Diante de uma extrema-direita violenta, organizada pela burguesia e que percebeu o fim do pacto social do pós-Guerra, a esquerda precisa apresentar um programa radical, anticapitalista, capaz de transformar, de fato, o cotidiano dos cidadãos, defende a historiadora portuguesa Raquel Varela. Especialista em revoluções e no movimento operário, fundadora do jornal ­online Maio, apoiado por sindicatos e organizações sociais de seu país, a professora da Universidade de Lisboa critica não só a acomodação do campo progressista, mas o sectarismo de certas correntes. “Há uma esquerda profundamente institucional e simultaneamente fanática”, afirma na entrevista a seguir, concedida durante uma rápida passagem por São Paulo. A íntegra está no canal do ­YouTube de CartaCapital.

CartaCapital: Em que estágio está a expansão da extrema-direita na Europa?Raquel Varela: Bem, para começar, não creio que estamos a viver o mesmo momento histórico dos anos 1930 do ponto de vista da base social do fascismo. Há, claro, um perigo em comum, a violência organizada. A Europa é o centro dessa ideologia contra os imigrantes, que não é nova no continente, nem sequer no mundo, mas ganhou dimensão com este exército industrial de reserva. Nunca tivemos tanta imigração em escala mundial. Mas não acho que possamos comparar as atuais com as correntes fascistas dos anos 30.