Até agora, UE tem resistido. Mas vitória da direita radical em estado da Saxônia volta a acender alerta 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ulrich Siegmund, do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD), discursa — Foto: RONNY HARTMANN/AFP A Europa e o mundo precisam acompanhar com atenção os desdobramentos da vitória do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições de domingo no estado da Saxônia-Anhalt. Mesmo que seus 2,1 milhões de habitantes representem apenas 2,5% da população alemã, acende-se um sinal de alerta quando os eleitores dão uma guinada para a direita radical num país que foi berço do nazismo — e é a maior economia da União Europeia (UE). O resultado confirma a importância de questões como a imigração, nacionalismo ou guerras culturais na Alemanha e no continente europeu. Por apenas três deputados, o AfD não obteve as 42 cadeiras no Legislativo local necessárias para governar sem alianças. Ainda assim, pode fechar uma coalizão com a esquerda radical, cuja agenda tem pontos de convergência com a ultradireita. Os principais derrotados são o chanceler Friedrich Merz, da conservadora União Democrata-Cristã (CDU), e sua aliança com a União Social-Cristã da Baviera (CSU) e os social-democratas do SPD. Há algum tempo os regimes democráticos da UE convivem com legendas de ultradireita. Elas se fortaleceram na França, na Espanha, em Portugal, na Holanda, na Áustria e nos países do Leste. Ainda assim, o sistema de freios e contrapesos do bloco tem conseguido lidar com esse avanço sem implodir. O exemplo dessa adaptação é o governo da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni. Sua legenda é herdeira do fascismo de Benito Mussolini e leva no DNA impulsos autoritários. No poder, contudo, Meloni tem respeitado as regras do jogo democrático. Ela moderou seu discurso, tem apoiado a Otan e nem pensa em propor a saída da Itália da UE. Seu governo, iniciado em outubro de 2022, já é o mais longo da República italiana estabelecida em 1946 e é bem avaliado nas pesquisas de opinião. É possível traçar um contraste entre Meloni e Viktor Orbán, ex-primeiro-ministro da Hungria. Durante 19 anos e 10 meses de governo (cinco mandatos), Orbán promoveu um profundo retrocesso institucional, com intervenção no Judiciário, na academia e cerceamento à imprensa. Tornou-se uma referência para a ultradireita mundial ao cunhar o termo “iliberal” para designar seu projeto de regime. Ao menos respeitou a regra básica da democracia e deixou o poder quando perdeu a eleição em abril para Péter Magyar, um conservador de centro-direita e antigo aliado. A UE demonstrou flexibilidade para manter a Hungria no bloco apesar dos arroubos antidemocráticos de Orbán. Essa mesma flexibilidade pode ser necessária caso as eleições da França no ano que vem sejam vencidas por Marine Le Pen, do ultradireitista Reunião Nacional (RN). O resultado das urnas na Alemanha mostra que o risco do extremismo persiste — não apenas da direita, mas também da esquerda. O histórico recente sugere que a UE apresenta condições institucionais de evitar retrocessos como os da primeira metade do século passado. Mas será preciso manter vigilância para que as catástrofes autoritárias não se repitam.