— Foto: Lula Palomanes Um dos efeitos colaterais da recente Copa do Mundo foi o resgate do livro “O drible”, de Sérgio Rodrigues, lembrado durante o torneio como o grande romance brasileiro sobre futebol. “Não é sobre futebol”, rebate Rodrigues de primeira, assim que sentamos para este “À Mesa com o Valor”. Estamos na arejada varanda do restaurante Casa Camolese, que faz parte do complexo do Jockey Clube Brasileiro, na Gávea, em uma tarde sem corridas de cavalos. A Copa faz com que o assunto futebol domine a conversa. “O drible”, livro lançado em 2013, conta o relacionamento conflituoso entre um pai e um filho. O único assunto sobre o qual eles conseguem dialogar é futebol, suas variações e os dramas que acontecem, como se diz, entre as verdadeiras quatro linhas. “O romance é sobre esse conflito”, reforça o escritor e jornalista. “Eles não se comunicam, a não ser pelas histórias de futebol que o pai conta. Mas o que aparece em primeiro plano não é o futebol.” “O emburrecimento está levando as coisas muito rapidamente para o vinagre”, lamenta Sérgio Rodrigues — Foto: Luciana Whitaker/Valor Rodrigues diz ter certeza de que sua contribuição literária a esse esporte se esgotou com essa obra e não pensa em escrever mais sobre o assunto. “Eu acho que este é o único jeito de fazer ficção com futebol, porque o futebol não precisa da ficção. Ele já está pronto, tem tudo ali. Todos os conflitos, heróis, vilões, derrotas, humilhações, vitórias...”, pondera. “O futebol rejeita a ficção”, sentencia. Diante do que se vê em campo, “qualquer ficção sobre futebol vai ficar desacreditada”. Rodrigues credita a essa peculiaridade a falta de mais livros sobre esse que é considerado nosso esporte nacional. Público, pelo jeito, há. A Copa rendeu boas audiências de TV e séries sobre o esporte no streaming. Desde que “O drible” foi lançado, o que Rodrigues mais ouvia era uma cobrança: quando é que vem o próximo “Drible”? “Não tem próximo ‘Drible’”, respondia ele. “Me interessa agora explorar outras coisas.” “O que ‘O drible’ conseguiu fazer foi justamente dar um drible no futebol, jogar uma bola nas costas do futebol, fingindo ser uma coisa que na verdade era outra.” O escritor fala de futebol sem falar do esporte em si. Nada de marcação alta ou posse de bola, temas presentes em muita mesa de bar. Ele concentra seu raciocínio num comportamento associado ao futebol - “mas não só” - que ele chama de “emburrecimento”. O escritor com os filhos, a designer Clarissa, hoje com 25 anos, e o tradutor Daniel, de 29 — Foto: Acervo pessoal “As redes sociais usam uma arquitetura de informação que é feita para emburrecer. E aí não importa muito se você é inteligente, se você é bem informado ou se você está trazendo informação quentíssima. Não faz diferença, porque ali tudo se iguala”, diz. Rodrigues é daqueles que não se conformam com esse quadro por constatar que não tem como sair das redes sociais. “Hoje, sair das redes é como cometer suicídio social. Cada vez mais o mundo que existe está ali, a partir dali, e por causa daquilo ali.” Para ele, a dinâmica de conversa que as redes criaram “é uma dinâmica ruim, uma dinâmica errada, uma dinâmica em que a gente perde lucidez”. “Muita bobagem ganha repercussão porque a imprensa tradicional se pauta pelas redes sociais”, pondera. Coisas que circulam no mundinho estreito das telas de celular ganham repercussão quando vão parar nas páginas e nos sites dos jornalões tradicionais. Para Rodrigues, “isso é uma completa alucinação, mas é o que está rolando atualmente”. Rodrigues sabe o que é uma pauta. Bem jovem, veio de Muriaé, em Minas Gerais, onde nasceu e cresceu, para ser jornalista no Rio de Janeiro e se aprimorou nas letras por meio dos textos que produziu na imprensa diária e semanal. Foi repórter e correspondente internacional. Mais recentemente teve uma passagem pelo jornalismo de entretenimento escrevendo roteiros de entrevistas e documentários para o “Conversa com Bial”, da TV Globo. Foi colunista semanal da Folha de S. Paulo por dez anos, escrevendo sobre os dilemas e conflitos da nossa língua. É pai de dois filhos, a designer Clarissa, 25, e o tradutor Daniel, 29. “Ela achou logo o caminho profissional, ele demorou um pouco mais, mas hoje atua próximo da minha atividade”, diz. Antes de “O drible” - premiado com o Prêmio Portugal Telecom 2014 -, sua literatura nos deu “Elza, a garota”, em 2009, um romance-reportagem sobre o julgamento e condenação à morte de uma militante comunista brasileira, reeditado em 2018. Como correspondente do Jornal do Brasil em Londres, em 1988 — Foto: Acervo pessoal O acalorado debate sobre a “reescrita” - para fins de popularização - de alguns textos clássicos da literatura o levou a publicar “A vida futura”, em 2022, romance que narra um encontro entre Machado de Assis e José de Alencar no Rio de Janeiro atual para se contrapor à ideia de conquistar novos leitores com escritos que jamais foram escritos. No ano passado publicou “Escrever é humano - Como dar vida à sua escrita em tempo de robôs”, uma bem-construída defesa da literatura como obra do ser humano, tema bastante atual, já que a inteligência artificial vem “publicando” cada vez mais livros. “Não é literatura propriamente dita, mas é livro, é publicado e vende na Amazon. São livros comerciais, livros eróticos, coisas que sempre foram lixo”, afirma. Rodrigues admite usar a IA para pesquisa, que pode economizar tempo e ajudar na procura de foco e concentração. Nada além disso. “Hoje existe um grande debate sobre se dá ou não para usar a inteligência artificial numa escrita séria” ou, em outras palavras, se a IA pode produzir literatura. “Tem escritor que pergunta para a IA o que ela achou de um determinado texto. Ela responde e sempre faz sugestões. Eu não faço isso, não quero nem saber”, garante. Ele vê uma luz amarela pairando sobre as gerações futuras, as que serão formadas já tendo a IA como parte do dia a dia. “Corremos o risco de sermos engolidos pela IA. Se você não souber escrever, ela vai escrever por você. E você não vai nem ter vocabulário pra saber se o que ela te mandou tá bom ou não.” Ser escritor no Brasil de hoje envolve estar atento à realidade que nos rodeia e pode ter influência na literatura. Rodrigues está convencido de que as redes sociais e o avanço da IA são assuntos urgentes e que a literatura, como arte, tem um papel de crítica que pode ser decisivo. Não há mais tempo a perder, acredita. O autor de “O drible” entrevista um dos maiores dribladores da história, Pelé — Foto: Acervo pessoal Por isso avisa: um novo livro chega no começo do próximo ano. “É um livro de contos”, revela. Um livro que se impôs. “Eu não estava pensando nisso, achei que era melhor deixar a poeira assentar. Mas fui atropelado por essas histórias.” Os contos são uma tentativa de projetar um desdobramento do que está acontecendo, que, segundo o autor, não é nada bonito. “Não se trata de mostrar uma realidade alternativa, pelo contrário, é o reconhecimento de que o emburrecimento está levando as coisas muito rapidamente para o vinagre.” Os garçons começam a servir os croquetes que pedimos como entrada, acompanhados de água com gás e um suco de melancia. A conversa toma o rumo de Muriaé. Rodrigues está descobrindo só agora o que a literatura tem pra contar sobre aquelas origens. “Sempre foi uma fuga, eu quis sair de Muriaé e de Minas Gerais, que é um lugar bem legal, mas pode ser opressivo”, diz. “Mas você não consegue fugir. Tenho pensado muito em histórias profundamente mineiras, histórias passadas em fazendas. Preciso voltar lá e dar conta de algumas coisas que ficaram para trás”, reflete. “Ninguém consegue fugir completamente dessas origens.” Mais um mineiro morador do Rio e torcedor do Flamengo. A bola do futebol volta à conversa. Hoje os jogos passam em telas variadas, mas quem gosta sabe direitinho onde o futebol está. Rodrigues acha que o Brasil jogou como time pequeno na Copa e avança mais um pouco na área da resenha esportiva: “Talvez a gente perdesse do mesmo jeito se tentasse atacar a Noruega, mas seria uma derrota um pouco mais digna”. Os conflitos do futebol nos levam de volta aos conflitos da literatura. Acontece nos gramados e também nos escritos, como em “O drible”. “Precisa de conflito. Acho que é o que move [uma trama]. Não precisa, necessariamente, ser um conflito clássico, que opõe dois personagens. Pode ser um conflito dentro da cabeça de uma pessoa. Mas, se estiver tudo em paz, tudo pacificado... não tem literatura. Literatura começa a existir quando as coisas dão errado.” Você não vai nem ter vocabulário pra saber se o que [a IA] te mandou tá bom ou não” Ele acrescenta: “O happy end, o final feliz, deveria ser quase proibido, porque a vida não é assim, ela sempre acaba mal. Termina com a morte do personagem principal, que é você”. O Brasil e seus escritores têm pela frente o período eleitoral. A literatura pode oferecer aqui uma contribuição, já que na política nenhum dos lados da polarização está disposto a ouvir o outro. “É fundamental conseguir imaginar coisas diferentes de você. A literatura é um bom exercício disso, de alteridade, de imaginação, de visões de mundo que não são as suas.” Rodrigues receia que a pobreza de um debate político totalmente polarizado possa estar contaminando a literatura. “A ambiguidade é própria da literatura, é uma espécie de zona cinzenta em que um personagem pode ser um bandido, mas ter lá suas qualidades. Ninguém é completamente bom, ninguém é completamente mau. Somos seres humanos. Isso vem sendo questionado por muitos leitores”, afirma. “Existe uma certa cobrança, ainda não explícita, para que o escritor deixe muito claro quem é o herói, quem é o vilão, e construa histórias bem didáticas, sem ambiguidades. Talvez seja mais um reflexo desse mundo algoritmizado em que estamos metidos. Tem gente puxando para o lado da simplificação. Ou você está com os bons ou você está com os maus.” Na outra direção desse cabo de guerra tem muita coisa extraordinária sendo feita. Ele cita a escritora brasileira Paulliny Tort, que escreveu “Os imortais” (ed. Fósforo), livro que narra o encontro entre neandertais e sapiens na nossa pré-história. “É uma obra-prima, um dos maiores romances do século, com certeza”, garante. Os garçons da Casa Camolese chegam com nossos pedidos. Rodrigues prova do seu frango caipira e observa que esperava outros acompanhamentos - “talvez o quiabo. Mas tá muito bom”. Conhecido como um país que lê pouco, o Brasil vive o paradoxo de ter uma literatura que vende bem atualmente, com autores vendendo mais do que se vendia 20 anos atrás. Rodrigues acredita que a literatura feminina e a literatura negra tiveram papel importante nesse movimento “porque elevaram o teto de venda de livros brasileiros, de ficção brasileira”. “Para um país de 200 e tantos milhões de habitantes, as nossas vendas são baixas, porque a cultura da leitura aqui ainda é rasa”, afirma. “Precisamos acabar com essa mania de fazer os jovens de 14 anos lerem José de Alencar na escola”, ironiza. Para ele, essa é uma prática segura “de formar não leitores”. “Acho que seria mais proveitoso dar a eles a literatura atual, a que fala de problemas e situações que aqueles adolescentes vivem, em cidades que eles conhecem, retratando um mundo e uma linguagem que eles reconheçam. Mais tarde, se esse jovem quiser mergulhar na linguagem do século XIX e ler ‘Senhora’, de José de Alencar, maravilha.” “Eu não sou professor”, lembra Rodrigues, “estou falando como observador e escritor. Eu não acho que os chamados clássicos sejam a porta de entrada mais apropriada para novos leitores”. A educação do leitor é uma das preocupações centrais de Sérgio Rodrigues no papel assumido de cronista da nossa língua, função que ele exerceu por mais de 15 anos na imprensa diária e que foi a base de um de seus livros de maior sucesso, “Viva a língua brasileira”, de 2016. O próprio Rodrigues deu o seguinte subtítulo à obra: “Uma viagem amorosa, sem caretice e sem vale-tudo, pelo sexto idioma mais falado do mundo - o seu”. Ele até já entrou em algumas polêmicas por causa da defesa que faz do jeito brasileiro de falar português. “Quem disse que nós falamos errado?”, pergunta, beirando a indignação. “Nós falamos a nossa língua, do nosso jeito.” Acrescenta: “A maioria da nossa população era escravizada, jamais aprendeu português na escola, nem escolas havia. Portugal proibiu a publicação de livros no Brasil. A educação era muito ruim, tanto lá no reino quanto aqui na colônia”. Rodrigues não aceita que agora Portugal se declare dono da língua e decida “o que é certo e o que é errado”. Ele propõe uma reflexão a respeito de “como é bonita, por exemplo, a fala do malandro de Salvador do Jorge Amado ou dos cangaceiros ou do Riobaldo e outros personagens de Guimarães Rosa. Eles falam errado?”. Acha importante ressaltar que essas pessoas nem falam “errado” nem são burras. “É português, é o nosso português e é como falamos.” Para ele, esses pequenos combates refletem a polarização da sociedade. Como em todo o resto, tem o lado que acha “certo” seguir a gramática lusitana em oposição aos que acham “’errado” qualquer brasileirismo. E vai mais longe: acha que o brasileiro ainda não descobriu o “poder linguístico” que o português falado aqui confere ao Brasil. Leitor voraz, ele reconhece, resignado, a força das redes sociais: “Agora tenho dificuldade para ler, para me concentrar... Eu tinha uma capacidade imensa de mergulhar em livro e passar o dia inteiro ali dentro. Hoje fico o tempo todo olhando a rede social... isso me distrai... acho que estamos sendo reformatados, nossa atenção está sendo chamada para outras coisas o tempo todo”. Todos abrem mão de sobremesa. O café é só para dois. Estamos perto das despedidas, mas nossa atenção é desviada mais uma vez pelo algoritmo. Gostar ou não da comida e do serviço é questão de opinião. “Hoje em dia todo mundo tem opinião, as redes sociais abriram essa comporta, embora poucas pessoas deveriam ter sua opinião levada a sério. Acho que os algoritmos separam o joio do trigo, promovem o joio e escondem o trigo”, diz Rodrigues, brincando, mas falando sério. O escritor, formado no jornalismo, lembra de uma época em que só alguns eleitos davam opinião e cita o colunista de política Carlos Castelo Branco (1920-1993), o Castelinho, que era respeitado por sua coluna no antigo Jornal do Brasil, depois de apurar informações com fontes quentes e abalizadas. “Não se apura mais para opinar. A opinião hoje ficou barata.”
As redes sociais têm uma estrutura feita para emburrecer, diz escritor Sérgio Rodrigues
Autor, que lança livro de contos no começo de 2027, defende os ‘erros’ que brasileiros cometem com a língua portuguesa







