Os trabalhadores por aplicativo já formam um contingente de quase 2 milhões de pessoas no país. A maior parte atua no transporte de passageiros, mas as entregas também representam uma parcela expressiva. São, em sua maioria, homens jovens, com uma escolaridade intermediária e que trabalham por conta própria. Os dados são da pesquisa sobre trabalho por meio de plataformas digitais, divulgada nesta sexta-feira pelo IBGE. O levantamento, feito em conjunto com a Unicamp e o Ministério Público do Trabalho, permite traçar um retrato de quem utiliza aplicativos para ter seu sustento. Ao todo, 1,8 milhão de brasileiros trabalham por aplicativo como atividade principal. Deste total, seis em cada dez (58,9%) dos trabalhadores por aplicativo atuavam com transporte de passageiros, incluindo taxistas. Esse percentual representa quase 1,2 milhão de pessoas. Outros 29,9% estavam ligados a atividades de entrega, conforme as respostas ao questionário. Já 16% atuavam em serviços gerais ou profissionais mediados por plataformas, como eletricistas e diaristas. Os percentuais não somam 100% porque um mesmo profissional pode utilizar mais de um tipo de plataforma. Um motorista, por exemplo, pode trabalhar com transporte de passageiros e também com entregas. Por isso, os grupos se sobrepõem. O perfil de quem trabalha por aplicativo Fonte: IBGE O perfil dos trabalhadores de aplicativo é marcado por uma forte predominância masculina. Oito em cada dez (84,4%) são homens, enquanto 15,6% são mulheres. Estes profisisonais são, em maioria, jovens adultos. Quase metade (47%) dos profissionais estão na faixa de 25 a 39 anos, enquanto 11,3% têm entre 18 e 24 anos. Outros 36,1% têm de 40 a 59 anos, enquanto 5,4% têm 60 anos ou mais. A escolaridade também é baixa entre a maioria desses profissionais. Apenas 15,2% possuem ensino superior completo. Ao mesmo tempo, 62,5% têm apenas ensino médio completo, enquanto 13,9% têm só o fundamental completo. Outros 8,3% não tinham instrução ou tinham o ensino fundamental incompleto. A posição na ocupação é outra característica marcante desse mercado: 86,8% dos trabalhadores por aplicativo eram trabalhadores por conta própria. A proporção é muito superior à observada no conjunto dos ocupados no país, em que 28,9% trabalhavam por conta própria. Renda mensal parecida, mas mais horas de trabalho Em termos de rendimento, trabalhadores por aplicativo e demais trabalhadores do setor privado ganham, em média, valores parecidos. A diferença fica mais clara quando se relaciona a renda com o tempo dedicado ao trabalho. Em 2025, o trabalhador por aplicativo recebia, em média, R$ 16,20 por hora, contra R$ 18,40 entre os não plataformizados. Um rendimento por hora cerca de 12% menor. Ao mesmo tempo, os trabalhadores por aplicativo cumpriam, em média, 5,4 horas a mais de trabalho por semana em relação à média dos demais ocupados no país no setor privado, que era de 39,3 horas. Ou seja, a renda mensal semelhante é alcançada às custas de uma jornada mais longa. R$ 16,20 é o rendimento por hora dos plataformizadosR$ 18,40 é o rendimento por hora dos não plataformizados44,7 horas é o total de horas trabalhadas por semana entre os plataformizados39,3 horas é o total de horas trabalhadas por semana entre os não-plataformizados Quanto maior a escolaridade, menor a vantagem em trabalhar por app A pesquisa revela o quanto a renda de quem trabalha através de plataformas digitais pode ser maior quando há baixa instrução. Quem trabalha via aplicativo e tem baixa escolaridade possui um rendimento médio superior ao dos demais trabalhadores da mesma faixa, revela o instituto. Entre os que não tinham instrução ou tinham ensino fundamental incompleto, a renda média era de R$ 2.445, contra R$ 1.838 entre os não plataformizados, uma diferença de 33%. Rendimento médio por escolaridade Escolaridade Plataformizados Não Plataformizados Diferença Sem instrução/fundamental incompleto R$ 2.445 R$ 1.838 +33% Fundamental completo/médio incompleto R$ 2.615 R$ 2.100 +24,5% Médio completo/superior incompleto R$ 2.875 R$ 2.589 +11% Superior completo R$ 5.133 R$ 6.432 -20,2% Na faixa dos que só têm ensino fundamental completo, os que atuam por plataforma ganham, em média, R$ 2.615 por mês, contra R$ 2.100 dos que não trabalham via aplicativo. Uma diferença de aproximadamente 24,5%. Já entre os trabalhadores com ensino médio completo ou superior incompleto, a vantagem diminuía: R$ 2.875 entre os plataformizados, contra R$ 2.589 entre os demais, uma diferença de cerca de 11%. O resultado se inverte entre aqueles com ensino superior completo. Nesse grupo, os trabalhadores por aplicativo recebiam R$ 5.133, enquanto os não plataformizados tinham rendimento médio de R$ 6.432. Ou seja, a renda dos plataformizados era 20,2% menor. Autônomo, mas nem sempre independente A pesquisa do IBGE também mostra que escolher quando e onde trabalhar não significa, necessariamente, que a jornada dá total independência em relação às plataformas. Cerca de 38,8%, ou 701 mil pessoas, trabalhavam exclusivamente por plataformas e usavam apenas um aplicativo. Outros 37,3% combinavam o uso dos aplicativos com outras formas de conseguir clientes ou realizar o trabalho. Já 13,6%, ou 247 mil trabalhadores, combinavam outras formas de trabalho com dois ou mais aplicativos. Entre os motoristas de aplicativos de transporte particular de passageiros, 81,1% disseram que os horários de trabalho eram influenciados pela possibilidade de escolher os dias e horários de forma independente. Ao mesmo tempo, 56,3% apontaram o efeito de incentivos, bônus ou promoções que alteram os preços. Outros 28,1% citaram a sugestão de turnos e dias, enquanto 25,3% apontaram ameaças de punição ou bloqueio. A lógica se repete entre outras categorias. A possibilidade de escolher os próprios horários também foi o principal fator citado por taxistas (72,6%), entregadores (71,5%), trabalhadores de atividades de entrega que não eram entregadores (58,2%) e profissionais de serviços gerais ou profissionais (48,9%). Já os incentivos, bônus e promoções tinham peso maior entre taxistas (50,1%) e entregadores (47,4%). As ameaças de punição ou bloqueio também influenciavam a jornada de mais de 20% dos taxistas e entregadores.