— Foto: Ilustração: Daniel Caballero Na virada deste ano, as projeções macroeconômicas já eram de desafios persistentes no controle inflacionário, de manutenção da meta da taxa Selic em patamares elevados e de uma piora na qualidade do crédito, após empresas e pessoas físicas conviverem com um juro básico de dois dígitos desde fevereiro de 2022. E o cenário, no segundo semestre, continua apontando para o alto custo do dinheiro para os bancos, para a corrosão do poder de compra, inadimplência alta e cautela reforçada na concessão de crédito. A liberação de crédito já vinha perdendo fôlego nos anos anteriores. O saldo das operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) cresceu 11,5% em 2024, desacelerou para 10,2% no ano passado e para 2026, segundo previsão do Banco Central (BC), deve avançar menos ainda, 9%. Em junho, estava em R$ 7,4 trilhões, expansão de 9,7% em 12 meses. O menor apetite em conceder crédito afeta mais as famílias de menor renda e as pequenas e médias empresas (PMEs). Luis Miguel Santacreu, gerente de análise de instituições financeiras e gestoras de recursos da Austin Rating, afirma que em alguns setores, como no agronegócio, a realidade é um pouco pior. “Quando o juro estava a 2% (2021), entraram em ciclo de investimento e agora, com a Selic alta, têm problemas de liquidez. O volume de recuperações judiciais (RJs) no campo é alto. Por este motivo, o desempenho do BB [Banco do Brasil] é pior que seus pares.” Scarpelli, do Bradesco: seleção de ativos de mais qualidade está dando bons resultados — Foto: Wanezza Soares/Divulgação No primeiro semestre, o lucro do BB foi de R$ 7,3 bilhões, queda de 34,2% sobre igual período de 2025. Houve alguma melhora no segundo trimestre, com lucro de R$ 3,9 bilhões, alta de 3,3% na mesma base de comparação, mas com a inadimplência da carteira consolidada chegando a 5,61% (+ 1,65 ponto). No crédito ao agronegócio, liderado pelo banco, o índice avançou 3,1 pontos, para 6,27%. A deterioração do crédito também elevou as despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD), que atingiram R$ 18,4 bilhões. “Temos avanços, mas carregamos o peso da inadimplência maior. No cômputo geral, considero que é um resultado que demonstra uma capacidade do BB de enfrentar esta situação, principalmente no agro, e ao mesmo tempo entregar lucro”, disse Geovanne Tobias, vice-presidente de gestão financeira e relações com investidores do BB, ao comentar o resultado trimestral. Para o resto do ano, com a MP 1.376, que institui um programa de renegociação da dívida no campo, a previsão é de queda no risco de crédito. Nos balanços já divulgados, o aumento das PDD foi uma constante em razão da piora na inadimplência e da mudança na metodologia, com a entrada da Resolução CMN nº 4.966 em janeiro de 2025. A nova regra substitui o modelo de provisão por atraso (perda incorrida) por estimativas de perdas de crédito esperadas ao longo do tempo. “É difícil comparar o modelo atual com o outro modelo, porque precisamos de alguns ciclos. De qualquer forma, o aumento da PDD foi um elemento redutor dos resultados”, avalia Santacreu. Muñiz, do Santander: preocupação com a qualidade do crédito, e não com o market share — Foto: Divulgação Dos grandes bancos privados, o resultado do Santander foi, na visão de Flavio Conde, head de ações da Levante Investimentos, o que mais decepcionou. “Até aqui, foi o único com queda no resultado no segundo trimestre, de 20%, sobre o trimestre anterior.” O banco registrou um lucro líquido de R$ 3,014 bilhões, queda de 17,6% na comparação anual e de 20,4% ante o trimestre anterior. “Foi uma combinação de receita menor, piora na margem financeira e aumento de 20,6% da PDD gerencial, para R$ 7,650 bilhões. O Santander é um banco excelente, com capital, mas talvez tenha que rever seus modelos de crédito”, afirma Conde. A piora no desempenho é atribuída pelo Santander à estratégia de rebalanceamento do mix de produtos e clientes em busca de melhor relação risco e retorno. “O lucro líquido e o ROE [Return on Equity], de 12,5%, são resultado do macro mais desafiador, com aumento do custo de crédito e de decisões que tomamos”, comentou o CFO do banco, Carlos Muñiz, em conversa com analistas. “O movimento gera impacto de curto prazo nas receitas, mas é fundamental para construir uma operação mais equilibrada.” Muñiz se refere ao rigor nas concessões de crédito e à menor exposição aos perfis de maior risco, especialmente a clientes com renda abaixo de R$ 4 mil — com recuo de cerca de 30% na carteira de crédito nos últimos 12 meses. “Também seguimos observando pressão nos portfólios de empresas de menor porte, no segmento agro e nas pessoas físicas de baixa renda, o que exigiu maior PDD.” — Foto: Arte/Valor O executivo reforçou a preocupação com a “qualidade do crédito, e não o market share”, e jogou para 2027 a perspectiva de uma melhora. “Eu não estou otimista para este ano, acho que o avanço é mais para 2027. A gente aguarda mudanças, melhora nas PDD, mas ainda tem atualizações da 4.966 [resolução do CMN que moderniza regras contábeis] a serem feitas, eu não sei qual será o cenário macro que vamos incorporar no modelo.” O mesmo em relação ao ROE: “Acredito que no ano que vem podemos voltar a patamares de ROE mais razoáveis. O que veio das últimas safras de originação me faz sentir confortável para atingir melhores níveis; o que não controlo é a velocidade”. O que justifica o aumento das PDD dos bancos em geral é a inadimplência elevada. O Indicador de Inadimplência de Pessoas Físicas, apurado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), revela que, em julho, a inadimplência atingiu 75,08 milhões de consumidores. Em dezembro, eram 73,09 milhões. No segmento de pessoa jurídica (PJ), o total de inadimplentes manteve patamar recorde. Em maio deste ano, estava em nove milhões de empresas, segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian. O volume de dívidas em atraso chegou a R$ 229,9 bilhões. O destaque positivo, entre os grandes bancos, ficou por conta do Bradesco, graças a um processo de reestruturação iniciado em 2023 e que antecipou a busca por uma melhora na qualidade dos ativos de crédito. “O banco conseguiu crescer a receita, a margem financeira, segurar despesas e o lucro avançou 3,5% no segundo trimestre, o que anualizado representa quase 15%”, comenta Conde, da Levante. Ele considera que o resultado é fruto do trabalho iniciado em 2023. No ano seguinte, o banco começou a frear o crescimento da carteira, para na sequência, em 2025 e 2026, iniciar o movimento contrário. “Falta muito a ser feito, quando olhamos para o Itaú, mas o caminho está correto”, avalia Conde. — Foto: Arte/Valor No ano passado, o lucro líquido do Bradesco chegou a R$ 24,5 bilhões, avanço de 26,1% na comparação anual, com um ROE médio anualizado de 14,8%. No segundo trimestre deste ano, o lucro chegou a R$ 7,05 bilhões, expansão de 16,2% sobre igual período do ano passado, e um ROE de 16,2%. “Quando lançamos o nosso plano de transformação em fevereiro de 2024, mensuramos o impacto das iniciativas que nos propusemos e construímos uma curva de recuperação da rentabilidade da organização. Hoje, estamos entregando ROE acima do que prevíamos para esse momento e em cenário macro bem pior do que considerávamos na época”, destaca Cassiano Scarpelli, CFO do Bradesco. “O ROE chegou a 16,2%, acima do nosso custo de capital, pelo terceiro trimestre seguido. Ainda não chegamos aonde queremos.” A carteira de crédito reestruturada do banco hoje é metade da que o Bradesco tinha em 2023. Aos poucos, volta a crescer. Em junho deste ano, a carteira subiu 11,6% ante junho de 2025. “Priorizamos linhas com colateral e bom retorno ajustado ao risco. Em pessoas físicas, destaque para o consignado e financiamento de veículos”, comenta o CFO, acrescentando que em pessoas jurídicas o destaque foi para linhas de capital de giro com garantia do governo federal. “Desde o fim do ano passado, mantivemos apetite ao risco moderado, mas viemos fazendo ajuste fino nos nossos modelos e preços, reduzindo exposição a clusters de clientes mais voláteis.” O percentual da carteira com colateral aumentou de 59% em dezembro para 61% em junho. Na carteira de pessoas físicas, a participação das linhas com garantia chegou a 69%. — Foto: Arte/Valor Sobre o avanço das PDD, Scarpelli explica que se deve em parte ao crescimento da carteira de crédito, por deterioração do cenário macro e alguns casos do atacado e de crédito rural. “Além disso, a Resolução 4.966 entrou em vigor e aumentou a formação de PDD no início das safras, de forma geral. Há muita incerteza sobre o cenário macro. Estamos preparados para reforçar o nosso balanço com a PDD que for necessária e continuar evoluindo.” Já o Itaú Unibanco teve o maior lucro líquido recorrente da história de um banco no país: R$ 46,8 bilhões em 2025, expansão de 13,1%, na comparação anual. No segundo trimestre deste ano, o lucro foi de R$ 12,4 bilhões, 7,8% maior, com um ROE de 24,3%. O banco também elevou a PDD para R$ 10,5 bilhões, avanço de 1,9% de janeiro a março. Os especialistas consideram que o cenário atual não sugere melhora na inadimplência. “Os bancos vão continuar restritivos porque os números macro mostram produção industrial em queda e o comércio vendendo menos, o que indica dificuldade em honrar compromissos”, diz Conde, da Levante, acrescentando a política monetária contracionista. O Brasil tem hoje o maior juro real do mundo, na casa de 9,3%. “Mesmo que a Selic caia a 13,25%, sendo otimista, não ajuda muito.” — Foto: Arte/Valor Para a Fitch Ratings, que acompanha mais de 85% do sistema financeiro, apesar da piora da inadimplência, a visão é de que não há um descontrole que traga riscos sistêmicos. “O que vemos é uma piora relativa que necessita ser monitorada de perto”, afirmam analistas da agência. Embora a Fitch tenha registrado downgrade na nota de crédito das grandes companhias, no segmento bancário a perspectiva é estável. Os bancos já vinham reduzindo concentrações em alguns segmentos e pedindo mais garantias reais na concessão de crédito, dizem os analistas. Para a agência, os bancos em 2026 ficaram mais resilientes, mesmo em cenário desafiador. Um exemplo é a melhora no RWA (Risk-Weighted Assets, cálculo de risco ponderado por diferentes ativos). “Com juro alto e a maior dificuldade em conceder crédito, as carteiras de crédito não crescem tanto. O resultado é que libera mais capital e a liquidez melhora.” A ponderação é que nos bancos menores o impacto é maior pela natureza do negócio. Muitos deles são focados em segmentos como as PMEs ou crédito consignado.