou o telefone. Morando mais próximo do jornal, lá fui, extremamente sonada, tentar entender se era verdade ou apenas “barriga” (que hoje a gente chama de fake news) das redes americanas. Bin Laden só seria de fato executado pelas forças especiais dos EUA em maio de 2011, já na gestão de Barack Obama. Uma consulta aos arquivos do GLOBO me lembra — porque nem toda memória permanece — que os cadernos especiais seguiram diariamente até 24 de setembro. O intervalo, porém, seria breve: eles voltaram em 8 de outubro, anunciando o já esperado ataque americano ao Afeganistão, berço da Al-Qaeda, organização terrorista chefiada por Bin Laden. A Guerra ao Terror começara de verdade, e se estenderia a outros fronts, como o Iraque, em 2003, levando os EUA, e por tabela o mundo, a uma nova era de desconfiança, temor, corrida armamentista, atropelamento de direitos e liberdades civis. 'Mulá Mimi', com carinho Em pouco tempo, Al-Qaeda, Talibã, Aliança do Norte, burcas, mujahidin, jihad, sharia e Cabul viraram palavras corriqueiras em nosso vocabulário. Sem esquecer mulá, título dado a clérigos ou líderes muçulmanos como Mulá Omar, fundador do radical Talibã. Aliás, "Mulá Mimi" foi o carinhoso e sugestivo apelido que ganhei da equipe de Mundo na época, só porque não atendia aos apelos para aumentar o tamanho das matérias nas páginas... Vinte e cinco anos depois, lembro daquele período alimentado por muita adrenalina, cansaço, apreensão, companheirismo e necessário entusiasmo — mas por pouca comida, claro, ou não teria perdido peso. Um período que foi, até 2004, quando mudei de editoria, fundamental para expandir horizontes, entender processos e, principalmente, aprender com os melhores entre os melhores profissionais (que se tornaram grandes amigos) a enxergar o mundo de outra forma. Valeu a pena. E minhas filhas, acreditem, sobreviveram lindamente ao meu 11 de Setembro esticado. Pentágono dos EUA foi outro alvo dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 — Foto: Luke Frazza/AFP Conheça O GLOBO por dentro O GLOBO por dentro é um projeto criado para aproximar os leitores de quem faz a notícia. A iniciativa reúne vídeos e reportagens em que repórteres e editores mostram como grandes coberturas foram construídas, apresentam ferramentas desenvolvidas pelo jornal e revelam etapas do trabalho jornalístico que normalmente ficam nos bastidores. O projeto também fortalece o diálogo com o público por meio de vídeos em que jornalistas respondem às cartas enviadas pelos leitores e de recomendações de livros, filmes, séries e programas culturais produzidas pelas equipes do GLOBO.
'Liga a TV agora, é muito grave': como vivi o 11 de Setembro na Redação do GLOBO
Um mês depois de trocar a editoria de Cultura pela de Mundo, Mànya Millen relembra o medo e a força-tarefa que tomou conta do jornal após os atentados de 11 de setembro de 2001













