Mas é importante prestar atenção aos detalhes: presidente não vetou discussões de reajustes mais moderados, embora tenha tratado uma alta de 3% acima da inflação como irrisória 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva — Foto: Aaron Schwartz/Bloomberg Na cerimônia em que celebrou a redução da fila do INSS, o presidente Lula fez uma enfática defesa da política de reajuste real do salário mínimo. Na fala, ele chegou a mencionar o valor de 3% acima da inflação, indicando considerar algo muito baixo para ser questionado e tratado como um risco de fazer o país quebrar, uma vez que está se falando do piso do país. A atual regra de reajuste, que vincula o mínimo ao Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes, foi um dos fatores para que a Previdência, mesmo tendo tido uma reforma relativamente recente, tenha experimentado uma aceleração no seu déficit ao longo desse mandato. Não à toa, já ao fim de 2024 Lula teve que aceitar sujeitar essa regra ao teto de gastos, limitando o reajuste a no máximo 2,5%, algo ainda relevante para as contas previdenciárias – à época, alguns técnicos do governo defendiam uma moderação ainda maior. A piora acelerada do saldo previdenciário já alguns analistas a voltarem a sugerir a necessidade de nova reforma em um prazo curto. Ainda que, de fato, temas como idade mínima precisem ser rediscutidos à luz da demografia, o problema previdenciário parece mais simples de resolver com uma moderação, mesmo que por poucos anos, na política de reajuste real e uma melhora na estrutura de financiamento, machucada pelo processo de pejotização na economia. Ao falar sobre o tema hoje, Lula reforça a disputa política com o campo da direita, historicamente defensora de políticas como congelamento do valor do piso e desvinculação com a Previdência – ainda que a principal candidatura adversária, de Flávio Bolsonaro, não esteja se comprometendo com nada que pareça impopular nesse momento. Além disso, o presidente demarca para seus eleitores e para seu próprio time, que andou sinalizando que o governo pretende fazer um reforço fiscal após as eleições, algumas linhas básicas: O tamanho do reajuste pode ser discutido, mas ele não abre mão de conceder algo além da inflação. E, implicitamente, demonstra algo que já disse nos bastidores, que é não aceitar discussões como desvinculação, apesar de alguns membros do seu time terem simpatia pela ideia. O chefe do Planalto trata um reajuste real de 3% para o mínimo como algo irrisório. Mas não é, pelo menos do ponto de vista das contas públicas. Cada R$ 1 a mais no mínimo representa R$ 413 milhões a mais de gastos na Previdência. Assim, considerando-se o valor atual, de R$ 1.621, uma alta de 1% significaria R$ 6,7 bilhões a mais em gastos. Uma elevação de 3% representaria R$ 20,1 bilhões. E ainda tem a reposição da inflação em si. A proposta de Orçamento para 2027, por exemplo, prevê que o valor suba para R$ 1.741, uma diferença de R$ 120, ou 7,4% (alta real de 2,3%), quase R$ 50 bi a mais nas despesas. Ao longo dos anos, os valores vão se acumulando e ampliando o déficit público. Com a eleição mais apertada, como mostram as pesquisas, é natural que quem está na disputa queira deixar claro algumas posições que o diferenciam de seus adversários. Além disso, buscar incentivar sua militância a defender suas políticas. Ainda que Lula não seja tão reativo às pesquisas, a fala dele nesse contexto mais adverso chama a atenção. Se de um lado tem um efeito político importante, de outro pode tornar mais difícil a vida de seus ministros da área econômica, que tentam sinalizar um novo ciclo com mais austeridade. Nesse sentido, porém, é importante prestar atenção nos detalhes. Lula não se comprometeu com a atual política de vinculação ao PIB limitada ao teto. Comprometeu-se a dar reajustes reais. Se forem mais moderados, já seria uma grande ajuda para a trajetória da Previdência e das contas públicas.