Um dos principais problemas é o grande número de alunos abaixo do nível de proficiência básico — o segundo em uma escala com seis níveis — esperado para um jovem de 15 anos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Aluno estuda para o Enem — Foto: Leo Martins A principal avaliação de educação no mundo mostra que o aprendizado de alunos brasileiros está estagnado há dez anos. E o pior: em um patamar muito baixo. De 91 países avaliados no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025, cujo resultado foi divulgado na terça-feira, o Brasil ficou na 71ª posição em Matemática, 52ª em Leitura, 67ª em Ciências e 69ª em Computação. Na comparação com a América Latina, está abaixo do Uruguai (país com melhor desempenho na região), Chile e México. E acima de Peru, Argentina e Equador. Um dos principais problemas do Brasil é o grande número de alunos abaixo do nível de proficiência básico — o segundo em uma escala com seis níveis — esperado para um jovem de 15 anos. Em Matemática, só 28% dos estudantes brasileiros atingiram ou ultrapassaram esse patamar. Enquanto isso, 65% dos alunos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), fórum de países ricos, conseguiram. O cenário se repetiu em Ciências (48% dos alunos brasileiros atingiram o básico contra 74% dos da OCDE) e Leitura (49% contra 69%). No nível básico de Matemática, é esperado que estudantes interpretem e reconheçam, sem instruções diretas, como uma situação simples pode ser representada matematicamente. “Por exemplo, comparar a distância entre duas rotas alternativas ou converter preços para uma moeda diferente”, explica a OCDE. Queda de países ricos Numericamente, a nota do Brasil cresceu seis pontos em Ciências (de 403 para 409) e caiu dois em Leitura (de 410 para 408) e Matemática (de 379 para 377) na comparação entre 2022 e 2025, as duas últimas edições. Enquanto isso, países da OCDE têm vivido uma queda histórica de aprendizagem. O grupo de 23 nações, que participam da prova desde a criação do Pisa, no ano passado atingiu o menor patamar de ensino nas três competências analisadas da série. Ainda assim, a diferença do Brasil para a média da OCDE é de 92 pontos no caso da Matemática (377 contra 469). A variação representa, de acordo com a metodologia do Pisa, uma diferença de três anos e meio a quatro de aprendizagem. Em Leitura, são 58 (408 contra 466) — ou cerca de dois anos de estudo a menos para os brasileiros. Há quase 20 anos, essas distâncias já foram maiores (de 131 e 102 pontos, respectivamente). A desigualdade diminuiu, porém, mais por conta da queda das nações ricas do que pela evolução brasileira. — Nunca tivemos tanta tecnologia e nunca foi tão importante saber ler profundamente, interpretar evidências, resolver problemas e formar julgamentos próprios. Só que essas competências estão se deteriorando em muitos países — avalia Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, voltado para a educação no Brasil . Crise de aprendizagem Entre 2006 e 2025, a Finlândia, que já foi, em um passado recente, referência mundial em educação, perdeu 80 pontos em Matemática, passando de 548 para 469, e 73 em Leitura, despencando de 547 para 474. Foi o país com a maior perda de aprendizagem nas duas competências. Já o Brasil cresceu 7 e 15 pontos, respectivamente, nesse mesmo período. Ainda assim, a diferença de aprendizagem se mantém grande, com vantagem para o país escandinavo. De acordo com o relatório da OCDE, uma série de mudanças explica a queda de desempenho em Leitura no mundo. Entre os estudantes, diz o texto, há maior dificuldade com tarefas que exigem envolvimento prolongado, menor disposição para se esforçar em avaliações escolares e um enfraquecimento da curiosidade e da perseverança. O relatório também aponta problemas na escola (o clima em sala de aula e as condições disciplinares podem ter se tornado mais difíceis, reduzindo o tempo disponível para a aprendizagem) e na sociedade (mudanças nos hábitos de leitura, uso mais intenso de dispositivos digitais, aumento do absenteísmo e menor apoio familiar) como fatores que contribuíram para essa redução histórica. Líderes asiáticos O Pisa 2025 também reforçou a liderança de países asiáticos na comparação com europeus. As províncias chinesas de Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang, que formam um único bloco no Pisa, tiveram as médias mais altas em Matemática e Ciências. Já em Leitura, a liderança é de Cingapura. Mas há queda da nota mesmo entre os líderes. Cingapura, por exemplo, regrediu nas três competências. Em Matemática, foram 12 pontos a menos na comparação com a edição de três anos anteriores. Já os países da América Latina ocupam as piores notas junto de nações africanas e de representantes do Oriente Médio. Ruanda, na África Oriental, participou pela primeira do Pisa e ficou com as piores médias nas três competências. — O Pisa 2025 mostra que a leitura atravessa uma deterioração que excede a América Latina: é a área que mais retrocedeu globalmente nos últimos anos. A diferença é que nossa região enfrenta essa tendência a partir de níveis de aprendizagem muito mais baixos — afirma Romina Durán, especialista em América Latina que é chefe de Pesquisa e Dados no Instituto de Evidência Educacional. Realizada a cada três anos pela OCDE, a prova do Pisa foi aplicada para 760 mil estudante de 15 e 16 anos nas escolas dos 91 países e economias participantes. No Brasil, 30.140 estudantes de escolas públicas e privadas fizeram o exame. Entrevista: Ernesto Faria, pesquisador em educação Como o senhor vê a queda histórica no mundo? Em 2022, também houve uma queda grande e foi muito natural associar o problema à pandemia. Essa nova queda em massa importante é alarmante e vai dar um chacoalhão para pensar o que as escolas têm que fazer. Quais as causas disso? Pode ter a ver com um mundo em que o processo de aprendizagem é diferente. Teve o impacto da pandemia, mas agora as crianças leem textos diferentes e mais curtos do que liam no passado. E tem o impacto da inteligência artificial. São pontos para a gente entender com mais estudos. O Brasil estar estagnado nesse cenário é uma boa notícia? Há uma concentração muito grande de alunos brasileiros nos níveis mais baixos da prova. E o Pisa talvez não tenha questões para discriminar estudantes nesses níveis, o que é um problema. Por isso, é preciso analisar melhor os dados do Brasil. Mas há algum mérito em pelo menos ter mantido o mesmo patamar. A própria OCDE reconhece que o Brasil, nesses dez anos, diminuiu a evasão e conseguiu seguir no mesmo nível de desempenho. Mas há um senso de urgência: o nível de aprendizagem é muito baixo, e é preciso resolver isso. Em agosto, o Ministério da Educação (MEC) publicou os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostrando que o Brasil havia retomado a aprendizagem que perdeu na pandemia. Mas o Pisa mostra o Brasil estagnado. Por que essa diferença? As provas têm características diferentes. O Saeb foca em habilidades que precisam ser garantidas e que são avaliadas de forma mais isolada. A lógica do Pisa é diferente. Ela tem textos maiores, que medem várias habilidades ao mesmo tempo. Com isso, mede o domínio de uma aprendizagem mais desenvolvida. Por essas diferenças, o Saeb é mais treinável e, no Brasil, ele influencia a política de remuneração nas redes e gera reconhecimento político. Isso faz com que as escolas se preparem para ele. A exigência maior do Pisa tende a fazer com que esses resultados sejam mais significativos. Um Saeb baixo é indicativo urgente de problema. Mas um alto ilustra algum sucesso que, eventualmente, não se concretiza no Pisa.