Os resultados do estudo Pisa de 2025 apontam os efeitos negativos do maior tempo gasto nas telas e o uso da IA pelos estudantes de 15 anos no mundo inteiro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 — Foto: Hermes de Paula/Agência O Globo O fascínio pelas redes sociais e o uso da inteligência artificial para trabalhos escolares mostraram efeitos negativos na aprendizagem dos estudantes de 15 anos no mundo inteiro. Os resultados do estudo Pisa de 2025 mostram uma piora recorde em matemática, leitura e ciências nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os mais ricos, comparada a uma estabilidade por 10 anos das notas, todas abaixo da média, do Brasil. A conclusão é que o país reduziu sua distância em relação aos países desenvolvidos, mas isso não significa haver progressos muito significativos em nenhuma das três áreas avaliadas. O Brasil avançou na universalização do ensino, mas enfrenta com enormes dificuldades o desafio da qualidade. Os estudantes brasileiros pioraram em matemática, recuaram ligeiramente em leitura e avançaram, também sem intensidade, em ciências. Na primeira disciplina, o fosso para alcançar a média dos 91 países avaliados é muito grande. O país ocupa a 71ª posição, isto é, está entre as 18 nações com o pior desempenho. A nota média, de 377 pontos, dista 86 pontos da média. E mesmo a média conta só parte da história. Não atingem o nível de desempenho minimamente básico em matemática 72% dos 30 mil alunos do país avaliados. A média das nações da OCDE é de 65%. O contingente de estudantes do país que atingem o nível básico em leitura foi de 49%, ante 69% da média, e de 48% em ciências, ante média de 71%. A métrica do Pisa mostra outros scores bastante desfavoráveis; praticamente nenhum estudante brasileiro chegou aos níveis 5-6, que indicam alto conhecimento em matemática, ante 8% dos demais da amostra. Apenas 1% teve ótimo desempenho em leitura, ante 6% da média. A estabilidade em 10 anos foi considerada positiva pelo governo brasileiro e pela OCDE, porque a cobertura educacional aumentou em 4 pontos percentuais em estudantes com 15 anos, indicando que o crescimento do número não trouxe queda das notas, como seria de se esperar. O contexto educacional, no entanto, piorou muito no resto do mundo. O Pisa mostrou a maior queda entre os países mais desenvolvidos em leitura, de 28 pontos, enquanto os demais países tiveram um recuo de 16 pontos. Mas a involução atingiu também as áreas de ciências, com pequeno recuo, e de 22 pontos em matemática. A proporção de estudantes dos país ricos que tiveram performance ruim subiu nos últimos dez anos de 16% para 20%. Os riscos para a educação, e para a cidadania, cresceram com o avanço do consumo das redes sociais pelos jovens e com o uso da inteligência artificial na confecção de trabalhos escolares, que tem efeitos positivos e negativos na aprendizagem. “O enfraquecimento da performance é anterior à covid-19 em vários países”, aponta o relatório da OCDE. “Em leitura, o aumento da digitalização, maior tempo gasto nas telas e baixas taxas de leitura como diversão coincidiram com menores taxas de instrução”. A constatação: países com maior declínio na avaliação de leitura tendem também a ter as maiores quedas em matemática e ciências. O relatório indicou que aumentou o despreparo para questionar os diferentes tipos de informação recebida, avaliar e pesar evidências e julgar sua qualidade. Na média dos países da OCDE, menos de 46% dos estudantes disseram checar a credibilidade das fontes de informação que recebem e a se apoiar menos na evidência científica do que no senso comum. A faculdade investigativa e crítica é ainda mais necessária hoje, diante da inundação de notícias falsas e desinformação que varrem as redes sociais, amplamente utilizadas pela juventude, que está mais vulnerável agora. Além de enfrentar deficiências de qualidade da instrução, os estudantes brasileiros também se deparam com o problema da desinformação. Mais da metade (51%) é incapaz de compreender o que está lendo, o contexto do qual o objeto da leitura faz parte ou de pensar criticamente o que está sendo lido. Ainda assim, resta o consolo duvidoso de o país não ter regredido ainda mais e aumentado a grande distância que o separa dos países ricos. O relatório levanta a nota otimista de que as diferenças são superáveis, e que países como Camboja, Mongólia e El Salvador, entre outros, melhoraram seus desempenhos ao longo do tempo. Dinheiro é uma parte importante da questão, mas não é tudo. Com gastos de US$ 288,521 por estudante, Luxemburgo teve pior desempenho que Irlanda, França ou Itália, que dispendem menos da metade disso. No Brasil, há exemplos conhecidos no Ceará, no Paraná, em Pernambuco e outros Estados que não estão entre os mais ricos, que mostram que uma abordagem ampla, que não deixa de fora professores, qualificação de diretores, remuneração, ensino integral e dedicação cada vez mais exclusiva, em especial aos alunos retardatários, é capaz de elevar consistentemente o nível de aprendizagem geral dos alunos. Falta disseminar lições e métodos que deram certo e abandonar de vez rotinas ultrapassadas.