Darcy Ribeiro disse, há quatro décadas, que a "crise educacional do Brasil" não era exatamente uma crise, era "um programa". O diagnóstico, apresentado em 1977 durante a 29ª Reunião Anual da SBPC, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, cabe perfeitamente no figurino do Brasil de hoje quando olhamos para o Supremo Tribunal Federal, o STF. Há meses a sociedade se pergunta: a crise no STF é uma crise de fato ou o esboço de um projeto de poder com fundo partidário e constitucional?

Ao que parece, vivemos um novo velho dilema. A corte acompanha as tensões da República desde o seu berço. Os primeiros registros de asfixia ocorreram ainda na República Velha, sob o governo de Floriano Peixoto. O "marechal de ferro" encurralou ministros com ameaças explícitas caso suas vontades políticas não fossem chanceladas.

O cenário atual é diferente. O STF de hoje não vive sob o tacão externo do presidente da República; a questão é interna. Está explícita uma forte polarização velada entre as cadeiras do Judiciário. Sem que seja necessário nominar este ou aquele magistrado —nem é preciso—, observa-se uma inclinação nítida nas decisões de gabinete, divididas em duas tendências: de um lado, desenha-se um "STF do B" (de Bolsonaro); do outro, um "STF do L" (de Lula).