No início de "Bunker", a editora Sofía e o arquiteto Miguel, vividos pelo casal da vida real Penélope Cruz e Javier Bardem, falam em um jantar sobre a primeira vez em que conversaram. Ele diz que, enquanto a escutava falar, ficou tão apaixonado que se comoveu e acabou chorando.

Depois, ele revela a verdade —um gato passou perto, e os pelos do bichano irritaram seus olhos. Todos na mesa riem, e alguém diz: "Até as maiores histórias de amor já começam com alguma mentira".

Essa frase com ares de maldição é uma espécie de tese sobre a qual se ergue o longa de Florian Zeller, exibido em competição no Festival de Veneza nesta terça.

Desde o começo, Sofía dá a entender que alguma coisa não vai bem no casamento, que já dura quase 20 anos. Eles são bem-sucedidos em suas profissões, têm filhas saudáveis e moram em uma linda casa, mas falta alguma coisa ali.

Tudo vira motivo de confronto. Um vizinho abre um buraco no muro que divide as casas, o que enfurece Miguel, mas Sofía acha que ele exagera. Quando um milionário convida o arquiteto para construir um bunker particular, onde ele possa se esconder quando os miseráveis do mundo se rebelarem contra os ricos, é a vez de Sofía se irritar.