Nesta quinta-feira, após a operação que apreendeu aparelhos telefônicos, computador e sete armas de seu arsenal, o deputado Mario Frias foi às redes sociais negar qualquer irregularidade 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O ator Jim Caviezel interpreta o ex-presidente Jair Bolsonaro no filme 'Dark horse' — Foto: Reprodução A Polícia Federal cumpriu ontem 49 mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, com o objetivo de esclarecer se dinheiro público de emenda parlamentar indicada pelo deputado Mario Frias (PL-SP) foi desviado para irrigar o caixa do filme “Dark horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Para investigadores, R$ 750 mil, quase metade do montante destinado pelo congressista para projeto voltado ao “letramento digital” de crianças, podem ter financiado parte da produção. A ação da PF pressiona a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que comemorava uma reação nas pesquisas e sempre destacou que o filme contava exclusivamente com dinheiro privado. O otimismo do senador foi reforçado nos últimos dias com a evolução da crise no STF e a associação feita, por parte do eleitorado, entre o petista e Alexandre de Moraes, personagem central do momento de instabilidade. A PF suspeita que houve uma “triangulação” de empresas a partir da transferência da emenda, o que teria beneficiado a produtora Go Up, responsável pelo filme. A investigação transcorre em paralelo a outro inquérito, de relatoria do ministro André Mendonça, que trata do destino de dinheiro enviado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, para um fundo no exterior, o Havengate, usado também para financiar o longa-metragem. Nesta outra apuração, a PF investiga se o dinheiro enviado pelo banqueiro foi usado para pagar a estadia do deputado cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Em maio, o Intercept Brasil revelou que o próprio Flávio negociou com Vorcaro um aporte de R$ 134 milhões para o filme. Ontem, após a operação que apreendeu aparelhos telefônicos, computador e sete armas de seu arsenal, Frias foi às redes sociais negar qualquer irregularidade, e chamou a ação de “cortina de fumaça”. Fontes de investigação sobre os repasses para o Dark Horse — Foto: Arte O Globo Valor incompatível Segundo investigadores, além da emenda, o próprio Frias repassou R$ 645 mil à produtora, valor considerado incompatível com a sua renda de R$ 44 mil por mês. Flávio também reagiu afirmando tratar-se de uma “interferência política” (Leia mais abaixo). A PF suspeita que tanto Frias quanto Karina Ferreira da Gama, produtora da Go Up, praticaram os crimes de peculato (desvio de verba pública), lavagem de dinheiro, organização criminosa e falsificação de documentos. A defesa de Karina ajuizou uma reclamação à presidência do STF. “Nossa defesa técnica insiste em assegurar a autoridade das decisões da Presidência do STF e a competência do juiz natural”, disse, em nota, o advogado Ricardo Sayeg sem especificar quem seria, na sua avaliação, o juiz natural. A defesa afirma que não discute o mérito da investigação e diz que a cliente estava contribuindo, tanto que atendeu à solicitação da PF e “entregou mais de 20 mil laudas de documentos, o que prova sua boa-fé e lealdade processual”. Armas do deputado federal Mario Frias apreendidas pela PF — Foto: Divulgação/PF Os investigadores apontam que a triangulação de dinheiro oriundo da emenda se deu da seguinte forma: enquanto entidades ligadas a Karina recebiam dinheiro público, como o Instituto Conhecer Brasil (ICB), o mesmo ICB transferiu R$ 700 mil para duas empresas, Dinâmica Editora e Instituto Super Poder Educacional, que fazem parte do grupo da NTT Brasil LTDA. Esta terceira entidade, por sua vez, transferiu R$ 750 mil à produtora Go Up, produtora cuja única obra produzida foi o filme “Dark horse”. O convênio da emenda foi firmado entre Karina e o Ministério da Ciência e Tecnologia e se destinava a “capacitar adultos e adolescentes” com metodologia de “letramento digital e empreendedorismo”. O projeto recebeu dinheiro de emenda de Frias, que já contratou os serviços de Karina para sua campanha de 2022 e assina como produtor executivo de “Dark horse”. Na decisão, Dino determinou que os alvos da investigação não podem deixar o país nem se falar. O ministro também determinou o recolhimento dos passaportes. Marqueteiro de Flávio A decisão aponta ainda que Marcello Lopes, ex-marqueteiro de Flávio, enviou R$ 1 milhão para a Go Up, segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Procurado, Lopes afirmou que “o investimento foi realizado com recursos próprios”, de forma regular, “diretamente da minha conta, dentro da legalidade e devidamente formalizado”. A distribuidora do filme decidiu aguardar o desfecho das investigações antes de definir o lançamento da obra. — O lançamento do filme terá que estar livre de possíveis impedimentos. Não dá para saber o desenrolar de tudo isso, mas não seria responsável fazer o lançamento deste filme com todos estes acontecimentos — afirmou o diretor-geral da Europa Filmes, Wilson Feitosa. Nesta semana, na outra frente de investigação da PF, Mendonça homologou a delação de Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro. O empresário é dono da Entre Investimentos e Participações, usada para repasses de dinheiro entre Vorcaro e a produção de “Dark horse”. Como mostrou a coluna Malu Gaspar, do GLOBO, Mineiro confirmou à Procuradoria-Geral da República ter realizado no ano passado sete transferências bancárias para o fundo Havengate que totalizam US$ 12,3 milhões (cerca de R$ 69 milhões no câmbio da época) a pedido de Vorcaro.