Atualizações do governo chinês sobre o número de mortos têm sido limitadas, em parte devido à dificuldade das operações de resgate 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Inundações deixam mortos no Nepal e deslizamento provoca 'numerosas' vítimas no Tibete — Foto: AFP Quase duas semanas se passaram desde que uma forte avalanche de gelo, pedras e lama devastou um complexo fronteiriço no Tibete, mas a China ainda não divulgou uma lista oficial dos desaparecidos. No Nepal, pelo menos 1.341 pessoas morreram e cerca de 5 mil estão desaparecidas, de acordo com os dados oficiais mais recentes. No entanto, na falta de informações precisas do lado tibetano, as pessoas encontraram suas próprias maneiras de buscar ajuda e expressar sua dor nas redes sociais. As atualizações do governo chinês sobre o número de mortos têm sido limitadas, em parte devido à dificuldade das operações de resgate. As equipes de emergência chinesas levaram mais de dois dias para chegar à passagem de fronteira devastada, que estava coberta por mais de um metro e meio de lama espessa. No último domingo, autoridades tibetanas informaram que 43 pessoas foram mortas e 519 continuam desaparecidas. Internautas, então, fizeram um compilado de pessoas desaparecidas com base em contribuições públicas e as publicaram. Outros buscaram informações deixando comentários em postagens de influenciadores da região nas redes sociais, na esperança de que eles pudessem ter visto seus familiares desaparecidos. As postagens geralmente incluem um breve histórico de como essas pessoas começaram a trabalhar na fronteira, seus planos para o futuro, além de fotos dos filhos, cônjuges e outros familiares que as aguardavam em casa. A China tem tentado concentrar a atenção pública nos esforços de resgate do governo. Desde o desastre, em 26 de agosto, a polícia tem punido pessoas por espalharem informações falsas sobre o deslizamento de terra, enquanto jornalistas da mídia estatal e influenciadores digitais foram advertidos a seguirem rigorosamente a narrativa oficial. Veículos de comunicação estatais chineses têm destacado as histórias de alguns funcionários da imigração e policiais de fronteira do lado chinês da fronteira com o Nepal que estão desaparecidos. Essas histórias elogiam principalmente a dedicação e o sacrifício patriótico desses trabalhadores em uma fronteira hostil. 'Mamãe, por favor, volte logo para casa' Em contrapartida, muitas das mensagens publicadas nas redes sociais são retratos íntimos da perda, mostrando a dor pessoal e a incerteza que centenas de famílias estão vivenciando neste momento. Pessoas permanecem perto de casas inundadas por lama após enchentes repentinas, ao longo do rio Trishuli, em Betrawati, no distrito de Nuwakot, no Nepal, em 29 de agosto de 2026 — Foto: PRABIN RANABHAT / AFP Feng Guanglong, de 26 anos, publicou uma mensagem sobre Yang Shizi, seu amigo de infância que trabalhava na fronteira. Eles cresceram juntos em uma vila na província de Yunnan, onde nadavam nos rios, pescavam e se protegiam nas brigas com outras crianças na escola. — Se há algo de que me arrependo, é de não ter dito mais na última vez que conversei com ele — disse Guanglong. Após a tragédia, ele tentou entrar em contato com Shizi, mas suas ligações não foram atendidas. Mais tarde, ele viu o nome do amigo em uma lista não oficial de pessoas desaparecidas que circulava na internet. Ele sabe que há pouca esperança de que seu amigo tenha sobrevivido, mas não consegue se conformar até que haja a confirmação de sua morte. Ele disse que os dois irmãos e um tio de Shizi viajaram para o Tibete para aguardar notícias. Ele espera que, se os restos mortais não forem encontrados, pelo menos os pertences do amigo sejam localizados e tragam algum conforto à família. Também nas redes, um homem de 38 anos residente no Tibete publicou uma captura de tela de uma janela de bate-papo com mensagens enviadas à sua esposa pela filha no dia da enchente. "Quando você conseguir se conectar à internet, por favor, ligue para o papai. Ele está muito preocupado com você", escreveu ela. Em seguida, ela enviou outra mensagem dizendo que aguardariam sua ligação: "Tenho certeza de que você está bem". No dia seguinte, o desespero. "Mamãe, por favor, volte logo para casa", escreveu. Por fim, ela enviou a mesma mensagem quatro vezes seguidas. Não houve resposta. Luto coletivo Em resposta a questionamentos sobre a lenta divulgação de informações, autoridades chinesas afirmaram que a divulgação foi “pública, transparente e oportuna”. Uma das razões pelas quais o governo controla rigidamente as informações é o medo do poder do luto coletivo, segundo Yaqiu Wang, pesquisadora de direitos humanos e membro da Universidade da Pensilvânia. — Se as famílias tomarem conhecimento das experiências umas das outras, o luto individual pode se transformar em uma queixa compartilhada e, eventualmente, em uma exigência coletiva por verdade e responsabilização — afirmou a pesquisadora. Uma mulher que procurava pelo marido encontrou uma pista em uma reportagem. Ela publicou uma captura de tela de um vídeo mostrando pacotes fechados que pertenciam a trabalhadores fronteiriços desaparecidos no condado de Gyirong. Ela reconheceu uma caixa com fraldas que o marido havia comprado para a filha. Isso a deixou em pânico. "Dói tanto que mal consigo respirar", escreveu ela nas redes sociais. "Por favor, deixe-nos encontrar você, marido. Eu imploro".