O jornalista Carlos Dada, de El Salvador, teve que deixar seu país diante de desdobramentos políticos que tornaram incompatível o exercício da liberdade de expressão e de imprensa com sua segurança física. O El Faro, veículo do qual Dada é um dos fundadores, retirou suas operações de San Salvador em meio à concentração de poder nas mãos do presidente Nayib Bukele — cultuado pela Casa Branca e pela direita latino-americana por seu modelo de segurança pública que reduziu índices de criminalidade, ao custo do atropelo de garantias básicas do Estado Democrático de Direito. Em passagem por São Paulo para o Festival Piauí de Jornalismo, Dada conversou com O GLOBO e avaliou a conjuntura política em seu país: — Bukele deu um golpe na Corte Constitucional, controla os três Poderes do Estado, a Promotoria, a Polícia e o Exército. Em El Salvador, Bukele decide quem é criminoso e quem não é. Quando vocês fundaram o El Faro, em 1998, a violência urbana já era o assunto do país? Não. Nós vínhamos de uma guerra civil, que terminou em 1992, e tudo ainda estava se acomodando para essa nova etapa. O El Faro nasce pensando em criar um meio de comunicação mais adequado à nossa era democrática. Já existiam grupos criminosos, mas não os tínhamos entendido como um problema tão sério quanto viriam a ser. Foi mais ou menos na virada do milênio, entre 2001 e 2002, que as gangues passaram a atuar como atores políticos, a se organizarem contra medidas repressivas do Estado. Elas aprenderam muito rápido que a política é a arte de negociar, e que a moeda de troca que eles tinham eram os corpos nas ruas. El Salvador chegou a registrar 106 homicídios por 100 mil habitantes em 2015. Como foi manter a cobertura? Sempre nos negamos a entrar no jogo de “bons e maus”. Começamos a investigar o que eram as quadrilhas, como elas se estruturavam, qual a diferença delas para os cartéis, para as facções brasileiras... Com o tempo, conseguimos conversar com alguns líderes. Quando o presidente Mauricio Funes (2009-2014) fez uma trégua com as gangues, descobrimos e publicamos, aí começamos a sofrer ameaças: do governo, das gangues e das organizações de narcotráfico. Foi quando começamos a tomar medidas de segurança. Ainda assim, o El Faro permaneceu em El Salvador, até abandonar o país durante o governo Bukele. Por quê? Chegou ao poder um governo com vontade de se manter no poder, violando todas as normas constitucionais. Bukele iniciou seu governo basicamente destruindo a oposição e lançando um “plano de segurança”, que ninguém nunca viu de fato. No dia em que ele assumiu, os índices de violência diminuíram quase que de maneira mágica. Ele dizia que foi graças ao seu plano. Acontece que descobrimos muito rapidamente que ele tinha um pacto com as quadrilhas, e documentamos isso. Até hoje, ninguém no governo admite. Nos acusaram de tudo. Quando veio a pandemia e casos de corrupção, o El Faro se converteu na maior ameaça. Eles interceptaram todas as nossas comunicações com o [sistema israelense de espionagem] Pegasus, e a partir daí ficou muito difícil manter o trabalho. Que tipo de ligação encontraram entre a administração Bukele e o crime organizado? Soubemos das negociações de Bukele com criminosos por meio de documentos do próprio governo. Recebemos um pacote [de documentos], que fomos confirmando depois com fotos, vídeos e entrevistas, que documentavam entradas e saídas de líderes de gangues da prisão, trocas de mensagem entre autoridades com criminosos. Em maio do ano passado, entrevistamos líderes de gangues que tinham sido detidos em El Salvador, mas que estavam livres em outros países. Eles contaram em vídeo detalhes da negociação com o governo. Isso provocou a ira do governo contra nós, e acabou acelerando a nossa saída de El Salvador. E como passamos disso para o cenário atual, com aumento da repressão e o modelo de linha-dura que se tornou o sonho da direita latino-americana? O pacto entre Bukele e as gangues acabou em 2022. Então Bukele, que já tinha absoluto controle sobre todo o aparato do Estado, manda a polícia e o Exército fazerem capturas maciças. Ele aprova um regime de exceção, um dos pilares de seu modelo de segurança, que pela Constituição deveria durar 30 dias, e agora já vai para o quinto ano. Com isso, a polícia foi autorizada a prender qualquer pessoa que considerasse suspeita, sem ordem judicial ou necessidade de apresentação de provas. Mais de 90 mil pessoas foram presas em quatro anos, isso é, uma a cada 50 pessoas. Uma vez que essas pessoas entram na prisão, não têm direito a ver suas famílias, a falar com seus advogados e são submetidas a julgamentos maciços — um juiz anônimo decide o destino de um grupo por vez, não em casos individualizados. Quer dizer, é uma perda de todos os direitos. Esse é o modelo Bukele. Mais de 400 pessoas morreram por tortura em prisões. Entre as seis candidaturas mais relevantes na corrida eleitoral brasileira à Presidência, quatro citam abertamente o modelo Bukele como exemplo... Tenho ouvido muitos candidatos falarem sobre construir megaprisões no modelo do Cecot [Centro de Confinamento do Terrorismo, criado em 2023]. Aos olhos do resto do mundo, o Cecot é esse modelo de prisão de segurança máxima, que oferece tours a jornalistas, com celas perfeitamente iluminadas, membros de gangues colocados em fila e etc. Acontece que El Salvador tem 23 prisões, e ninguém pode entrar nas outras 22. O modelo Bukele é o que ele quer que você veja. Ninguém conhece as cifras reais de homicídio. Não há acesso a informação pública. Bukele deu um golpe na Corte Constitucional, controla os três Poderes do Estado, a Promotoria, a Polícia e o Exército. Em El Salvador, Bukele decide quem é criminoso e quem não é. O atual governo dos EUA virou um dos grandes apoiadores da exportação da agenda Bukele. Como se dá essa relação? Quando Joe Biden investiu em uma política externa para recuperar a autoridade moral dos EUA após o primeiro governo Trump, insistindo no respeito aos direitos humanos e nos valores democráticos, Bukele fez uma aposta e direcionou todo o seu capital político para apoiar Trump. Um movimento muito habilidoso foi oferecer o Cecot como destino de deportados. El Salvador tem um peso geopolítico muito pequeno, e a única razão pela qual há interesse dos EUA em nós é a popularidade de Bukele na América Latina. Ele é mais popular que os presidentes de muitos países, muito por causa de um programa de propaganda que entende muito bem as dinâmicas de comunicação atuais. Ele sabe que tem esse peso, e joga muito bem com isso.