Na semana passada, o Ministério da Saúde apresentou uma central que recebe em tempo real dados de UTIs de Manaus, Recife, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Serão inicialmente 60 leitos conectados, com previsão de chegar a 280 em 14 instituições diferentes. A central monitora continuamente dados como pressão arterial, frequência cardíaca e oxigenação.PUBLICIDADEEssa iniciativa aponta para algo ainda maior. O SUS reúne as condições necessárias para transformar o Brasil no maior laboratório do mundo para descobrir onde os algoritmos funcionam, onde eles falham e como melhorá-los.O maior desafio para o futuro da IA na saúde é o fato de que um algoritmo pode funcionar muito bem no hospital onde foi desenvolvido e fracassar quando atravessa a rua. Ao mudar de hospital, mudam também os pacientes, as doenças mais frequentes, os equipamentos, os exames disponíveis e até a forma como os profissionais registram a mesma informação. Tudo isso faz o desempenho do algoritmo cair bastante quando ele é utilizado em outro lugar.Leia tambémComo ser original na era da inteligência artificial A inteligência artificial começa a redesenhar o combate ao câncerMas nesse caso, a diversidade regional do sistema de saúde brasileiro, normalmente tratada apenas como um problema, pode se tornar um enorme benefício para estudar a questão mais importante da IA em saúde hoje.PublicidadePara a ciência, trata-se de um experimento que seria difícil montar de propósito. Um mesmo algoritmo pode ser testado em hospitais de grandes capitais, cidades do interior, regiões ricas e pobres e populações com perfis muito diferentes. Se ele só funcionar em lugares parecidos com aquele onde foi desenvolvido, talvez ele não seja tão inteligente assim.Há também o benefício da escala. A Rede Nacional de Dados em Saúde já reúne mais de 5 bilhões de registros e foi criada para permitir a integração das informações produzidas em diferentes partes do nosso sistema de saúde.A diversidade regional do sistema de saúde brasileiro pode se tornar um enorme benefício para estudar a questão mais importante da IA em saúde hoje Foto: Marcelo Casal Junior/Agência BrasilPoucos países combinam mais de 200 milhões de pessoas, enorme diversidade populacional e um sistema nacional de saúde com o potencial de integrar seus dados. Isso abre uma possibilidade fascinante para o Brasil. Temos a chance de liderar o conhecimento mundial sobre como fazer algoritmos continuarem bons quando chegam a populações diferentes.Esse problema é especialmente importante para países de baixa e média renda, já que grande parte da IA em saúde continua sendo desenvolvida com dados de hospitais de países ricos. Quando esses modelos chegam ao restante do mundo, ninguém sabe o quanto do desempenho original sobreviveu à viagem.Para aproveitar essa oportunidade, o Brasil poderia organizar uma rede de hospitais para avaliar os algoritmos. Seria possível acompanhar seu desempenho e verificar se ajudam a melhorar o prognóstico dos pacientes. Um algoritmo que consiga funcionar bem de São Paulo a Manaus terá passado por um teste que poucos países conseguem replicar.PublicidadeA melhor inteligência artificial em saúde do mundo será aquela que continua funcionando bem quando se muda o paciente, o hospital e o país. Com a sua imensa escala e diversidade, o SUS poderá se tornar o lugar onde a IA aprende a viajar.Vale ler tambémMuito além das commodities: o agro nacional rumo às prateleiras do mundoSteve Jobs construiu a Apple; Tim Cook a transformou na maior empresa do mundoFalta de terrenos em SP ajuda a ampliar projetos de galpões ao interior