A taxa de desemprego no Brasil caiu de picos de 13,9% em janeiro-março de 2017, e de 14,9% em janeiro-março de 2021, para apenas 5,3% em maio-julho de 2026. A primeira alta se deveu à grande recessão de 2014-16, e a segunda à pandemia. O nível do dado mais recente é praticamente recorde de baixa (que foi efetivamente o 5,1% de outubro-dezembro de 2025).PUBLICIDADEEssa enorme queda da taxa dos desocupados traz naturalmente a discussão sobre a chamada taxa de desemprego natural, ou neutra, aquele nível que não pressiona a inflação nem para cima nem para baixo. Antes da queda recente do desemprego, muitos analistas estimavam a taxa natural brasileira em 9,5%-10%, mas se esse nível fosse verdadeiro, haveria hoje pressões inflacionárias muito mais explosivas do que as que de fato existem.Uma discussão relevante, portanto, é sobre as causas da queda da taxa natural de desemprego no Brasil (hoje o consenso aponta algo em torno de 7-7,5%).Um primeiro candidato é a reforma trabalhista, sancionada pelo ex-presidente Michel Temer em julho de 2017. Ao flexibilizar as condições de contratação, incluindo a regularização de jornadas reduzidas, a reforma pode, de fato, ter permitido um nível de desemprego mais baixo sem pressões inflacionárias.Mas um gráfico que consta de estudo recente do Banco Central ("Inflação de serviços à luz da curva de Phillips: uma atualização") mostra que a queda da taxa natural de desemprego no Brasil começa em 2010 e se acelera a partir de meados da década passada (antes, portanto, da reforma trabalhista), com a estimativa central caindo para 7,2% na leitura mais recente.PublicidadeIsso sugere que outros fatores podem ter contribuído para a queda da taxa natural de desemprego. Um deles, explorado por economistas do trabalho do FGV-IBRE, é o fato de a força de trabalho ter se tornado mais velha e mais educada - em ambos os casos, aumentando a empregabilidade.Mas há, finalmente, o aumento dos trabalhadores por aplicativo - especialmente de transporte e de entregas -, a chamada "gig economy". É um tipo de ocupação em que há grande flexibilidade em termos de jornada e que, para ser iniciada, depende basicamente de ter à disposição um meio de transporte - que vai de uma bicicleta de entregadores até um carro de um motorista de Uber - e da decisão de entrar no mercado.No recorte da PNADC sobre trabalho por meio de plataformas digitais divulgado hoje pelo IBGE, consta que, dos dois milhões de brasileiros ocupados dessa forma em 2025 (seja no trabalho principal ou secundário), quase 25%, ou ¼, alegaram que o motivo para se "plataformizar" foi o de não conseguir encontrar outro trabalho.Esse dado corrobora a ideia de que as plataformas digitais são "empregadoras de última instância", podendo reduzir a taxa de desemprego de forma mais estrutural. Nos Estados Unidos, esse efeito foi constatado em estudo com o método de "diferenças em diferenças", baseado no fato de que o Uber entrou em cidades norte-americanas em diferentes momentos de 2013 a 2018. O resultado foi que, de fato, o desemprego cai em uma cidade quando o Uber começa a operar.Mas se, por um lado, a gig economy permite que a sociedade conviva com nível mais baixo de desemprego sem pressões inflacionárias, por outro ela amplia a precarização dos postos de trabalho. A pesquisa da PNDAC revela que quase 60% dos motoristas de automóvel plataformizados não estão cobertos pela Previdência (comparado a 25,5% dos não plataformizados), número que sobe para cerca de 80% no caso dos motoristas de motocicleta que usam plataforma digital para trabalhar.PublicidadeFernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/9/2026, sexta-feira.Vale ler tambémMuito além das commodities: o agro nacional rumo às prateleiras do mundoSteve Jobs construiu a Apple; Tim Cook a transformou na maior empresa do mundoFalta de terrenos em SP ajuda a ampliar projetos de galpões ao interior