Um dos filmes mais esperados do Festival de Veneza deste ano, "Dau", de Ilya Khrzhanovsky, levou ao público uma noção de como era a vida sufocante na sociedade soviética no auge do stalinismo. É a conclusão do megalômano projeto que o cineasta nascido na Rússia —mas que renunciou à cidadania por divergências com o governo Putin— iniciou há duas décadas, envolvendo a construção de um gigantesco estúdio, em que pessoas literalmente moraram por mais de um ano. Tudo para fazer uma imersão na União Soviética de meados do século 20.
Construído na Ucrânia, o set reproduzia o que teria sido um instituto de pesquisa científica soviético, onde morou e trabalhou o físico Lev Landau, vencedor do Nobel e uma das cabeças por trás do desenvolvimento bélico nuclear de Moscou no pós-Guerra. Centenas de pessoas aceitaram morar verdadeiramente ali e serem filmadas, como se vivessem nos tempos do ápice do totalitarismo.
Tudo, dos alimentos aos produtos industrializados no set, eram réplicas que davam às pessoas a sensação de viver naqueles anos. As pessoas não podiam nem deixar o estúdio para não sair da imersão, e não havia roteiro a seguir: deviam levar suas vidas normalmente, apenas seguindo por regra fingir que estavam na União Soviética e se deixando ser filmadas.










