Na última terça-feira, Juliana Cequinne estava passeando pela 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que termina domingo, quando um livro no estande da editora Pé de Letra fisgou sua atenção. Era “365 reflexões estoicas”, um livrinho com pensamentos daqueles filósofos da Antiguidade que propunham domar as paixões para afastar o sofrimento — como o ex-escravizado Epiteto, que alertou: “Não são os acontecimentos que nos perturbam, mas a opinião que temos sobre eles”, conforme registrado no volume. Juliana gosta de pílulas de sabedoria, mas o que realmente a persuadiu a fechar a compra foi o formato do livro — que é também um chaveiro. Ou melhor: um book charm, como vêm sendo chamados estes livrinhos simpáticos, que cabem no bolso e também fazem as vezes de acessórios, podendo ser enganchados em bolsas e mochilas. — Achei muito interessante. Dá para colocar na mochila, e assim eu posso ler uma reflexão por dia no ônibus, a caminho do trabalho — diz Juliana, que tem 44 anos e é servidora pública. — Mas acho que vou guardar o livro dentro da bolsa em vez de deixar pendurado do lado de fora. Tenho medo de que roubem (risos). ‘Crime e castigo’ Aposta de um punhado de editoras para cativar o público da Bienal, os book charms têm de 12cm a 13cm de altura e 7cm a 8cm de largura. Apesar do tamanho diminuto, trazem o texto integral das obras — e algumas são bastante extensas, como “Crime e castigo”, de Dostoiévski, e a Bíblia. Os preços variam de R$ 47 a R$ 59,90. Nos estantes da Bienal visitados pelo GLOBO no Distrito Anhembi, os livros-chaveiros estavam estrategicamente localizados perto do caixa. O formato portátil convenceu Elson Domingues, de 13 anos, a comprar uma Bíblia-chaveiro para a avó no estande da Princips. — Tenho certeza de que ela vai gostar, ainda mais porque ela gosta de flor — garante o menino, referindo à estampa da capa. Os book charms despontaram em fevereiro, na Semana de Moda de Nova York. A Coach (marca de luxo conhecida por bolsas, carteiras e assessórios de ouro) lançou, em parceria com a editora Penguin Random House, 12 livros-chaveiro, que incluem títulos como “Razão e sensibilidade”, de Jane Austen, e “Pequenos incêndios por toda parte”, de Celeste Ng. A campanha da Coach é estrelada pelas atrizes Elle Fanning (“Valor sentimental”) e Storm Reid (“Euphoria” e “The last of us”), pela cantora pop chinesa Shan Yichun e pela jogadora de basquete americana Paige Bueckers. É cada vez mais comum marcas de luxo apostarem no fetiche dos livros, associando a leitura a valores característicos do mundo da moda, como distinção, status e autenticidade. A Chanel e a Miu Miu criaram clubes do livro, a Saint Laurent abriu uma livraria em Paris e a Dior lançou uma linha de bolsas reproduzindo as capas das primeiras edições de clássicos da literatura, como “Ulysses”, de James Joyce. — As grifes são muito antenadas, captaram esse hype que se formou em torno da literatura e criaram um acessório que reflete a identidade das pessoas que amam livros e querem carregá-los para todo lado — diz Bruno Zolotar, diretor comercial e de marketing da Rocco, que apresentou na Bienal um livro-chaveiro de “A hora da estrela”, de Clarice Lispector. — Clarice é pop, inspirou até a Björk (a islandesa anunciou que está compondo uma música inspirada em “A paixão segundo G.H.”). O book charm de “A hora da estrela” vai ser lançado este mês, mas decidimos testar o conceito na Bienal e está indo bem, vendendo tanto quanto a edição de capa dura. Em breve, vamos lançar outros book charms de Clarice e de autores nacionais de ficção jovem. Livro-chaveiro de 'A hora da estrela', de Clarice Lispector, à venda na Bienal do Livro de São Paulo — Foto: Maria Isabel Oliveira A editora Planeta oferece book charms para todos os gostos. Estreou em abril, como um chaveiro de “A gente mira no amor e acerta na solidão”, best-seller da psicanalista Ana Suy. Para a Bienal, preparou versões de clássicos, como “A metamorfose”, de Franz Kafka, e “O alienista”, de Machado de Assis, e dois infantis: o quinto volume de “As aventuras de Mike”, de Gabriel Dearo e Manu Digilio, e “O diário de tarefas gnomosas do Floreante Viajante”, spin-off da série “As aventuras de uma princesa desastrada”, de Maidy Lacerda. Ao GLOBO, a autora disse que criar um diário interativo “disfarçado” de chaveiro foi “divertido demais”. O diário de Floreante só existe no formato book charm e vendeu mais de três mil cópias na Bienal. — Estamos vivendo um momento interessante: o livro deixou de ser apenas um objeto que você compra para ler e passou também a ser um objeto que representa quem você é. Isso não diminui a importância do livro, muito pelo contrário — afirma Felipe Brandão, diretor editorial da Planeta. — O chaveiro só funciona porque existe antes uma conexão afetiva com aquela história, aquele personagem, aquele autor. O livro continua sendo o coração da experiência e o book charm é uma extensão desse vínculo. Identidade visual Brandão acrescenta que os book charms precisam ter “uma identidade visual ou simbólica muito forte, para serem rapidamente reconhecidos pelo leitor”, e que, por isso, é natural privilegiar obras clássicas ou que tenha “uma comunidade de leitores muito engajada”. Foi essa a estratégia da Pé de Letra, que apostou em clássicos — de “O diário de Anne Frank” a “O pequeno príncipe” — para cativar o público que almeja projetar uma “identidade de leitor”, afirma Gabriella Missé, responsável pelo e-commerce da editora. Ananda Ribeiro foi à Bienal justamente para “garimpar livrinhos clássicos”. Fã das romancistas inglesas do século XIX, como Jane Austen e as irmãs Emily e Charlotte Brontë, ela foi ao estande da Princips para comprar a versão chaveiro de “Razão e sensibilidade” que tinha visto nas redes sociais. — Já li todos os livros da Jane Austen, mas comprei o livro-chaveiro porque achei bonitinho. Vou colocar na minha bolsa — diz ela, que tem 31 anos, trabalha com administração de empresas e só não levou também o book charm “O morro dos ventos uivantes” (Emily Brontë) porque estava esgotado.
'Book charms': Livros-chaveiro que funcionam como acessórios viram aposta de editoras na Bienal de SP
Moda, que começou com marcas de luxo, reforça 'identidade de leitor'; obras de Clarice Lispector e Dostoiévski já estão disponíveis no formato












