O chamado "modelo Bukele", vendido como resposta à violência em El Salvador, ganhou espaço no debate eleitoral brasileiro. Pré-candidatos à Presidência passaram a citá-lo como referência no combate ao crime organizado.

Para Carlos Dada, 55, cofundador do jornal El Faro, a vitrine da megaprisão Cecot, sigla para Centro de Confinamento do Terrorismo, esconde um sistema marcado por detenções em massa e restrições de direitos.

O jornal que Dada dirige documentou o pacto do governo de Nayib Bukele com as gangues locais para promover a queda nos homicídios que fizeram do país o recordista em taxa de assassinatos em 2015, mas teve de deixar El Salvador após sofrer pressão e perseguição.

Hoje, a partir do exílio, Dada acompanha com preocupação a recepção do modelo no Brasil. "Fiquei preocupado que tantos candidatos no Brasil ofereçam o modelo Bukele como solução", disse à Folha. Dada também vê com apreensão a atração de parte do empresariado brasileiro pelo modelo, após o chefe da Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, apresentá-lo a industriais em São Paulo.

"Ele apresentou o combate à insegurança em termos quase bíblicos. Disse estar combatendo seres da escuridão. Isso é pura demagogia", afirmou. "Sobretudo levando em conta que esses seres da escuridão já foram sócios do governo Bukele."