No teatro russo tradicional, o termo balagan designava o teatro popular de feira que tomou praças a partir do século 18 —um território festivo onde farsas, números circenses, marionetes e improvisações se fundiam em uma deliciosa algazarra, borrando em definitivo as fronteiras entre palco e plateia.
Não por acaso, a palavra sobreviveu no vocabulário como sinônimo de festa e energia desmedida. É nessa vertente do teatro de rua, interativo e imersivo, onde o público recusa a passividade da penumbra para se tornar parte do cortejo, que pulsa a essência de "As Marias de Belém do Pará – Somos Todos Marias", em cartaz no Teatro Sesc Ginástico.
A farsa popular e o comentário social dão o tom de abertura: a assembleia de condomínio no fictício Edifício Galharufa, em Copacabana, começa sob as rédeas da síndica Maria Bete, vivida por Bete Mendes. O edifício se converte em um microcosmo verborrágico e bem-humorado das crises nacionais, onde as querelas sobre taxas, barulhos e corredores expõem a convivência inflamada entre a moradora Dona Dilma e vizinhos de ecos bem reconhecíveis da política recente: Jefferson, Michel e Cunha. O jogo cênico, ágil e farsesco, logo desmonta os impasses cotidianos em favor de um pacto coletivo: transformar a discórdia em cena e rumar para Belém para acompanhar a procissão do Círio de Nazaré.








